Robôs e Hugh Jackman fazem uma boa briga

por Marcelo Seabra

Confesso que não esperava muito de um filme que acompanha as desventuras de um promotor de lutas entre robôs. Ainda mais sabendo que há aquele velho conflito do pai distante com o filho que parece ser durão, mas não passa de uma criança carente. Gigantes de Aço (Real Steel, 2011) é uma divertida superprodução que, mesmo apresentando lutas interessantes entre máquinas, foca mais seus personagens e demonstra uma preocupação genuína em desenvolvê-los.

O eterno Wolverine Hugh Jackman, fazendo caras que lembram descaradamente Clint Eastwood, mais uma vez se desvincula com sucesso de seu personagem mais famoso, o mutante dos X-Men. Ele faz um ex-lutador que vive de pequenas apresentações com robôs boxeadores, viajando pelos Estados Unidos em um grande trailer, que acaba sendo sua casa. O estilo de Charlie lembra um pouco o personagem de Jackman em A Senha (Swordfish, de 2001), a diferença é no quesito família.

Quando uma ex-namorada morre, Charlie revê o filho de 11 anos (Dakota Goyo), com quem não teve contato algum. Tentando, num primeiro momento, levar vantagem, ele aceita ficar com o garoto por algum tempo. O que se segue é o velho clichê da relação que aflora. Mas o fato de ser previsível não torna o longa enfadonho. O roteiro consegue a façanha de atribuir algo próximo de uma personalidade às máquinas, e o público passa a torcer nas lutas. Os animatronics e efeitos especiais ajudam, claro, tornando aquela realidade de 2020 mais crível.

Além da premissa, outra característica que trazia certa desconfiança é o diretor do projeto, Shawn Levy. Responsável por bobagens “família” e comédias bobocas como os dois Uma Noite no Museu (A Night at the Museum, de 2006 e 2009) e Doze É Demais (Cheaper by the Dozen, de 2003), Levy não costuma inspirar grandes expectativas. Mas, com produtores executivos como Steven Spielberg e Robert Zemeckis, o resultado poderia ficar acima do esperado. E, logo no início da projeção, uma informação que até então havia passado batida é bem animadora: trata-se da adaptação de um conto de 1956 de Richard Matheson, prolífico autor de clássicos do terror e da ficção-científica como Eu Sou a Lenda, Ecos do Além e O Incrível Homem que Encolheu e roteirista de séries como Além da Imaginação e Histórias Maravilhosas.

A comparação com Inteligência Artificial (Artificial Intelligence, 2001), do próprio Spielberg, é inevitável, mas esta é apenas uma das várias produções que vêm à mente. A principal inspiração parece ser Rocky, Um Lutador (1976), o azarão de bom coração vivido por Silvester Stallone. E o longa se aproxima da fantástica animação O Gigante de Ferro (The Iron Giant, 1999) quando o garoto começa a desenvolver uma grande simpatia pelo robô que encontra.

Não há vilões interessantes em Gigantes de Aço – o casal que controla o poderoso Zeus é bem insosso e eles nunca chegam a ser bons antagonistas, papel que acaba caindo melhor ao caipira mau caráter vivido por Kevin Durand (de Robin Hood, 2010). Com algumas participações de rostos reconhecíveis, como Anthony Mackie, Hope Davis ou Evangeline Lilly (o interesse romântico mal resolvido de Jackman), o filme é um show que pertence a seu protagonista, ao jovem Dakota e ao robô Atom, por quem acabamos torcendo tanto quanto seus donos.

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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