O melhor da TV em 2011

por Rodrigo Seabra

É curioso observar como a crítica especializada vem sendo consistente ao eleger os melhores (e piores) shows de TV do ano em 2011, diferentemente do que acontece, por exemplo, com a escolha dos melhores filmes. Considerando a quantidade de listas já divulgadas e o fato de que elas só aumentam, mas não divergem muito, resolvemos, então, fazer diferente n’O Pipoqueiro: ao invés de mais uma seleção particular de melhores séries de TV, vamos apresentar um balanço do que foi unanimidade (ou quase) nas várias listas respeitáveis que saíram recentemente.

Para tanto, consultamos não apenas 1) os resultados e comentários divulgados por publicações sérias, mas também 2) a reação do público nos mesmos sites e 3) as recém-divulgadas indicações aos Globos de Ouro 2012, suas muitas inclusões despropositadas e omissões absurdas, além de 4) acrescentarmos a experiência própria, claro.

Dentre os dramas, é fácil perceber que a quarta temporada de Breaking Bad (canal a cabo AMC) levou o caneco de crítica e público como a melhor coisa na televisão de 2011. O tenso jogo de xadrez entre os cada vez mais cruéis Gus Fring e Walter White arrastou Jesse, Hank e Skyler pelo esgoto com roteiros e atuações irrepreensíveis. Por isso mesmo, causou indignação geral a ausência de Breaking Bad nas indicações a melhor série dramática nos Globos, o que mais uma vez demonstra o crescente distanciamento entre as premiações hollywoodianas e a realidade (e, com isso, a também crescente desimportância dessas premiações). Aaron Paul também foi inexplicavelmente deixado de lado na categoria de ator coadjuvante, enquanto Bryan Cranston pelo menos garantiu uma lembrança na apertada disputa por melhor ator principal.

Outro expoente conseguiu mais justiça. Trata-se da estreante Homeland (canal a cabo Showtime), aclamada talvez unanimemente como a melhor nova série na TV americana e indicada como melhor série dramática. Damian Lewis e Claire Danes dão verdadeiras aulas de interpretação como o Sargento Nicholas Brody, veterano da guerra no Iraque que pode ou não ter sido convertido ao terrorismo anti-americano, e Carrie Mathison, a problemática agente da CIA que se encarrega de vigiá-lo. Ambos os atores são concorrentes na premiação. O veterano Mandy Patinkin, não indicado, também não fica atrás, no papel do mentor de Carrie. A série, instigante e inteligente, merece toda a ovação que vem recebendo.

Outra série corretamente indicada e elogiada é Game of Thrones (canal a cabo HBO), uma história de muitas atuações competentes, muitos personagens e também muito hype – felizmente, a série sobreviveu excepcionalmente bem ao que era esperado dela. Da TV aberta americana, talvez somente The Good Wife (CBS) tenha sido bem lembrada como destaque, mais uma vez com grande merecimento.

As quatro séries podem ser encaradas como estando em um mesmo nível da mais alta qualidade que a dramaturgia televisiva tem a oferecer – provavelmente junto a Mad Men, que não teve temporada em 2011, mas volta em 2012. Mas é fato também que as temporadas de Boardwalk Empire (HBO), Treme (HBO) e Spartacus: Gods Of The Arena (Starz) foram constantemente lembradas como pontos altos dentre os dramas de 2011. Fica claro que a TV a cabo americana está cada vez mais enterrando os dramas de canais abertos, certamente pelas enormes possibilidades de temática, linguagem e direcionamento que simplesmente não podem ser exploradas em redes abertas a todo o público.

Mas isso não é característica exclusiva das séries dramáticas. O melhor exemplo é a comédia Louie (FX), provavelmente a grande eleita do (restrito) público e da (ampla) crítica como melhor do ano que termina, rivalizando inclusive com a sisuda categoria dos dramas. Estrelada pelo comediante de stand up Louis CK (ao lado), a série é elogiada não apenas pela extrema inteligência de seus roteiros, mas pela versatilidade que a leva a despertar risadas escrachadas e sentimentos familiais ao mesmo tempo. É uma série que não tem medo de explorar terrenos perigosos, como a estranheza que Louis, tanto personagem quanto ator, sente em ser o pai de duas meninas, nem de se manter aberta em termos de narrativa, como é o caso da própria comédia stand up. Lembrando Seinfeld em diversos aspectos, a série também intercala momentos de palco com os de vida real.

Infelizmente, em termos de séries cômicas, o grande público costuma se concentrar em torno do apelo mais fácil de séries bobinhas, o que levou Community (do canal aberto NBC) à situação em que atualmente se encontra, à beira de ser cancelada. Os roteiros bem amarrados e cheios de referências fizeram a série se destacar pelo terceiro ano consecutivo em meio à crítica especializada e a uma comunidade de fãs feroz e apaixonada, que lembra o culto a Arrested Development (comédia que voltará a ser produzida em 2013, para alegria geral). E é verdade: a inteligência das aventuras do grupo de estudantes da Universidade Pública de Greendale não chega perto de nada do que está no ar atualmente.

A turma de Parks and Recreation (NBC) é outra que foi largamente elogiada e vem derrapando no Nielsen (o medidor de audiência americano) há quatro temporadas, ainda que com mais sorte que Community. Enquanto isso, It’s Always Sunny in Philadelphia comemorou sua sétima temporada no canal FX sem se preocupar com o puritanismo nem com a audiência, que não importa da mesma maneira em canais a cabo. Difícil de acreditar que, já há sete anos (e renovados para mais dois), Dennis, Mac, Charlie e Dee fazem todos os absurdos que se possa pensar em torno de seu bar na Filadélfia e não apenas continuam firmes no ar, mas rendendo ótimas e novas histórias. Só mesmo na TV a cabo.

Outras séries dignas de uma menção honrosa são Happy Endings (do canal aberto ABC), que estreou no midseason de 2011 e já garantiu muitos elogios em sua segunda temporada (com comparações a outras boas séries de grupos de amigos, como Friends e How I Met Your Mother), e a animação Archer (FX), em sua terceira temporada e já agraciada com um prêmio “Melhor Série A Que Você Não Está Assistindo” pela organização GLBT Logo. Cabe ainda lembrar o gênero intermediário das “dramédias”, em baixa na TV americana, mas representada na escolha da crítica pela série britânica Misfits, sobre um grupo de adolescentes sarcásticos que ganha superpoderes.

É importante salientar que nenhuma das séries cômicas mencionadas acima foi indicada aos Globos de Ouro, que preferiu se concentrar entre o insosso (Episodes, New Girl e a terceira temporada da antes genial Modern Family) e o francamente ruim (Glee), deixando como salvação apenas Enlightened, que conquistou elogios esparsos em sua temporada de estreia. Nas indicações de atores, poucas surpresas (David Duchovny por Californication – ao lado, presença de Johnny Galecki e ausência de Jim Parsons por The Big Bang Theory) e mais desmerecimento (Matt LeBlanc por Episodes, Zooey Deschanel por New Girl e a péssima Sofia Vergara por Modern Family). É de se perguntar que televisão é essa que a Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood andou vendo, porque certamente votou no piloto automático e perdeu o que havia de melhor nas temporadas de 2011.

A história das listas de fim de ano parece nunca terminar e rende ainda escolhas daquilo que de pior a TV americana produziu. Pra informarmos bem o leitor e sermos justos com o que merece vaia, vale mencionar também. As séries mais detonadas pela crítica (e aqui, vale dizer, nem sempre detonadas pelo público, que adora uma porcaria) são, sem dúvida, Whitney (NBC), I Hate My Teenage Daughter (Fox) e Last Man Standing (ABC). São realmente o pior tipo de comédia no ar, recicladas à exaustão e só indicadas se você realmente quiser ser ofendido por personagens sem qualquer carisma e histórias que passam longe do humor inteligente. Por conta própria, juntaríamos a isso a atual temporada de Two And a Half Men (CBS), o ponto mais baixo de uma série sempre desigual, que ganhou repercussão não por seus méritos, mas pelas lambanças de Charlie Sheen, que, gostemos da série ou não, era a alma do negócio.

Dentre as séries dramáticas, levam o abacaxi Charlie’s Angels (tentativa desastrada de recriar As Panteras com elenco e historinhas sem vitalidade alguma) e Terra Nova (mais alvo de decepção generalizada que de crítica) – lembrando que 2011 foi o ano em que escapamos de ter o também tenebroso remake de Mulher-Maravilha, cujo piloto recusado vazou online e preferimos nem qualificar. Ainda foi bastante mencionada, com enorme razão, a mais recente temporada da grande série Dexter, um desastre em diversos sentidos, especialmente nas “grandes revelações” da temporada que não pegaram ninguém de surpresa e na menção desonrosa para Colin Hanks como o inexpressivo ator convidado.

Outras tantas séries atraíram grupos de defensores e de detratores ao mesmo tempo (como Once Upon A Time, American Horror Story, a segunda temporada de The Walking Dead e a comédia 2 Broke Girls) e ficam na coluna do meio. Mas, para fechar em alta, vamos recomendar séries que foram lembradas aqui e ali em listas de boas temporadas e merecem uma conferida, como as iniciantes Revenge (um guilty pleasure geral, parece), Suburgatory e Boss, e ainda Men of a Certain Age (em sua temporada final), Justified, Sons of Anarchy (ressurgindo com méritos), Fringe (quase na repescagem, infelizmente), Terriers (que estreou e foi cancelada em meio a indignação e elogios isolados) e Bob’s Burgers (uma animação tosca e engraçadíssima). Pelo que pudemos acompanhar da maioria, são todas séries que valem a pena, apesar de não terem estado com tanta frequência na elite de “o que assistir” de 2011. Veja assim mesmo!

Dexter deu uma escorregada na sexta temporada

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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