Chegando discretamente ao catálogo da Disney+ e sem o barulho típico das grandes apostas do estúdio, Magnum (ou Wonder Man, no original) se apresenta como uma dessas anomalias curiosas do Universo Marvel que parecem pedir menos devoção e mais curiosidade. A série parte de um conceito quase metalinguístico, acompanhando um herói que transita entre a indústria do entretenimento e o espetáculo super-heroico, e encontra aí um tom mais leve, irônico e autoconsciente. Em vez de vender urgência apocalíptica, prefere observar os bastidores, os egos e as engrenagens de um mundo onde salvar o dia é apenas mais um papel a ser interpretado.
Nos quadrinhos, Simon Williams sempre foi um personagem sem lugar. Criado nos anos 60, surgiu como vilão, morreu cedo, voltou à vida e acabou se tornando um Vingador pouco convencional, com uma carreira paralela como ator em Hollywood. Chamado lá fora de Wonder Man, chegou ao Brasil como Magnum. A Marvel nunca soube exatamente o que fazer com ele, e talvez por isso mesmo tenha se permitido arriscar mais agora na TV, sob o selo supostamente mais pé no chão Spotlight (o mesmo de Echo e Demolidor: Renascido). Magnum entende essa natureza errática e faz dela um trunfo: em vez de tentar encaixar o personagem à força em uma mitologia rígida, assume sua instabilidade como identidade, algo raro em um estúdio acostumado a personagens moldados para franquias.

A história funciona justamente por ser modesta em ambição e precisa em foco. Ao acompanhar Simon tentando se firmar como ator enquanto lida com superpoderes secretos e um passado mal resolvido, a série encontra conflitos reconhecíveis, ainda que embalados por elementos fantásticos. O roteiro sabe equilibrar humor e melancolia, usando o ambiente de estúdios, audições e produções decadentes como espelho de um herói que não sabe muito bem quem é quando as câmeras se apagam. É um conflito pequeno, mas honesto, e por isso mesmo eficaz.
Yahya Abdul-Mateen II ( o vilão do Aquaman da DC) sustenta a série com uma performance cheia de nuances, alternando carisma, insegurança e um certo cansaço existencial que combina com o personagem. Ele entende que Simon Williams não é um herói confiante, mas alguém constantemente em teste, e testando os outros. Ao seu lado, Sir Ben Kingsley surge quase como um presente tardio ao público. Reabilitado depois da recepção negativa de Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013), ele retoma Trevor Slattery com um prazer visível, transformando o personagem em um mentor patético e fascinante. A dinâmica entre os dois, baseada em vaidade, afeto torto e oportunismo, é o coração da série.

O que realmente diferencia Magnum do restante do Universo Marvel é sua recusa em parecer essencial. Não há ganchos desesperados para o próximo grande evento, nem a sensação de que cada diálogo carrega implicações cósmicas. A série se permite ser uma comédia dramática com superpoderes, quase um comentário lateral sobre o próprio MCU. Ainda assim, Simon Williams se encaixaria com facilidade nesse universo justamente por ser um corpo estranho, alguém que poderia circular entre Vingadores e produções B de Hollywood sem jamais se sentir totalmente pertencente a nenhum dos dois mundos.
Por trás da série estão Destin Daniel Cretton, diretor de Shang-Chi (2021), e Andrew Guest, produtor da série do Gavião Arqueiro. Duas figuras experientes dos estúdios Marvel que trazem referências claras à sátira da indústria do entretenimento e a narrativas mais íntimas, menos preocupadas com pirotecnia. Há ecos de comédias amargas sobre fama, fracasso e identidade, filtradas pelo verniz Marvel. Se o futuro reserva uma expansão desse mundo ou se Simon Williams fica por aqui, ainda é cedo para dizer. Ao menos por enquanto, Magnum prova que ainda há espaço no estúdio para histórias de gente que não quer salvar o mundo, apenas conseguir pequenas vitórias e sobreviver ao dia a dia.

O personagem Simon Williams, como era originalmente nos quadrinhos


