Valiant leva Bloodshot aos cinemas

por Marcelo Seabra

Quem achava que o ápice da cópia descarada no universo dos quadrinhos era Rob Liefeld e sua Image Comics precisa conhecer a Valiant. Criada por um grupo de executivos e investidores que não conseguiram comprar a Marvel em 1988, a editora tem em suas linhas personagens que reúnem elementos de vários outros e, agora, busca ganhar os cinemas assim como sua colega fez usando os Vingadores e companhia. Assim nasceu Bloodshot (2020), primeiro de uma pretensa série de longas produzidos pela Sony Pictures em associação com a Valiant.

A ideia que tomaria forma para virar Bloodshot foi lançada em 1992 em Eternal Warrior número 4 e não demorou a ganhar uma revista própria. O protagonista é um soldado que tem o corpo modificado por nanotecnologia e, por isso, consegue regenerá-lo e modificá-lo. Sua memória é apagada e ele é usado como arma para objetivos bélicos. Isso, até que ele tome conhecimento da situação e vá à forra.

Para levar essa trama à tela grande, foram convocados Jeff Wadlow (de Verdade ou Desafio, 2018) e Eric Heisserer (cujo currículo inclui de A Chegada, 2016, a Birdbox, 2018). Os roteiristas tiveram a missão de simplificar a história para fazê-la caber em menos de duas horas. Compreensivamente, mudaram elementos. Tudo já provavelmente pensando no quadro completo, com as demais atrações da editora devidamente amarradas em uma futura produção. O especialista em efeitos especiais e em videogames Dave Wilson comanda, fazendo sua estreia na direção e garantindo um visual de fato interessante.

Para o papel principal e para possivelmente segurar nas costas uma franquia, o contratado foi Vin Diesel, que participou do Universo Cinematográfico Marvel emprestando sua voz a Groot (de Os Guardiões da Galáxia). Outras franquias pelas quais o ator é reconhecido são Velozes e Furiosos, Triplo X e Riddick, e todas, em algum momento, são percebidas aqui. Apesar de muito carismático, Diesel não é de muitos recursos, voltando sempre nas mesmas expressões e maneirismos. Ou seja: missão cumprida em terreno seguro. Lamorne Morris tem mais destaque do que o usual (como em A Noite do Jogo, 2018) e traz uma bem-vinda leveza e a bela e letal Eiza González (de Alita, 2019) completa o grupo principal, que ainda conta com Sam Heughan (de Outlander) como um capanga bobo.

Mas não é só nos trabalhos prévios do astro que Bloodshot “bebe”. O Exterminador do Futuro tem uma referência clara, o Dr. Octopus tem sua invenção roubada e a apropriação de Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013) é tão óbvia que até o ator é repetido – Guy Pearce faz o necessário com o pé nas costas, o que inclusive fez também nos dois Aliens mais recentes. Se o espectador não estiver gostando do resultado, pode ao menos se ocupar buscando as “homenagens”. E é bom esclarecer que isso acontece no filme certamente porque já era prática comum na revista. Wolverine, com seu fator de cura, falta de memória e enorme raiva, é uma constante.

Mesmo com esse sentimento permanente de já ter visto tudo em outro lugar, Bloodshot ainda consegue guardar umas cartas na manga para surpreender o espectador. Certos caminhos seguidos pelo roteiro conseguem animar, e há criatividade nos talentos dos personagens e em como eles são usados. Resta observar como será seu desempenho nas bilheterias para saber se o Universo Cinematográfico Valiant irá adiante. Se for, as chances são de que Vin Diesel encontre uma cópia dos X-Men (Harbinger) ou de Pantera Negra/ Fantasma (Rai).

Guy Pearce vive mais um cientista com propósitos escusos

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Stephen King e Joe Hill trazem novidades na TV

por Marcelo Seabra

Duas séries lançadas recentemente representam o talento de uma família para a escrita. Stephen King, que dispensa apresentações, tem um livro adaptado pela HBO, enquanto o filho dele, Joe Hill, tem uma série em quadrinhos ganhando vida na Netflix. Com várias ressalvas, ambas têm seus méritos. Mas o resultado baseado na obra do pai é bem superior, reflexo de escolhas melhores dos envolvidos e de roteiros mais redondos.

Foram 12 anos, no mínimo, que Locke & Key levou para chegar à TV. A HQ escrita por Hill e desenhada por Gabriel Rodríguez passou por vários canais, com diversos atores entrando e saindo, até que se definisse pelo formato final. Até uma trilogia de filmes chegou-se a cogitar. No caso de The Outsider, a HBO comprou os direitos no mês seguinte ao lançamento do livro e a produção começou.

As duas séries já estão disponíveis, sendo a da Netflix a temporada completa e a da HBO com um episódio exibido a cada domingo – exceto os dois primeiros, que foram ao ar juntos. Diga-se de passagem, a exibição começou tarde e complicou a vida de muita gente. Já finalizada, a temporada está disponível no NET Now, serviço de streaming da operadora. Na Netflix, os 10 episódios já estão disponíveis, aumentando a expectativa pela segunda temporada, ainda não confirmada.

Locke & Key nos apresenta à família Locke, que tem o pai assassinado por um aluno. A mãe decide por se mudar da cidade grande para o interior, onde fica a histórica mansão da família do pai. Lá, eles podem recomeçar a vida ou, ao menos, deixar a casa em boas condições para ser vendida por um bom preço. Os três filhos precisam se adaptar às muitas novidades, sendo a maior delas a magia que reside com eles.

A Key House, casa que tem um nome próprio, tem também outros mistérios, manifestados na forma de chaves. Na língua inglesa, é tudo uma brincadeira semântica, com trancas (Locke), portas e chaves (Key). Cada chave tem uma habilidade, como levar o portador a qualquer lugar do mundo ou transformá-lo em fantasma, permitindo um voo pelo além. E, claro, há uma entidade maligna de olho nesse poder, com um plano escuso que custa a ser revelado. Temos aí uma luta entre o bem e o mal que parece ter começado na geração anterior.

Mais voltada a um público juvenil, Locke & Key divide seu foco entre a trama de suspense e magia e a de dramas adolescentes, às vezes dando algumas derrapadas. Fica difícil aceitar certas situações que parecem forçadas apenas para que o roteiro flua. Muitas críticas foram feitas à mudança de tom dos quadrinhos. Ainda temos cenas chocantes, como um garoto sendo jogado na linha do trem, mas de uma forma geral tudo é mais água com açúcar. A grande criatividade empregada na história é o que segura a atenção, com efeitos visuais razoáveis sustentando a proposta.

Bem mais sombria, The Outsider traz um mistério logo de cara: um dos caras mais legais de uma cidadezinha é acusado de sequestrar e matar uma criança. A polícia tem provas irrefutáveis, mas o sujeito tem um álibi forte. Esse é o ponto de partida da série, que traz Jason Bateman (de Ozark) como o técnico bonzinho e querido por todos e Ben Mendelsohn (de Capitã Marvel, 2019) na pele do policial que investiga a situação. É bem interessante ver os dois atores longe de suas zonas de conforto, já que Bateman costuma aparecer em comédias e Mendelsohn tem sido sempre um vilão.

Ao longo dos 10 episódios, vamos encontrando personagens interessantes e rostos conhecidos começam a aparecer. O principal é o de Cynthia Erivo, indicada esse ano ao Oscar como Melhor Atriz por Harriet (2019) e por Melhor Canção como compositora e intérprete do tema do longa. Ela se mostra uma ótima escolha para viver uma detetive aberta às possibilidades que fogem ao que estamos acostumados (leia-se: a realidade). Holly Gibney inclusive aparece também no livro (e na série) Mr. Mercedes, expediente usado frequentemente por King. Na TV, no entanto, não há qualquer ligação entre as obras.

O showrunner de The Outsider tem no currículo trabalhos de muita expressão, como as séries The Wire, The Night of e The Deuce, além de ter escrito filmes como A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986) e Vítimas de Uma Paixão (Sea of Love, 1989). Richard Price trouxe, como colegas de roteiro, o escritor Dennis Lehane e o próprio Stephen King. Entre os diretores dos episódios, gente como Karyn Kusama (de O Convite, 2015) e Bateman. Nesses nomes certamente reside a razão do sucesso. Quem está por trás de Locke & Key é outro veterano, Carlton Cuse (de Lost e Bates Motel), mas ele acaba sendo o único nome grande no projeto.

Cynthia Erivo é um dos destaques de The Outsider

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Mark Ruffalo é um novo Davi buscando a verdade

por Marcelo Seabra

 Histórias de duelos entre um Davi e um Golias costumam ser interessantes. Produtores de Cinema tendem a gostar da premissa, como provam Erin Brockovich (2000) e A Qualquer Preço (A Civil Action, 1998), para ficar em exemplos mais badalados. O mais recente representante desse grupo a ganhar a tela grande é O Preço da Verdade (Dark Waters, 2019), adaptação de um artigo da revista do New York Times sobre a criminosa poluição causada por uma empresa. Juntar nessa mistura um diretor bem competente e um elenco notável só faz a expectativa crescer.

Mark Ruffalo, que nas horas vagas, quando não está vivendo o Hulk no Universo Marvel, procura projetos mais discretos, foi escalado para encabeçar o projeto. Ele vive Robert Bilott, um advogado que acaba de se tornar sócio em um escritório prestigiado que tem como principais clientes grandes indústrias químicas. Procurado por um fazendeiro vizinho de sua avó, Bilott acaba investigando um fenômeno: os animais da fazenda estão morrendo e tudo leva a crer que o culpado é um riacho onde eles bebem água. E que abastece toda aquela cidadezinha. É lá que a DuPont joga os refugos de sua produção.

A empresa ficou famosa no mundo todo e ganhou bilhões por produzir o teflon que é aplicado em panelas. Uma vez no corpo humano, ele nunca mais sai ou se dissolve, o que pode levar a um câncer ou a outras doenças. E o descarte no meio ambiente causa outra série de catástrofes. Bilott começa a investigar e acaba caçando uma grande briga, enquanto vê suas vidas particular e profissional em perigo. Distante da mulher (Anne Hathaway, de Colossal, 2016) e dos filhos, já que está sempre pensando no trabalho, ele ainda cria problemas com o chefe (Tim Robbins, de Cinema Verité, 2011 – abaixo), que não quer se indispor com os clientes.

Outros nomes que compõem o elenco de O Preço da Verdade incluem Bill Pullman (de A Guerra dos Sexos, 2017), Victor Garber (de Legends of Tomorrow), William Jackson Harper (de The Good Place) e Mare Winningham (de Under the Dome e The Outsider), que formam um grupo realmente interessante. Comandando o show, temos Todd Haynes (de Carol, 2015), diretor respeitado que tem grande diversidade de temas em seu currículo e uma visão bem sensível. Entre os roteiristas, temos uma combinação rica de Mario Correa, cuja experiência remete a documentários, e Matthew Michael Carnahan, de blockbusters como Horizonte Profundo (Deepwater Horizon, 2016). Ou seja: tudo indica um filme redondinho, sem arestas a aparar.

O assunto, no entanto, é pesado e os envolvidos não conseguiram contornar o maior risco que enfrentavam: fazer um filme chato. Os 120 e poucos minutos parecem se arrastar, e há cenas pontuais que exageram um pouco no drama, como quando o irmão de uma vítima aborda a família do advogado em um restaurante. Em uma guerra, há várias batalhas, e custa muito a chegarmos ao final. Por mais que todos sejam ótimos em suas tarefas, há momentos cansativos, o que derruba um pouco o resultado.

O verdadeiro Robert Bilott posa com seu intérprete

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O Homem Invisível traz ótima releitura

por Marcelo Seabra

Tendo passado por várias adaptações para outras mídias desde seu lançamento, em 1897, O Homem Invisível (The Invisible Man), história clássica de HG Wells, ganhou uma nova versão para o Cinema. No entanto, o foco mudou e temos agora uma heroína fugindo do psicopata do título. Ao invés de acompanharmos um cientista em busca de um antídoto para sua invisibilidade, temos a namorada do sujeito em dúvida se está sendo perseguida por ele ou se está à beira da loucura.

A ideia inicial da Universal Pictures era reviver seus monstros clássicos em aventuras solo para, na sequência, reuni-los, criando um universo compartilhado sombrio – o Dark Universe. O fracasso de críticas e de bilheterias de A Múmia (The Mummy, 2017) mudou radicalmente o plano e a primeira providência foi dispensar Johnny Depp, que iria viver o personagem de Wells. O roteiro de David S. Goyer também ficou de lado e o novo produtor encarregado, Jason Blum, chamou Leigh Whannell, um dos criadores da franquia Jogos Mortais (Saw), para repaginar o projeto.

Além da direção, Whannell assumiu também o roteiro e definiu um novo e acertado caminho. Evitando sustos fáceis e carregando na tensão, ele criou a história de uma mulher oprimida pelo namorado poderoso que não tem liberdade nem após a morte do sujeito. Ela foge da mansão, ele se suicida e parece que esse era o fim da relação. Mas coisas estranhas começam a acontecer e ela passa a ter certeza de que ele está por perto. Invisível.

Entre várias decisões felizes, a melhor foi a escolha de Elisabeth Moss para o papel principal. Conhecida por séries como Mad Men, Top of the Lake e The Handmaid’s Tale, ela tem trabalhos interessantes no Cinema e há muito provou sua competência. As expressões da atriz vão de um extremo ao outro, com alívio, medo ou raiva bem visíveis. Moss realmente dá uma aula e merece louros, além de premiações. Se não vierem por esse trabalho, não tardarão.

Outro que brilha, mesmo sem aparecer, é Stefan Duscio. Diretor de fotografia em Upgrade (2018), também de Whannell, ele faz um trabalho brilhante explorando cantos e quartos vazios e nos fazendo crer que de fato há alguém ali. Os enquadramentos são grandes responsáveis pela crescente tensão em O Homem Invisível, complementados por silêncios incômodos e pela bem encaixada trilha sonora de Benjamin Wallfisch (dos dois It, 2017 e 2019). Os efeitos sonoros, apesar de discretos, são marcantes, completando o quadro e a aflição.

Se este O Homem Invisível vai ajudar a compor um universo maior da Universal, só saberemos no futuro. Talvez inicie novas práticas e prove que não é necessário ter um astro envolvido (como Tom Cruise). Por enquanto, é um filme independente de qualquer outro, e um muito bem sucedido em sua missão. Whannell, já envolvido na refilmagem do novo clássico Fuga de Nova York, é um nome que deve aparecer bastante daqui em diante.

Claude Rains foi o Homem Invisível em 1933

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Better Call Saul volta para sua 5ª e penúltima temporada

por Kael Ladislau

A espera foi longa, mas recompensadora. Depois de um ano e meio do encerramento da quarta temporada, Better Call Saul voltou, aqui no Brasil, pela Netflix. E para os fãs, ansiosos pelo retorno, têm uma grata surpresa: foram liberados de cara os dois primeiros episódios desse novo ano.

A série segue firme na premissa de mostrar a transformação de Jimmy McGill no trambiqueiro Saul Goodman (Bob Odenkirk), apresentado em Breaking Bad como o advogado de Walter White e Jesse Pinkman. Mais que isso, ela segue dando pistas do futuro de Saul após os eventos da série-mãe. São pequenos flashforwards, mas muito bons, no início da temporada, como de costume. Eles mostram Jimmy como um gerente de uma loja de rocamboles, então chamado Gene Takovic, e seu receio em sofrer as consequências de um passado que ele quer esconder.

Esconder o passado, aliás, é o que Jimmy pretende fazer ao encarnar de vez o nome que viemos a conhecer em Breaking Bad. A ideia é se livrar da sombra do irmão mais velho, Chuck (Michael McKean). A nova temporada dá sequência direta ao final da anterior, mostrando o embate que o personagem principal tem com a parceira, Kim Wexler (Rhea Seehorn, acima). É um conflito completamente antagônico e, ao mesmo tempo, amoroso. São muitas escolhas duvidosas que ela faz em sua vida.

Mas Better Call Saul não é apenas sobre o advogado, é sobre Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks). O ex-policial durão é outro a lidar com consequências de seus atos na última temporada e, agora, se vê cada vez mais envolvido com as atividades de Gus Fring (Giancarlo Esposito), o vilão das duas séries. Tanto pelo lado de Mike quanto de Saul, acompanhamos o desenvolvimento de histórias que não se relacionam, o que pode incomodar alguns expectadores. Afinal, a série é sobre Jimmy/Saul e Kim ou Mike e Gus? Aqueles que confiam nos showrunners Vince Gilligan e Peter Gould sabem que nenhuma aresta fica solta em suas obras e, uma hora ou outra, essas histórias se chocarão.

Os dois primeiros episódios liberados nesta semana dão sinais de como isso acontecerá. E o mais gostoso disso é já saber que as consequências desse choque acarretarão no que se sabe de Breaking Bad e até mesmo de El Camino (2019), filme lançado no ano passado sobre o futuro de Jesse Pinkman. Resta saber como isso vai acontecer e qual será o final de alguns personagens só existentes em Better Call Saul. E até mesmo o pós-Breaking Bad de Jimmy/Saul/Gene. Agora, é aguardar os próximos 8 episódios, liberados semanalmente, e as surpresas – algumas já reveladas no trailer – que a temporada vai nos trazer!

O elenco se prepara para se despedir da série

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João e Maria ganham versão sombria

por Marcelo Seabra

Os contos dos irmãos Grimm já ganharam diversas versões, inclusive com as “verdadeiras histórias”, quando alguém resolve reinventar uma trama que todo mundo conhece, apresentando tudo de forma original. João e Maria já haviam ganhado a sua “atualização, com eles já adultos caçando bruxas no longa de 2013. Com tantos filmes de terror chamando a atenção do público recentemente, viram uma brecha para voltar com os dois numa história mais sombria. Maria e João – O Conto das Bruxas (Gretel and Hansel, 2020) inverte o protagonismo e não para por aí em sua louvável jornada feminista.

Deixando de ser apenas sobre irmãos que saem pela floresta jogando migalhas de pão para não se perderem e, ao se perderem, encontram uma bruxa, o conto ganha contornos mais realistas num primeiro momento para, a seguir, rumar ao sobrenatural. Nunca um terror de sangue ou vísceras, com poucos sustos, o longa aposta mais na ambientação, na tensão crescente. Nesse ponto, ele se aproxima muito de A Bruxa (The Witch, 2015), chegamos a esperar que Black Phillip apareça.

O roteiro de Rob Hayes dispensa elementos do imaginário popular – num estado de total pobreza, onde os dois arrumariam migalhas para deixar pelo caminho? E toma grandes liberdades, se afastando bastante do que é sabido por todos, o que faz a história soar como nova. Em uma cidade desolada pela Peste, uma mãe sem recursos e à beira da loucura coloca seu casal de filhos para fora. Andando pela floresta, eles encontram uma casa com comida à vontade e uma moradora misteriosa que logo se mostra bondosa e sensata. Mas nesse mato tem coelho.

Os aspectos técnicos de Maria e João são bem interessantes. A reconstituição de época, mesmo que não saibamos exatamente de que período se trata, é coerente, com cenários e figurinos apropriados. A fotografia de Galo Olivares (operador de câmera em Roma, 2018) é o que mais salta aos olhos, explorando de maneira competente tanto o interior da casa quanto os campos externos. Os contrastes de claro e escuro criam frames belíssimos, pontuados por uma trilha incômoda (no bom sentido) de Robin “Rob” Coudert, com sintetizadores aumentando a estranheza de certos momentos.

Tudo isso é costurado pelo filho de Norman Bates: Osgood “Oz” Perkins assina a direção, em sua terceira empreitada na função. Ele deixa o ritmo cair um pouco, tornando o meio do filme um pouco cansativo. Mas logo volta com um final marcante. E ajuda ter, no papel principal, a ótima Sophia Lillis, que, ao contrário da Anya Taylor-Joy de A Bruxa, já é bem conhecida, com os dois It (2017 e 2019) e a série Objetos Cortantes (Sharp Objects) no currículo. Ela contracena contra a veterana Alice Krige (acima), que aqui tem mais destaque que em seus trabalhos usuais.

Perkins ainda não tem a relevância de um Robert Eggers (de A Bruxa e O Farol) ou um Ari Aster (de Hereditário e Midsommar). Mas está no caminho certo, ainda mais por inserir discussões fundamentais em seu filme: o papel e a força da mulher, sororidade, amadurecimento e a questão do pertencimento, do quanto é difícil abrir mão de um lugar que te recebeu bem. Maria e João não inverteu os personagens em seu título apenas para se diferenciar de outras obras: ele de fato conferiu a Maria uma maior importância, e Lillis dá conta do recado. Os Grimms ficariam orgulhosos.

A floresta também é responsável pelo único momento de humor

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Novo Rambo enterra o personagem de vez

por Marcelo Seabra

Passada a temporada de Oscar, com vários filmes em destaque, voltamos à programação normal. E eis que me deparo, num serviço de streaming, com a suposta última aventura de Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood, 2019). O personagem, que começou bem nos idos de 1982, deixou de ser um soldado traumatizado e amargurado para virar um psicopata sempre a um passo da explosão de loucura. E continua sendo um exército de um homem só.

A trama do novo longa é complexa: alguém faz mal a John Rambo e ele quer vingança. É, não era tão complexa assim. Ele faz questão de ser chamado de John, como se isso tirasse um peso de suas costas ou afastasse o passado, que está sempre à espreita. E é muito estranho ver um sujeito que já matou tanta gente ser assombrado por vítimas de uma enchente na qual ele obviamente não teve culpa alguma. Uma clara tentativa vazia de dar profundidade a um personagem raso feito um pires.

Se falta profundidade a Rambo, que de repente aparece morando com duas mulheres e em momento algum conseguimos entender a relação entre eles, os bandidos são ridículos. Em uma época de muitas críticas ao presidente norte-americano, que trata imigrantes como bandidos e separa pais de suas crianças, é bem complicado colocarem os mexicanos para serem os vilões. Traficantes de mulheres que sequestram garotas em boates e as levam ao mundo da prostituição e das drogas. Tudo extremamente formulaico. Os antagonistas bem poderiam ter sido americanos.

É triste ver que Sylvester Stallone não aprendeu nada com os episódios anteriores da saga de Rambo. E pior ainda é ver um ator do calibre do espanhol Óscar Jaenada, que já viveu Cantinflas (na cinebiografia de 2014) e o pai de Luis Miguel na série sobre o cantor, restrito a falas ridículas que invariavelmente envolvem as palavras “puta” e “matar”. Os diálogos entre os mexicanos são constrangedores, e o contingente de asseclas parece não ter fim. Outras que passam leve vergonha são Paz Vega (de Não Pare na Pista, 2014) e Adriana Barraza (de Cake, 2014), competentes veteranas com participações mal explicadas.

Coincidentemente, o diretor deste Rambo V chama-se Adrian Grunberg: Adrian era a esposa de Rocky Balboa, outra franquia de Stallone. Grunberg vem de muita experiência como assistente de direção, tendo feito sua estreia na função principal com o divertido Plano de Fuga (Get the Gringo, 2012), um amontoado de tiros e explosões que não se afasta muito do que vemos aqui. Se Plano de Fuga funciona, por outro lado mostra o mesmo problema de Até o Fim: mexicanos são bandidos desalmados que merecem morrer.

Em um clima de nostalgia, Stallone se despede de um ícone que, embora tenha arrecadado uns trocados ao longo dos últimos quase 40 anos, só funcionou mesmo no primeiro filme, adaptado da obra de David Morrell. Do dois em diante, temos a mesma receita repetida. Uma metralhadora de clichês que chega a ser risível quando emula Esqueceram de Mim, com John espalhando armadilhas por sua propriedade. Ao invés de ficar tentando tirar o personagem de cena em alta, Stallone podia se dedicar a novos projetos e aos próximos Rocky – quer dizer, Creed.

O primeiro Rambo é o único satisfatório da franquia

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Jordan e Foxx lutam por justiça

por Marcelo Seabra

O subgênero “filmes revoltantes” acaba de ganhar outro representante. Luta Por Justiça (Just Mercy, 2019) é mais um longa a trazer uma história de preconceito, que escancara o tanto que o racismo é algo comum na sociedade norte-americana, inclusive nas altas esferas do poder municipal. Para esclarecer um crime sem suspeitos e aplacar a opinião pública, basta acusar um negro, trancafiá-lo e perder a chave. E não se trata de algo acontecido nos anos 50 ou 60, auge da Ku Klux Kan: o fato ocorreu há algo em torno de 30 anos atrás.

Voltando do trabalho, Johnny D. vê um bloqueio policial, para e oferece mostrar os documentos. É quando vemos diversas armas apontadas contra ele e um policial doido para ter um motivo para atirar. Conhecemos também o jovem Bryan Stevenson, um estudante de Direito de Harvard que consegue um estágio trabalhando com condenados à morte. Em meio a tantas outras, essas duas figuras vão se encontrar e fazer história.

Representando esse grande encontro, temos Jamie Foxx (Oscar de Melhor Ator por Ray, 2004) e Michael B. Jordan (o novo Creed da franquia Rocky). Os dois atores chegaram a levantar palpites de indicações a Oscars, tamanha a potência de suas interpretações. Isso não se confirmou, mas a verdade é que, além dos interessantes acontecimentos narrados, eles são a grande razão do investimento no ingresso de Luta por Justiça.

O filme, no entanto, se enfraquece por buscar abraçar o mundo. Muitas subtramas são propostas, e o roteiro acaba tentando cobrir mais do que o espectador dá conta de acompanhar. Talvez, funcionasse melhor como série, dando voz a cada personagem e tendo tempo para fechar cada arco, sem precisar de uma legenda esclarecedora ao final. Algo como Olhos Que Condenam (When They See Us, 2019) fez e deu muito certo. Daria para criar antagonistas menos rasos, caso do xerife (Michael Harding) que fala pouco e fica lançando olhares ameaçadores.

Repetindo a dobradinha de O Castelo de Vidro (The Glass Castle, 2017), Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham assinam o roteiro, adaptando o livro do próprio Bryan Stevenson. É claro que a fonte deve trazer diversos dramas que circularam o de Johnny D., que não foi a única vítima de racismo que o advogado conheceu. Mas a adaptação poderia ter sido mais enxuta, o filme não dá conta de acompanhar todos os personagens que apresenta e acaba ficando cansativo. Cretton, também diretor do longa, deveria ter dado mais agilidade a ele, aproveitando melhor a marcante história que tinha em mãos.

Os atores puderam conhecer o verdadeiro Bryan Stevenson

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Adam Sandler ganha polida em Jóias Brutas

por Marcelo Seabra

Se existisse um prêmio para personagem de Cinema mais irritante, certamente o deste ano iria para Howard Ratner, o joalheiro vivido por Adam Sandler em Jóias Brutas (Uncut Gems, 2019). Este é sem dúvida o melhor trabalho da carreira do ator, conhecido por tantas besteiras rasteiras – o que, por isso mesmo, não significa tanto. Mas Sandler realmente encontrou uma forma de superar as caretas usuais e criar algo único, marcante e realista.

Depois de um ótimo resultado com Robert Pattinson, que esteve em Bom Comportamento (Good Times, 2017), os irmãos Safdie emplacaram outra parceria inusitada. Mesmo tendo outros dramas no currículo, Sandler nunca havia abandonado totalmente seus maus hábitos. Nem trabalhar com diretores elogiados como Paul Thomas Anderson (de Embriagado de Amor, 2002) ou Noah Baumbach (de Os Meyerowitz, 2017) em dramas sensíveis fez com que ele parasse de fazer caretas ao tentar demonstrar emoções genuínas. Foi com Benny e Josh Safdie que Sandler chegou lá, compondo um tipo tridimensional que não se cansa de praticar a autossabotagem.

Howard Ratner é o típico sujeito que tira de um lado para colocar no outro, o tal “cobre um santo descobrindo o outro”. Suas jogadas exigem que ele seja um tanto dissimulado, lidando perigosamente com as possibilidades. As apostas que pagam mais são as mais arriscadas, as preferidas dele. E uma é encadeada na outra. Ele frequentemente se pergunta por que as coisas não dão certo para ele. E o culpado por isso é ele e somente ele. Com uma esposa (Idina Menzel, a voz da Elsa de Frozen) e filhos esperando em casa, ele arruma desculpas para ficar com a amante (a estreante Julia Fox) em eventos badalados ou no apartamento que ele mantém para ela.

A grande oportunidade vem quando ele recebe uma pedra preciosa bruta da Etiópia e vê nela a chance de quitar todas as suas dívidas. Se envolvendo com os mais diversos personagens, do agente de um importante jogador de basquete (LaKeith Stanfield, de Death Note, 2017) a um agiota (Eric Bogosian, de Billions) já sem paciência para desculpas, Ratner segue num ritmo acelerado, acompanhado pela câmera de Darius Khondji (de Okja, 2017), que ajuda a nos dar a sensação de que algo grande logo vai acontecer. O corroteirista Ronald Bronstein é também o montador do longa, repetindo com os diretores a parceria de Bom Comportamento, Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What, 2014) e de Go Get Some Rosemary (2009).

Os Safdies rapidamente se estabeleceram como mestres na arte de criar ansiedade no público. Seus trabalhos exalam um senso de urgência e, mesmo que seus protagonistas tenham caráter duvidoso, acabamos torcendo por eles. Além de Ratner ser alguém de quem teríamos distância na vida real, ele causa ainda mais repulsa por ser interpretado por um ator lembrado por papéis bestas em obras canhestras – algumas, inclusive, produzidas pela Netflix, como é o caso aqui. Ou seja: um grande acerto dos irmãos.

Os diretores abraçam seu astro

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Arlequina reúne uma turma de Aves de Rapina

por Marcelo Seabra

Depois de chamar atenção em meio aos criminosos do horroroso Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016), Arlequina seguiu caminho para ter sua aventura solo. Mas ela não está exatamente sozinha em Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, 2020), ganhando a companhia de outras personagens que costumam ser vistas andando por Gotham City. Batman e Coringa não foram convidados para a festa, deixando o protagonismo para estas mulheres que, mesmo diferentes, precisam se unir contra um vilão poderoso.

Margot Robbie, indicada ao Oscar este ano como atriz coadjuvante por O Escândalo (Bombshell, 2019), volta ao papel da namorada do Palhaço do Crime, criada em 1992 por Bruce Timm e Paul Dini para o desenho do Homem-Morcego. Desta vez, no entanto, a briga entre o casal foi feia e Arlequina precisa aprender a se virar sozinha, sem poder contar com seu “pudinzinho”. Mas era a proteção do Coringa que garantia a segurança dela no submundo da cidade. Agora, ela está à própria sorte. Entre seus vários desafetos, está o dono de bar e mafioso Roman Sionis (Ewan McGregor, de Doutor Sono, 2019).

Com várias situações se cruzando, Arlequina percebe que há outras mulheres fugindo de Sionis e que elas deveriam se unir. Nesse meio tempo, conhecemos a misteriosa Caçadora (Mary Elizabeth Winstead, de Projeto Gemini, 2019); a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell, de True Blood); a policial Renee Montoya (Rosie Perez, de A Escolha Perfeita 2, 2016); e a trombadinha Cassandra Cain (Ella Jay Basco, fazendo sua estreia na tela grande). Não temos a oportunidade de conhecer a fundo nenhuma delas. As histórias que ficam mais claras são as de Arlequina, que já conhecíamos, e da Caçadora, e mesmo assim bem por alto.

Fãs dos quadrinhos podem ficar chateados com as muitas mudanças do roteiro em relação à fonte. Sionis, o Máscara Negra, por exemplo, é bem menos ameaçador e mais caricato. Para o filme, funciona bem, e McGregor parece estar se divertindo. Ele é tão espalhafatoso quanto os demais elementos em cena, o que resulta em uma obra bem mais colorida que outras produções da DC. A Gotham mostrada aqui é bem diferente da cidade deprimente de Coringa (Joker, 2019), a fotografia de Matthew Libatique (de Venom, 2018) está mais para o Batman de Joel Schumacher, sempre acompanhada de músicas interessantes que reforçam o poder feminino da obra.

Se o roteiro de Christina Hodson (de Bumblebee, 2018) é raso, a diretora Cathy Yan (de Dead Pigs, 2018) costura bem as sequências e imprime um ritmo ágil ao longa. As coreografias de lutas são bem falsas, com capangas levando um chute na barriga e caindo desacordados, o que se alterna com tiros e explosões que elevam o nível de violência, sempre com aquele ar de mentirinha. Aves de Rapina não chega a ser um Deadpool, o que parecia ser a ideia aqui. Mas é divertido o suficiente e passa longe de um Esquadrão Suicida, o que é uma ótima notícia. E nada impede que cada personagem ganhe sua aventura solo, que vá desenvolvê-las melhor.

Sionis e Victor Zsasz são os vilões aqui

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