Beatles são a atração de Yesterday

por Marcelo Seabra

Alguns filmes dão a impressão de “jogo ganho” de cara, mesmo antes da estreia. É quase uma obrigação gostar deles. Isso, por trazerem consigo elementos amados por todos, como a trilha sonora. Yesterday (2019) tem esse trunfo e vai ainda mais longe: traz, como pano de fundo, os Beatles. Ter um protagonista adorável também ajuda muito. Mas, nem por isso, o longa deixa de nos dar uma sensação de potencial não atingido.

A obra, cuja história foi criada por Jack Barth e Richard Curtis (de Questão de Tempo, 2013), imagina um mundo sem o quarteto de Liverpool, mas uma pessoa manteve suas lembranças. Jack Malik (Himesh Patel, da série EastEnders) é um músico sem sucesso que divide seu tempo entre shows vazios e o trabalho no estoque de um supermercado. Um acidente bizarro faz com que ele acorde sendo a única pessoa que se lembra de John, Paul, George e Ringo. O que permite que ele se apresente como o autor de faixas incomparáveis da música.

Patel é uma grande descoberta, já que ainda não tinha tido uma grande oportunidade no Cinema. Com um jeito bem comum, necessário ao papel, o ator convence como a pessoa que não sabe lidar com a fama repentina, além de lutar contra o fato de estar vivendo uma mentira. Na dobradinha com Patel, temos Lily James (de O Destino de Uma Nação, 2017), igualmente carismática, interpretando uma amiga de infância e principal incentivadora do cantor. Só a relação entre os personagens que não funciona: parece tudo muito forçado e afobado.

Outro problema de Yesterday é o humor – ou a falta dele. Em vários momentos, o roteiro faz alguma graça, e isso só funciona às vezes. Os dois alívios cômicos têm resultados bem diversos: enquanto o roadie Rocky (Joel Fry, de Game of Thrones) dá umas tiradas espirituosas, o pai de Jack (Sanjeev Bhaskar, de Belas Maldições) é sempre inconveniente e exagerado. Não raro, uma piada é jogada de qualquer jeito e nem se aproxima do efeito esperado. O cantor Ed Sheeran é colocado em algumas dessas armadilhas. Ele faz uma participação interessante e cabível e traz para o contexto a empresária vivida pela ótima Kate McKinnon (do reboot de Caça-Fantasmas), a provável melhor personagem dessa história.

Já está ficando frequente ver críticas duras ao diretor Danny Boyle (acima). Começando na tela grande com o surpreendentemente bom Cova Rasa (Shallow Grave, 1994) e seguindo com produções de muitas qualidades, como os dois Trainspotting (1996 e 2017), Boyle se alterna com outras não tão memoráveis, como A Praia (The Beach, 2000) e Em Transe (Trance, 2013). Parte do desagrado demonstrado pela crítica especializada se deve ao falatório em torno do premiado Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008), filme que teria sido superestimado.

Por todos os envolvidos, Yesterday era para ter sido muito superior. O experiente Curtis, roteirista de sucessos como Quatro Casamentos e Um Funeral (Four Weddings and a Funeral, 1994) e Simplesmente Amor (Love Actually, 2003), parece ter ficado com preguiça de desenvolver sua premissa e tomou o caminho mais fácil. Desperdício da simpatia de Patel e James, que se divertem em cena. Ao menos, saímos cantarolando os sucessos dos Beatles que Malik “recria”. Mas o amor pela banda não se transfere ao filme.

O lançamento em Londres contou com os protagonistas e Sheeran

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Franquia Brinquedo Assassino começa de novo

por Marcelo Seabra

Depois de sete longas e alguns curtas, chegou a hora de reiniciar a franquia do boneco Chucky. O novo Brinquedo Assassino (Child’s Play, 2019) nos apresenta novamente ao garoto que ganha um boneco psicótico, mas a premissa foi bem alterada. Sai o ritual de bruxaria que transfere uma alma ao brinquedo e entra uma crítica à tecnologia. O novo Chucky é apenas um avanço tecnológico mal programado.

No filme de 1988, tínhamos um ladrão sendo encurralado pela polícia. À beira da morte, Charles Lee Ray passou sua alma a um boneco e continuou sua carreira criminosa – sempre com a voz marcante de Brad Dourif. Como a ideia aqui era começar de novo, Dourif não foi envolvido, e ficou de fora também o criador da série, Don Mancini. O novato Tyler Burton Smith assina o roteiro e o norueguês Lars Klevberg (de Morte Instantânea, 2019) assume a cadeira de diretor.

Para fazer a voz de Chucky, substituindo Dourif, teria que ser escalado alguém igualmente memorável. Missão cumprida: o papel ficou com o eterno Luke Skywalker Mark Hamill, que também tem larga experiência como dublador. Gabriel Bateman (de Quando as Luzes Se Apagam, 2016) é o novo Andy Barclay, o garoto que ganha da mãe (Aubrey Plaza, de Legion) o brinquedo que se torna seu melhor e único amigo. Buddi tem vários recursos interessantes e controla todos os demais mecanismos da empresa Kaslan, o que o torna útil, porém perigoso.

O onipresente Brian Tyree Henry (de As Viúvas, 2018) aparece como o vizinho policial de Andy e temos ainda Tim Matheson (de The Affair) numa participação rápida, vivendo o milionário Henry Kaslan, garoto-propaganda de seu império. Um elenco correto com uma história absurda, uma mistura de Christine, o carro assassino de Stephen King, com Blade Runner. Claro que o conceito sempre exigirá que o público entre na brincadeira, mas ficava melhor amarrado quando sabíamos se tratar de um maníaco no corpo de plástico.

Filmes sobre os perigos da tecnologia existem aos montes, esse é apenas mais um. E dos mais exagerados. Mas, numa época em que a boneca Annabelle leva um bom número de espectadores aos cinemas, é uma boa oportunidade para apresentar Chucky às novas gerações – apenas dois anos depois do último filme do personagem. Pode ser o começo de uma nova franquia, secando uma premissa já explorada à exaustão. O que importa é trazer dinheiro aos bolsos dos envolvidos.

O longa de 88 permanece imbatível

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Tarantino homenageia Hollywood

por Marcelo Seabra

Toda obra do diretor Quentin Tarantino pode ser descrita como uma homenagem a algo ou a alguém. E ao próprio Cinema. O longa mais recente deixa isso ainda mais claro: Era Uma Vez… em Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019) traz diversas referências a fatos, pessoas e outros filmes. Misturando realidade e ficção, o roteiro de Tarantino visita o fim da década de 60, esmiuçando os costumes da época enquanto acompanha um ator que luta contra o ocaso de sua carreira.

Lembrando Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) em vários momentos, Era Uma Vez usa celebridades reais para construir o universo de seus personagens ficcionais. Dois atores habituados ao diretor trabalham juntos pela primeira vez: Leonardo DiCaprio (de Django Livre, 2012) e Brad Pitt (de Bastardos). Também com destaque, temos Margot Robbie (colega de DiCaprio em O Lobo de Wall Street, 2013), que vive a famosa Sharon Tate, estrela em ascensão nos idos de 1969.

De cara, conhecemos os inseparáveis Rick Dalton (DiCaprio), um ator de televisão que luta para conseguir os bons papéis de outrora, e seu dublê, Cliff Booth (Pitt), que, além de fazer as cenas mais perigosas, é motorista e faz-tudo. Os dois dividem praticamente a mesma rotina, com um deles indo e voltando de gravações de pilotos para a TV sempre com o outro ao volante. Na casa ao lado à de Dalton vive um casal quente: a linda Tate e seu marido, Roman Polanski (Rafal Zawierucha), que curtia o sucesso de seu O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968).

Vários são os filmes que usam a expressão Era Uma Vez em seus títulos, acompanhada de um lugar, sendo os mais marcantes os de Sergio Leone, Era Uma Vez no Oeste (1968) e Era Uma Vez na América (1984). Como Leone é sempre lembrado como uma grande influência por Tarantino, nada mais natural que o americano passasse a fazer parte dessa “família”. O italiano é inclusive citado nesse de Hollywood, reverenciado como o maior diretor de faroestes de seu país, informação que sai da boca de ninguém menos que Al Pacino (abaixo), numa pequena participação como um produtor veterano.

Mas não são só Tate, Polanski e Leone que aparecem de alguma forma. Bruce Lee, Steve McQueen, as cantoras do grupo Mamas & Papas, o empresário George Spahn e o maníaco Charles Manson, com seu grupo de desajustados, são outras das personalidades do nosso mundo que marcam presença na tela. E Tarantino deixa muito claro que aquela é a visão que ele tem, não precisando necessariamente espelhar a realidade. Muitos podem se perguntar se Tate realmente fez isso ou aquilo, se ela começava a dançar delirantemente sempre que ouvia uma música. O diretor/roteirista não tem nenhuma obrigação com a História: trata-se de uma história original, de ficção. “Era uma vez”…

A recriação do período e os cenários por onde a câmera nos leva são fantásticos. DiCaprio interage com filmes da época, o tempo de tela de cada um é bem equilibrado e tudo é muito fluido, resultado de uma montagem eficiente. São duas horas e quarenta minutos que passam sem cansar o espectador, que se envolve com o que vê e passa a torcer por eles. A cena entre DiCaprio e a garota Julia Butters é emocionante, um misto entre engraçada e tocante. E ajuda ter as músicas que Tarantino sempre escolhe a dedo, clássicos do rock não tão famosos, mas que se encaixam muito bem com as situações.

Como se ainda precisasse de uma cereja nesse bolo tão cuidadosamente realizado, ainda temos algumas participações muito especiais. Parece que quem trabalhou com o diretor quer voltar e quem não teve a oportunidade a abraça. Depois da estreia nos EUA, algumas polêmicas foram produzidas, como o fato de Robbie ter poucas falas – como se isso fosse exemplo de machismo – e a forma estereotipada como Bruce Lee é retratado. Exagero ou não, nada disso atrapalha a diversão. Tarantino marca outro gol em sua curta carreira.

Diretor e elenco levaram o filme a Cannes em maio

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Hobbs e Shaw ganham um filme só para eles

por Marcelo Seabra

“Ninguém manda em mim”. Esse é o lema repetido à exaustão em Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019), longa estrelado por dois sujeitos musculosos, bons de briga e extremamente infantilizados. As implicâncias entre eles começam engraçadinhas, cansam e passam a irritar em questão de minutos. Esse humor rasteiro e insistente é perpassado por lutas, tiros, explosões e perseguições em todos os tipos de veículos. E o resultado parece dizer: não precisamos de Vin Diesel.

A franquia, iniciada 2001 com Diesel e o falecido Paul Walker, já conta com oito filmes, o nono atualmente em produção, e agora tem um derivado. Desavenças entre os atores levaram os produtores a pensarem numa forma de separar Dwayne “The Rock” Johnson e Diesel, e a solução foi aproveitar a química entre Johnson e Jason Statham. Na nova história, os dois fortões estão em lados opostos da lei e acabam se unindo contra um vilão em comum. Para bater de frente com essa dupla de peso, era necessário alguém à altura, e o escolhido foi Idris Elba (o Heimdall da Marvel).

Para conseguir unir os dois e trazer o terceiro para a cena, a desculpa é personificada por Vanessa Kirby (Missão: Impossível – Efeito Fallout, 2018 – acima). Ela vive a irmã caçula de Deckard Shaw (Statham), uma agente da espionagem inglesa que, para proteger um supervírus das mãos de ladrões, injeta-o em si mesma. Com pouco tempo antes de ser infectada, ela precisa da ajuda de Shaw e Luke Hobbs (Johnson) para vencer o geneticamente modificado Brixton (Elba). Mesmo que os dois personagens do título tenham sido apresentados nos outros episódios de Velozes e Furiosos, aqui conhecemos melhor suas histórias.

Brixton é um assassino que abraçou a causa de uma empresa misteriosa que busca levar o ser humano ao futuro. Só que fará isso matando boa parte da população e mexendo no corpo dos demais, aumentando força e resistência. Questões ambientais, como a exaustão de recursos naturais, são mencionadas apenas para darem lugar à pancadaria. Como em uma aventura de James Bond, vários lugares são visitados, o que permite uma bela fotografia. Todos os personagens vivem com muito luxo – até a mãe presidiária de Shaw (a grande Helen Mirren). Toda essa beleza, de paisagens a cenários fechados e objetos de cena, dão uma sensação de zero risco. Em momento algum, sentimos medo ou apreensão pelo destino de alguém.

Quem acompanha a série já sabe bem o que esperar e é exatamente isso que David Leitch oferece. Responsável por Atômica (Atomic Blonde, 2017) e Deadpool 2 (2018), o diretor já mostrou saber conduzir sequências de ação. Mas, aqui, elas caem numa mesmice, dão até sono. A necessidade de ir além do que foi feito anteriormente cria momentos engraçados, de tão inverossímeis. O roteiro, escrito por Chris Morgan (dos últimos seis longas da franquia) e Drew Pearce (do quinto Missão Impossível, Nação Secreta), respeita a natureza dos personagens, mas fica rodando em torno do que é esperado. Tenta-se aprofundar no quesito família, o grande tema de Velozes e Furiosos, mas só consegue gerar mais piadinhas.

Idris Elba é o vilão da vez, praticamente um ciborgue

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É a vez de Simonal chegar aos cinemas

por Marcelo Seabra

“Ninguém sabe o duro que dei”, dizia Wilson Simonal quando apontavam o sucesso que ele atingiu. A frase era tão usada que aparecia em uma das músicas dele e deu título a um documentário (2009) sobre a vida do cantor. Uma história tão extraordinária estava demorando a ganhar as telas. Em meio a diversas cinebiografias de celebridades da música, tanto internacionais (sobre Elton John, Freddie Mercury ou Motley Crüe) quanto nacionais (sobre Paulo Coelho, Erasmo Carlos, Tim Maia e Elis), chega a estreia de Simonal (2019), longa que acompanha a ascensão e queda do astro.

Aproveitando o casal que já havia funcionado em Faroeste Caboclo (2013), Fabrício Boliveira e Isis Valverde, Simonal tem em seu elenco sua maior força. Boliveira chega perto de reproduzir o carisma de seu personagem, que se dizia o símbolo da pilantragem. Mesmo que os dois não fossem muito parecidos, o ator funciona muito bem no papel, atuando, dançando e dublando com naturalidade. Temos uma amostra do tamanho que Simonal chegou a ter, não só um ótimo intérprete, que parecia roubar para si tudo o que cantava, mas um showman completo, que sabia conduzir o público como poucos.

Valverde entra em cena com destaque, mas perde força à medida e que se torna a esposa padrão, aquela deixada de lado que acaba se tornando deprimida e dependente química. Um problema comum a obras desse tipo é mostrar o artista isolado, como se não houvesse mais ninguém relevante naquele momento, e isso não é observado aqui. Vemos figuras como Carlos Imperial, Miéle, Bôscoli, Elis, Erasmo e Jorge Ben interagindo com Simonal. Mas é só ele que importa, com os demais apenas fazendo pontas, como se os nomes tivessem que ser cortados em uma lista. O dueto com Sarah Vaughan, por exemplo, só serve como pano de fundo.

Os áudios originais de Simonal são usados em diversas cenas, o que nos dá uma dimensão de seu talento vocal. Imagens reais (abaixo) também aparecem, o que causa estranhamento, já que fica muito claro tratar-se de outra pessoa que não Boliveira. De uma forma geral, a montagem é ágil e não deixa buracos cronológicos, ou nada que faça falta. Reflexo da parceria do experiente montador Leonardo Domingues, que faz sua estreia como diretor de um longa, e do igualmente competente Vicente Kubrusly (de À Beira do Caminho, 2012). Tecnicamente, quase tudo se encaixa, como uma ótima reconstituição de época. E a participação de Leandro Hassum (de Chorar de Rir, 2019) como Imperial merece ser ressaltada, ele realmente chama a atenção.

Em certas passagens, parece que o roteiro de Victor Atherino (também de Faroeste) não vai se furtar a cobrir os pecados de seu biografado, arrogante e explosivo. O fato de ele ser mulherengo aparece bem. O problema maior chega mais adiante, num episódio amplamente conhecido e pouco esclarecido: a acusação de ser dedo duro. Simonal se meteu em uma grande enrascada ao afirmar que seu contador estaria roubando-o. O sujeito, pouco tempo depois, foi sequestrado em sua casa por policiais e torturado nas dependências do DOPS. Para tentar se explicar, Simonal dá a entender que seria informante do regime militar. Nunca se soube de ninguém que tivesse sido prejudicado por uma suposta delação dele, mas a má fama pegou e o acompanhou até o fim da vida.

Todo o problema enfrentado poderia ser uma farsa orquestrada por racistas que não suportaram ver um negro, favelado, esfregando na cara da sociedade o enorme sucesso que atingiu? Claro, poderia. Mas bem que tudo poderia ter acontecido devido à estupidez do cantor, que não teria medido as consequências de seus atos. O roteiro faz claramente uma escolha: é melhor mostrar Simonal como ingênuo, até burro, que como mau caráter.

Desde o lançamento do documentário de 2009, observa-se uma espécie de campanha para reabilitar Simonal. Depois do escândalo da relação com a ditadura, ele viu seus shows serem cancelados e outros artistas negarem colaborações. Morreu em 2000, em decorrência do alcoolismo. Ia às apresentações dos filhos, Max de Castro e Simoninha, incógnito, com medo de atrapalhar. Os dois são responsáveis pela direção musical do filme, o que pode ter influenciado no tom brando, neutro da produção. Afinal, a ideia era limpar a barra de Simonal. Só não sabemos se isso é fazer justiça ou criar uma mentira.

Boliveira demonstra muito carisma recriando os momentos de Simonal

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Mais uma obra se debruça sobre Ted Bundy

por Marcelo Seabra

O fascínio que o psicopata Ted Bundy exerce no imaginário norte-americano segue firme, com mais uma obra contando sua história. Entre longas ficcionais, documentários e programas de TV, ele é citado em mais de vinte títulos, e chega aos cinemas essa semana Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019). Trazendo como protagonista a namorada de Bundy, o filme se propõe a trazer um olhar novo sob o personagem, colocando o público no lugar da garota.

Em 1974, quando o conceito de serial killer não era difundido, a polícia começou a observar um padrão em assassinatos e concluiu que várias mortes e sequestros tinham por trás o mesmo criminoso. Episódios circunstanciais, como uma multa de trânsito e um retrato falado, levaram as autoridades a Theodore Robert Bundy, um estudante de Direito carismático, bem apessoado e articulado. Ele namorava Elizabeth Kloepfer (abaixo) e garantia a ela que isso não passava de um mal-entendido. Tudo logo seria esclarecido e eles poderiam se casar.

No entanto, não foi isso o que aconteceu. Evidências levaram a outras acusações e Bundy se viu numa situação bem complicada. E ele nunca deixou de jurar inocência. Liz, acompanhando tudo, torcia para que a injustiça fosse corrigida e ela pudesse ter seu amor de volta. É desse ponto de vista que acompanhamos o desenrolar dos fatos. O roteiro, premiado em 2012 e na geladeira desde então, se baseou no livro de Kloepfer, no qual ela se chama de Liz Kendall. Michael Werwie trabalhou uma década como garçom até que seu roteiro foi comprado, marcando sua estreia na função.

Responsável por um ótimo documentário recente, Joe Berlinger volta seu olhar para Bundy. No início do ano, a Netflix disponibilizou Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy (Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes), quatro episódios que cobrem os fatos ligados ao psicopata. Baseando-se no livro dos jornalistas Stephen G. Michaud e Hugh Aynesworth, ambos produtores da série, Berlinger cobriu tão bem o assunto que acabou assumindo a tarefa de conduzir também a versão ficcional da história. Em 2000, ele lançou A Bruxa de Blair 2, cuja recepção negativa deve tê-lo deixado traumatizado. Fora os dois longas, toda a carreira de Berlinger foi construída com documentários – inclusive sobre a banda Metallica, cujo vocalista, James Hetfield, faz aqui sua estreia como ator.

Para o elenco, o diretor ouviu os fãs de Zac Efron, que vinham se manifestando há tempos. Conhecido pelos bobinhos High School Musical da Disney, Efron tem demonstrado talento em diversos projetos, como no drama Obsessão (Paper Boy, 2012) e na comédia de ação Baywatch (2017). O ator aproveita o pouco de semelhança física que tem com Bundy e recria à perfeição seus olhares e maneirismos. O circo que o sujeito montou em seu julgamento é visto aqui na íntegra, com o ótimo John Malkovich (de Bird Box, 2018) como o juiz à frente do caso.

Fazendo dupla com Efron, temos Lily Collins (de O Mínimo para Viver, 2017) como Liz, uma mãe trabalhadora que parece ter encontrado um cara bacana. Nela, vemos agindo o poder da negação: mesmo que as evidências apontem para Bundy, ela se nega a aceitar, na esperança de que tudo fosse se resolver. É angustiante ver o efeito dessa situação na vida da moça. Ela passa a viver uma espera constante, acompanhando os desdobramentos pela televisão e recebendo ligações delirantes de Bundy. Efron e Collins funcionam bem juntos, dando uma boa ideia do sofrimento dela e do distanciamento da realidade dele.

Além dos já mencionados, o elenco ainda é beneficiado por alguns rostos interessantes, como Kaya Scodelario (de Maze Runner), Angela Sarafyan (de Westworld), Haley Joel Osment (o garoto de O Sexto Sentido, 1999), Jeffrey Donovan (de Bruxa de Blair 2), Brian Geraghty (das séries The Alienist e Ray Donovan) e Jim Parsons (o Sheldon de Big Bang Theory). A recriação dos anos 70 nos leva à época, e cenas reais mostradas nos créditos comprovam o quanto a produção chegou perto da realidade. Não é a obra definitiva sobre Bundy (esta seria Conversando com um Serial Killer), mas nos mostra a história por um lado diferente interessante o suficiente para valer o ingresso.

A recriação é bem fiel

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Novo Rei Leão é mais uma refilmagem Disney

por Marcelo Seabra

Adaptar Aladdin em live action pode ser uma boa ideia no papel, independente do resultado. Afinal, é só misturar atores e efeitos especiais e voilá! Dumbo já não funcionaria tão bem, já que o protagonista é um elefante voador e expressivo. O estúdio teria que colocar suas fichas em uma criatura de CGI, independente do elenco fantástico contratado. Seguindo essa lógica, fazer um novo O Rei Leão (The Lion King), dentro dessa tendência, seria totalmente descabido. Foi exatamente o que a Disney fez.

O longa de 1994 parece estar no coração de muita gente, tamanho o debate que o anúncio dessa refilmagem gerou. Já dava para saber que haveria quem defendesse o projeto por pura nostalgia, assim como outros seriam detratores por amarem o desenho e julgarem que nunca seria possível se aproximar. O original chegou sem uma sombra, estabeleceu seu terreno do zero, ganhou prêmios e faturou alto nas bilheterias, gerando até sequências. Com tantas releituras Disney enfileiradas, um novo Rei Leão era aposta certa. Mesmo que não faça nenhum sentido chamar isso de live action – é, no máximo, um desenho com uma nova roupagem.

A história, uma das mais shakespearianas do estúdio, é bastante conhecida: o invejoso irmão do rei o mata e faz o jovem príncipe se sentir culpado e fugir. Mas não se pode fugir de seu destino, e Simba aprende, como um Homem-Aranha peludo, que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Isso, apesar dos recém-adquiridos conselheiros flâneurs, que pregam o lema Hakuna Matata, algo como “esqueça seus problemas”. O berço de ouro do leãozinho fica para trás e ele aprende a se virar na floresta interagindo com outros animais. Apesar de tratar de outros temas, não deixa de ter similaridades com Mogli, o Menino Lobo, que curiosamente ganhou um longa em 2016 dirigido pelo mesmo Jon Favreau.

Em evidência desde que comandou os dois primeiros longas do Homem de Ferro (além de viver o segurança e braço direito Happy Hogan), Favreau agora transita por dois dos maiores filões de Hollywood: o de filmes de super-heróis (mais especificamente da Marvel) e dessas novas versões Disney. Apesar de ele ter reunido um elenco notável, é praticamente impossível esquecer a voz, por exemplo, de Jeremy Irons como Scar, o vilão para quem quase torcemos. Com Mufasa, a dificuldade da tarefa era tão óbvia que tiveram que trazer James Earl Jones novamente, certamente uma das vozes mais marcantes do Cinema.

Na nova encarnação principal, como Simba, temos Donald Glover. De talento reconhecido como ator, roteirista, produtor e diretor (conhece Atlanta?), Glover ainda é um cantor premiado (Childish Gambino), o que ajuda na tarefa de estrelar um musical. Para cantar ao seu lado, como a Nala adulta, trouxeram Beyoncé (de Cadillac Records, 2008), fechando um casal tecnicamente impecável. Mas, mais uma vez, o fantasma de 1994 vem assombrar. A trilha sonora também é assinada por Hans Zimmer, que ganhou seu único Oscar em 94. E as músicas, quando não simplesmente reaproveitam as belíssimas composições de Elton John e Tim Rice, não chegam aos pés delas.

Entre os outros nomes mais relevantes, temos o ótimo Chiwetel Ejiofor (de Maria Madalena, 2018) dando vida a Scar, além do apresentador John Oliver (Zazu), Alfre Woodard (de Luke Cage), Keegan-Michael Key e Billy Eichner (ambos de Friends From College) e Seth Rogen (de A Entrevista, 2014 – ao lado), cujo trabalho como Pumbaa ganha mais destaque pelo tino cômico e pela voz inconfundível. Apesar de todo esse esforço, a proposta de tornar os animais o mais reais possível os deixa sem emoções. A falta de cor nos cenários os faz literalmente uma natureza morta que, junto à falta de expressão dos personagens, aproxima o resultado de um documentário do Animal Planet.

Na comparação com o longa de 94, o novo Rei Leão perde de lavada. Se analisado à parte, como obra independente, deve satisfazer. Era possível perceber no público saindo da sala do Multiplex a sensação de dinheiro bem gasto. Principalmente, entre os mais jovens, que estão sendo apresentados a este universo. Para os mais velhos, ficam muitos buracos. Mais do que Irons, Elton ou Matthew Broderick, as maiores faltas são as da espontaneidade e da emoção.

As emoções do desenho de 94 são imbatíveis

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Aladdin é o novo live action da Disney

por Marcelo Seabra

A velocidade das adaptações live action de desenhos da Disney tem aumentado drasticamente. Poucos meses depois da estreia de Dumbo (2019) e antes do novo Rei Leão, chega aos cinemas Aladdin (2019), veículo para Will Smith fazer o que mais gosta: aparecer. Felizmente, o ego do astro está mais controlado e temos uma aventura bem correta, que faz bom uso dos efeitos especiais para contar uma história que, antes de mais nada, é sobre amizade.

A escolha de um egípcio para o papel principal mostra a intenção do estúdio de fazer a coisa certa. Com alguém da grandeza de Smith para chamar público, tiveram liberdade para escolher alguém pouco conhecido para viver Aladdin. Com papéis importantes na televisão, como nas séries Jack Ryan e Open Heart, Mena Massoud vem ganhando atenção e teve aqui sua maior oportunidade até agora. Fazendo bem a transição entre os momentos mais dramáticos e engraçados, com uma boa dose de ação, o ator cumpre sua tarefa a contento, como o ladrão de bom coração que se apaixona sem saber que a garota é a filha do sultão.

Com uma importância bem maior do que ser apenas a mocinha em perigo, a princesa Jasmine se mostra uma mulher forte que sabe que daria conta de substituir o pai quando chegasse a hora. A inglesa de ascendência indiana Naomi Scott (de Os 33, 2015) foi outra boa escolha, e não a toa é uma das agentes de Charlie na nova versão das Panteras. Fechando o quarteto principal, temos o holandês Marwan Kenzari (de Assassinato no Expresso Oriente, 2017) como o vilão Jafar, o conselheiro do sultão que tem sede de poder.

De forma geral, a história de Aladdin não traz novidades, tudo o que vemos é o esperado. Mas o roteiro de John August (de Sombras da Noite, 2012) e Guy Ritchie (de Rei Arthur, 2017) guarda algumas surpresas interessantes que enriquecem o material, como a força que Jasmine demonstra ter. Como diretor, Ritchie traz seus maneirismos, como as cenas desaceleradas que usou na franquia de Sherlock Holmes e em O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E., 2015), mas não chega a incomodar. Os cenários suntuosos, cheios de cores e detalhes, enchem os olhos. Parece que estamos em um parque da Disney, enquanto Aladdin corre pelas ruas de Agrabah.

No quesito música, tão forte nos desenhos da Disney, o live action não mostra personalidade. As mesmas canções do original, de 1992, com poucas diferenças. Massoud e Scott fazem suas partes, mas criam momentos desinteressantes, deixando os holofotes para Smith. Com um Gênio que parece a versão mais velha e azul do Fresh Prince, o ator/cantor cria os números mais relevantes, fugindo da sombra do grande trabalho que Robin Williams fez antes. E umas danças estilo Bollywood fecham o show.

Quando não está azul, o Gênio funciona melhor

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Laços leva a Turma da Mônica ao Cinema

por Marcelo Seabra

Tendo uma criança na família, aproveite para convidá-la ao cinema e assista a Turma da Mônica: Laços (2019). Não tendo uma criança como desculpa, vá assim mesmo e confira, sem vergonha, a primeira adaptação em live action da turminha. Com um elenco jovem afiado, a produção realiza o sonho de muitos adultos, dando vida a personagens publicados há 60 anos. Por isso, é óbvio que não teremos apenas crianças nas plateias. E haverá um interessante equilíbrio entre risos e lágrimas.

Em setembro de 2009, foram comemorados os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica – inspirada na própria filha do cartunista. No meio dessa festa, foi lançado o álbum MSP 50 – Mauricio de Sousa Por 50 Artistas, reunião de 50 quadrinistas brasileiros que criaram releituras dos personagens. Esse álbum deu tão certo que, além de originar outros dois, levou a uma série de graphic novels, aquelas revistas maiores, de edições melhores e histórias mais longas. Dessas, a segunda foi Laços, criada pelos irmãos Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi.

Além de prêmios – como o HQMix – e duas continuações, Laços ganhou a distinção de ser a primeira história da Turma da Mônica a chegar aos cinemas com atores. O editor indicado ao Oscar Daniel Rezende (por Cidade de Deus, 2002) assumiu a direção, função que desempenhou no ótimo Bingo: O Rei das Manhãs (2017). E o roteiro ficou a cargo de Thiago Dottori (de Os 3, 2011), que tinha a difícil tarefa de fazer crível a amizade daquelas quatro crianças, além de transpor para as telas algo que sempre funcionou muito bem no papel.

Cebolinha e Mônica disputam o papel de protagonista nessa história, com Cascão e Magali dando suporte. Teoricamente, a turma é dela, mas é o sumiço do cachorro dele que dá o pontapé inicial. Os quatro amigos se juntam e saem à procura de Floquinho. A graphic novel reúne muito bem as características principais dessas décadas de aventuras, e é exatamente nas liberdades que toma que o filme peca. Situações como uma participação bem deslocada do Louco (Rodrigo Santoro, de Ben-Hur, 2016), uma troca de olhares insinuante entre os dois principais e uns risos exagerados do quarteto causam certo estranhamento.

Apesar de qualquer possível falha, o roteiro envolve o público na busca e nos vemos torcendo por aquelas crianças, prestando atenção em cada detalhe. Os quatro atores escolhidos, Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira, demonstram não só muito carisma, mas uma química gigantesca entre eles, sinal de uma preparação de elenco eficiente. As ações e reações deles são típicas de crianças e as que estavam assistindo se divertiram horrores, com risadas altas.

Muitas características de Laços não serão percebidas pelo público mais novo. Mas os maiores conseguem perceber uma agilidade na edição, alguns enquadramentos que dizem muito sem precisar de falas, uma trilha sonora eficiente que ajuda a montar a ambientação necessária. O clima atemporal remete diretamente às revistinhas, fazendo com que o bairro do Limoeiro esteja em uma localidade e época impossíveis de serem decifradas. Na caracterização, mudanças foram feitas, claro, mas o espírito, mantido, o que permite a rápida identificação de outros personagens daquele universo – como Titi, Aninha, Jeremias, Xaveco etc.

A exemplo de Stan Lee, nos filmes da Marvel, Mauricio de Sousa faz uma rápida participação na tela, assim como os irmãos Cafaggi. Como os dois também assinam Lições e Lembranças, é fácil apostar em uma sequência para Laços – ou até em uma trilogia. Mauricio e seus milhares de colaboradores, em todas essas décadas, têm diversas histórias para contar. O que não falta é material para mais aventuras dessa turminha nos cinemas.

Mauricio e a verdadeira Mônica apresentam o elenco

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Programa do Pipoqueiro #42 – Franquia Invocação do Mal

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro visita o universo de Invocação do Mal, que já conta com sete filmes, e traz comentários e músicas dele, com clássicos como Elvis Presley e The Clash! Aperte o play abaixo e divirta-se!

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