
Baseado em um conto pouco conhecido de Stephen King, do livro Com Sangue, A Vida de Chuck (The Life of Chuck, 2025) é daqueles filmes que parecem surgir fora do radar e, justamente por isso, acabam se impondo com mais força. Não há aqui a tentativa de capitalizar o King do terror imediato ou da iconografia pop. O diretor Mike Flanagan se interessa pelo lado mais silencioso do escritor, aquele que usa o sobrenatural como ferramenta de reflexão, não como espetáculo. O resultado é um dos filmes mais sólidos e inesperados do ano. E gostosos de assistir.
A premissa, à primeira vista modesta, acompanha a vida de um homem comum narrada de trás para frente, começando pelo fim. Essa inversão não funciona como truque de roteiro, mas como chave conceitual. O filme sugere desde o início que a morte é apenas o ponto final visível de algo muito maior, e que o verdadeiro mistério está no percurso. Flanagan, velho conhecido do mundo de King, conduz essa estrutura com cuidado, evitando explicações excessivas e confiando na força acumulativa das cenas, muitas vezes construídas a partir de gestos pequenos e situações aparentemente triviais.
O sobrenatural, marca quase inevitável tanto de King quanto de Flanagan, surge de forma discreta, sutil. Ele não interrompe a narrativa nem se impõe como ameaça clara, funcionando mais como um desajuste no mundo, algo fora do lugar, mas nunca completamente explicado. É uma escolha inteligente, que preserva o tom melancólico do filme e impede que a história escorregue para o sensacionalismo. O estranho aqui não assusta: inquieta.

O elenco sustenta essa abordagem com precisão. Tom Hiddleston (o Loki do Universo Marvel) tem uma atuação notadamente contida, talvez uma das mais maduras de sua carreira. Ele compõe Chuck como alguém que carrega o peso do tempo sem dramatizá-lo, trabalhando com silêncios, olhares e uma presença que nunca pede o centro da cena, mas sempre o tem. Os atores que interpretam Chuck em outras fases da vida mantêm uma coerência emocional rara, como se o personagem fosse menos uma soma de momentos e mais um estado contínuo de consciência.
A direção de Flanagan é funcional no melhor sentido da palavra. Ele filma sem ansiedade, respeitando o ritmo interno da história e resistindo à tentação de sublinhar emoções. A montagem acompanha essa lógica, deixando que as conexões entre passado e futuro se formem de maneira orgânica. Nada parece calculado para arrancar lágrimas. Quando a emoção surge, é porque o filme construiu o terreno para isso.
A Vida de Chuck não é um filme sobre grandes feitos ou revelações espetaculares. É sobre a beleza do ordinário, ou como uma vida comum pode conter um universo inteiro. O diretor já havia topado o grande desafio de dar sequência ao clássico O Iluminado (The Shining, 1980), nos dando o ótimo Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019). Ao adaptar um conto menor de Stephen King com tamanha sensibilidade, Flanagan entrega uma obra que dialoga com o fim, mas celebra o percurso. Um filme sereno, preciso e, sem exagero, um dos melhores do ano.

Flanagan apresenta parte de seu elenco


