Animação traz a clássica revista O Cavaleiro das Trevas

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Segundo o horóscopo chinês, 2012 é o ano do Dragão da Água. Para os fãs dos quadrinhos, no entanto, esse pode ser muito bem o ano do morcego. Afinal, até o momento, Batman foi a estrela de três longa metragens, ainda que dois deles sejam animações lançadas diretamente em DVD.  Baseada na minissérie homônima criada por Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley, Batman: O Cavaleiro das Trevas Parte 1 (Batman: The Dark Knight Returns Part 1, 2012) é o último desses lançamentos. Chegando diretamente ao mercado de homevideo, a animação atende aos desejos de boa parte dos fãs do personagem que, desde 1989, ano do primeiro filme de Batman – aquele dirigido por Tim Burton – esperam ver a obra-prima de Miller transposta para as telas.

O Cavaleiro das Trevas, ainda que não faça parte da cronologia de Batman, é uma das mais importantes histórias do personagem (se não A mais importante). Ela mostra Gotham City 20 anos no futuro, metade dos quais sem um Batman para defendê-la. Depois da morte de Jason Todd (o segundo Robin), o Homem Morcego decide se aposentar. No décimo aniversário da data, o comissário James Gordon também está às portas da aposentadoria. Harvey Dent, o Duas Caras, passa por uma cirurgia reconstrutora e, após anos de terapia intensiva, está “reabilitado”. Já o Coringa, responsável pela morte de Todd, está internado no Asilo Arkham, catatônico. No meio disso tudo, temos Bruce Wayne, um homem assombrado pelo seu passado e uma voz interna que urge que ele volte à ação. Afinal, apesar de estar livre de seus maiores algozes, Gotham está mergulhada no crime, graças à ascensão da gangue conhecida como “Os Mutantes” e seu líder, conhecido, adequadamente, como “Líder Mutante”. Logo, a voz vence e Batman volta à ativa. Dizer mais do que isso seria estragar a diversão.

Batman: O Cavaleiro das Trevas Parte 1 transpõe para a telinha a primeira e a segunda edições da minissérie. Como toda adaptação, ela tem pontos positivos e negativos. A parte negativa fica justamente pelo fato de o conflito interno pelo qual passa Wayne ter sido bastante amenizado no desenho – em parte talvez pelo roteirista Bob Goodman e diretor Jay Oliva terem cortado a narração que, no gibi, mostra Wayne conversando internamente com Batman. Desperdiça-se, assim, um recurso que poderia também ter sido explorado em outros momentos. Isso pode ser justificado, por outro lado, pelo fato de a animação claramente tentar atender a um público mais jovem, que provavelmente não iria se empolgar caso o filme adquirisse esse tipo de clima. Claro, há também a questão de que muitas das nuances presentes na obra de Miller dificilmente poderiam ser comprimidas nos pouco mais de 70 minutos da animação.

Por outro lado, um dos maiores medos que os fãs da série de Miller era de que a violência presente nos quadrinhos fosse amenizada ou mesmo deixada totalmente de lado na animação justamente para que ela se adequasse a uma audiência mais jovem. Dessa vez, no entanto, os produtores optaram pela fidelidade e mantiveram o que acontece no gibi. A luta de Batman com o Líder Mutante sozinha é mais empolgante do que todas as sequências de luta presentes na trilogia de Chris Nolan. Uma comparação deveras injusta, eu sei.

No fim das contas, esta Parte 1 é uma transposição extremamente bem sucedida e consegue equilibrar a necessidade de ser fiel ao original com a de atender a uma audiência mais diversa – ou seja, aquelas pessoas que sequer sabem que se trata de uma adaptação de uma obra específica – de maneira bastante satisfatória. A exemplo de Batman: Ano Um (Batman: Year One, 2011), ela é daquelas obras que tem tudo para agradar tanto aos fãs dos quadrinhos quanto àqueles admiradores ocasionais. Só esperamos que a segunda parte faça jus às expectativas.

Wayne já passa dos 60

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Liam Neeson arruma confusão em outro país exótico

por Marcelo Seabra

Em 2006, Liam Neeson deu uma pausa em filmes dramáticos e papéis de mentores para fazer um faroeste cujo tema está no título nacional, À Procura de Vingança (Seraphim Falls). A jogada inesperada, então, foi aumentar a dose de adrenalina e apostar as fichas no cinema de ação. O ator se uniu ao produtor Luc Besson, que escreveu Busca Implacável (Taken, 2008) com o parceiro usual Robert Mark Kamen. O sucesso alcançado da empreitada fez com que uma sequência fosse feita: Busca Implacável 2 (Taken 2) já está em cartaz.

Bryan Mills é um ex-agente da CIA que tem a filha seqüestrada ao viajar para a França com uma amiga. Ele promove uma carnificina, envolve funcionários do governo e literalmente acaba com uma rede internacional de prostituição e tráfico de mulheres. E encontra a filha, claro, sã e salva. Na sequência, Mills mantém uma relação próxima com a filha e a ex-esposa e as convida a passear em Istambul, onde teria um trabalho curto e poderia aproveitar para descansar. Os problemas começam quando a família é localizada por uma gangue chefiada pelo pai do seqüestrador morto por Mills. Exato, essa é a trama do segundo filme.

O longa se pretende um estudo da vingança e suas consequências, e Mills se afunda no que melhor sabe fazer: matar. O personagem seria um caso clássico de sujeito manipulador e dominador, dos bem psicóticos, mas aqui tudo isso é desculpado porque cabe a ele salvar o dia. Até a filha, quando é extremamente constrangida na frente do primeiro namorado, o perdoa. Afinal, quem vai ser louco de ficar contra ele? Além de Neeson, Maggie Grace e Famke Janssen repetem seus papéis, completando o trio que vai tentar fugir dos albaneses muçulmanos vingativos liderados por Rade Serbedzija (acima), o general russo de X-Men: Primeira Classe (2011).

Nos vários longas de ação que Neeson tem estrelado (uns bons, outros nem tanto), ele já se mostrou uma figura interessante o suficiente para valer o ingresso. Não importa o nível de palhaçada do roteiro, ele costuma sair intacto, com seu carisma e charme de cara durão inabalados. Mas não dá para evitar o riso em certas passagens de Busca Implacável 2, tamanho é o chute. As cenas de lutas são tão rápidas que mal dá para entender o que está acontecendo, e as perseguições de carros, que parecem ser a principal atração da produção, chegam a ficar incompreensíveis e inacreditáveis. Ainda mais levando-se em conta quem está dirigindo o táxi. A chegada à embaixada, então, é fora de qualquer noção de realidade. O tal Olivier Megaton (Carga Explosiva 3, 2008) parece ser um cineasta incompetente e, por isso mesmo, manipulável, já que ele consegue estragar várias seqüências e nunca deixa uma assinatura nos filmes que faz. Besson, sim, imprime uma marca aos filmes que dirige, escreve ou produz. O que não necessariamente significa uma coisa boa.

O primeiro filme funcionou bem, provavelmente, devido a Neeson e a estranheza positiva que sua presença trazia ao projeto, além de colocar o seu personagem em situações mais simples e diretas. Agora, Mills deixa de ser um agente experiente para virar uma espécie de MacGyver sem juízo ou responsabilidade, que pede à filha que jogue granadas para cima para se orientar pelo barulho. Além do absurdo da ação, as conclusões e linhas de raciocínio que ele segue são deduções muitas vezes sem base, e sempre funcionam. A falta de risco claro nas situações vividas por Mills também dificultam que se crie interesse pela trajetória do personagem. Para que me importar se eu já sei de cara que ele não vai sofrer muito? Nos importamos mais com os pobres vilões albaneses, esses sim vão ser estropiados. Se serve de consolo, o ator já recusou fazer uma nova sequência. Se seguir por esse caminho, Neeson logo será visto como integrante da trupe de Stallone e seus mercenários.

De frente com os Mills

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Comédia nacional consegue subir um pouco o nível

por Marcelo Seabra

Do jeito que andam as comédias brasileiras, a última coisa que eu iria querer é assistir a mais uma, depois de passar raiva com Cilada.com (2011), Agamenon (2011) e E Aí, Comeu? (2012). Mas eis que surge Até que a Sorte Nos Separe (2012) e, por ser brasileiro e não desistir nunca, vou conferir. Ao mesmo tempo em que confirmo não se tratar de nada minimamente memorável, constato que não é tão ruim quanto esperava e até dá para achar graça aqui e ali. Assim como os já citados, a bilheteria deve ser boa, já que tem sempre público para este tipo de filme.

Por algum motivo, alguém achou uma ótima ideia ficar lembrando que trata-se do mesmo diretor e mesmo roteirista do De Pernas pro Ar (2010), Roberto Santucci e Paulo Cursino (além de Angélica Lopes). E dá um pouco de credibilidade citar o livro que inspirou o roteiro, o best seller Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, de Gustavo Cerbasi. O autor dá conselhos financeiros sérios e isso é exatamente o que falta ao casal de protagonistas, vividos por Leandro Hassum e Danielle Winits. Eles ganham milhões na loteria, mas gastam tanto que se vêem quebrados pouco mais de uma década depois.

Hassum, daquele programa mala de TV Os Caras de Pau, é uma grata surpresa. Carismático, é ele quem segura o longa e responde pelos momentos mais divertidos. Apesar de alguns exageros, ele mostra um bom timing cômico e aproveita bem a desgraça que seu personagem experimenta. Tino era um personal trainer que morava em um apartamento simples com a filha recém-nascida e a esposa quando ela ganha na loteria e eles vêem tudo mudar. Alguns anos depois, aquele casal sereno do início parece não existir mais, eles agora são perdulários e histriônicos. Fazem questão de dar festas homéricas, viajar para fora várias vezes por ano e ficar bem longe de algo parecido com trabalho. Os filhos, bem jovens, vão para o mesmo caminho, estragados por tanta esbanjação.

Um belo dia, Tino descobre que a conta para tanta falta de noção chegou e ele está no vermelho. Ao mesmo tempo, por indicação do médico, ele decide esconder o fato da esposa e começa o malabarismo para acobertar a verdade. Um vizinho do casal, o consultor financeiro interpretado por Kiko Mascarenhas, entra na história para ajudar Tino, mesmo a contragosto. Winits, longe de ser atriz, não compromete, ficando no básico necessário para Hassum poder entreter o público. Mais lembrada pelo corpo siliconado e malhado, ela fica bem como a perua deslumbrada que se acostumou com o alto padrão de vida. Seu visual passou por uma revolução, com o rosto esticado, cabelo mais louro que o usual e lentes de contato. Mascarenhas faz o contraponto sisudo a Hassum, e é claro que ambos vão ensinar alguma coisa ao outro.

Tecnicamente, Até que a Sorte Nos Separe tem alguns mistérios – e isso não é bom. O áudio parece fora de sincronia e temos a impressão de que os atores estão sendo dublados. A continuidade às vezes não existe, e notamos diferenças entre cortes numa mesma sequência. Isso tudo parecia superado pelo cinema nacional, mas volta e meia vem assombrar. Nada que atrapalhe o programa de quem costuma gostar das comédias brasileiras atuais. Se não é o seu caso, procure melhor.

Essa criatura loura é Danielle Winits

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Looper traz Willis e Gordon-Levitt em conflitos temporais

por Marcelo Seabra

Parece óbvio que, se viagens no tempo pudessem ser realizadas, elas logo seriam usadas para fins escusos. Alguém iria querer levar vantagem. Isso não foi um problema para Doc Brown e Marty McFly? Pois não demoraria a baixarem uma lei proibindo essa prática. E, claro, haveria quem desobedecesse a essa lei, já que o que é proibido é ainda mais divertido, como traficar bebidas alcoólicas na década de 30 nos Estados Unidos. É desse ponto que parte Looper: Assassinos do Futuro (2012), já em cartaz nos cinemas.

Com todo jeito de adaptação de quadrinhos – e não é – e sem ninguém que possa ser chamado de herói, o longa nos apresenta a Joe, um assassino que vive no ano de 2042. Sua função, como vários outros, é simplesmente ir para um campo fora da cidade, aguardar e apertar o gatilho. Sua vítima vai aparecer na sua frente, devidamente amarrada, pronta para o abate. Essas pessoas são enviadas de 30 anos no futuro, quando é impossível sumir com uma pessoa e não ser incriminado. Por isso, o grande vilão de 2072 envia seus desafetos de volta para os Loopers eliminarem. Assim, a pessoa some, os problemas são resolvidos e os assassinos são bem remunerados.

O problema é saber que, quando seus serviços não forem mais necessários, é você quem entrará na dança: seu eu do futuro será enviado de volta e caberá a você mesmo matá-lo (ou seria se matar?) e fechar o seu Loop. Assim, o Looper sabe que viverá apenas mais 30 anos, tendo que aproveitar ao máximo a riqueza que acumulou e o tempo que lhe resta. Esse universo intrincado daria um arco muito bacana nas mãos de uma boa dupla de roteirista e desenhista, ou até uma série mais duradoura. Algo como Estrada para a Perdição (Road to Perdition, 2002), adaptação de uma graphic novel em que torcemos para o menos imoral dos personagens, sendo que ninguém é nada perto de bom.

Como fez muito bem Josh Brolin em Homens de Preto 3 (Men in Black 3, 2012), cabe a Joseph Gordon-Levitt (de Batman Ressurge, 2012) emular os movimentos de Bruce Willis (um dos Mercenários de Stallone). Os dois atores vivem o mesmo personagem em épocas distintas e fazem um trabalho muito bom, apesar das lentes de contato de Gordon-Levitt o deixarem muito estranho, além de uma boa dose de maquiagem que vai permitir a transição entre eles. Em algumas cenas, ele está muito diferente, e já indica o que vai virar em algumas décadas à frente. E é muito interessante como a versão mais velha consegue entender melhor que se trata da mesma pessoa que deve defender os mesmos interesses, enquanto a versão mais jovem acha que não tem nada com aquilo e deve apenas seguir vivendo.

Como sempre acontece em tramas que envolvem viagens temporais, questões complicadas são levantadas. O tal efeito borboleta está sempre rondando: se algo é alterado no passado, todo o futuro sofrerá consequências. Ao invés de se perder tempo com explicações, Willis se resume a mencionar que as memórias ficam nubladas nos momentos de ajustes e que isso é a última coisa com que devem se preocupar. Na trilogia De Volta para o Futuro, aprendemos com Doc Brown que dois corpos da mesma pessoa não devem ocupar a mesma época, as conseqüências seriam desastrosas. Aqui, isso não é problema, e os diálogos mais interessantes são travados entre as duas versões de Joe.

A exemplo de Primer (2008), um construto faz a pessoa viajar nas linhas temporais, mas isso não é o foco. Não se perde tempo explicando o funcionamento, o mecanismo é prático e é isso o que importa. E o ritmo de ação desenfreada não se mantém durante toda a exibição, desacelerando bastante do meio em diante. O que não é demérito de forma alguma, pelo contrário: traz um outro ritmo, que vem acompanhado de outros conflitos e de um clima ao gênero de A Testemunha (Witness, 1985).

Ao contrário de outras grandes estreias do cinemão americano, Looper oferece um pouco mais do que tiros e explosões. Uma boa história que é bem desenvolvida, atuações competentes (além dos dois protagonistas, ainda Emily Blunt, Paul Dano e Jeff Daniels), belas imagens e um final condizente com o que acompanhamos pelas duas horas anteriores. Mérito do diretor e roteirista Rian Johnson e incentivo suficiente para que se confira seus trabalhos anteriores, A Ponta de um Crime (Brick, 2005) e Vigaristas (Brothers Bloom, 2008).

Não deve ser fácil se encontrar com o seu eu

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Seth MacFarlane parte para o cinema com Ted

por Marcelo Seabra

Histórias sobre crianças e seus ursinhos geralmente são bonitinhas, assim como o mascote em questão. Mas o que acontece quando essa criança cresce e o tal animal continua ao seu lado nunca é mostrado. O intrépido Seth MacFarlane, criador das séries cômicas Family Guy, American Dad! e The Cleveland Show, decidiu partir para a tela grande, com atores de carne e osso, e deu vida a Ted (2012), uma comédia sobre dois grandes amigos de infância: um sujeito imaturo sem muitas perspectivas profissionais e seu urso. Nada mais nonsense!

Mark Wahlberg (de O Vencedor, 2010) vive John Bennett, um atendente de uma locadora de carros que divide seu tempo livre entre ficar com a namorada (Mila Kunis, de Amizade Colorida, 2011) e com seu urso de pelúcia, Ted (voz de MacFarlane). Quando criança, John desejou ter um grande amigo e isso bastou para que seu brinquedo ganhasse vida e passasse a dividir com ele todos os momentos, bons e ruins. Aos 35 anos, é bem complicado continuar amigo de um urso de pelúcia, ainda mais quando ele passa o dia por sua conta, totalmente dependente.

Ted atrapalha a vida de John de várias formas e o impede de amadurecer e se tornar o homem com quem Lori sonha se casar. O fato de Ted ter se tornado um cínico que só quer fumar maconha, beber e pegar mulheres não ajuda em nada. Complicam a trama o chefe de Lori, um playboy que vive dando em cima dela (Joel McHale, de Community), e um pai ligeiramente transtornado que quer presentear o filho comprando Ted (Giovanni Ribisi, de Diário de um Jornalista Bêbado, 2011).

O elenco defende a história com unhas e dentes, o que leva o público a crer nesse absurdo. Wahlberg faz muito melhor o cara preso na juventude dos anos 80 que Adam Sandler, que não melhora com a prática. A animação de Ted é muito bem feita e já adianto que corre o risco de o filme ficar com o prêmio de melhor briga no próximo MTV Movie Awards. A participação de Ribisi, acertadamente caricata, é reforçada por um clima de desenho animado à Scooby Doo que torna as coisas mais divertidas. É bom reforçar que o longa, apesar de contar com um urso de pelúcia como um dos protagonistas, em momento algum é indicado para o público mais novo, e sim para maiores de 16 anos – ao contrário do que acreditam imbecis que levam o filho de 11 anos para uma sessão e depois inventam de tentar proibir novas exibições.

MacFarlane e seus parceiros de Family Guy Alec Sulkin e Wellesley Wild usam e abusam de referências a ícones culturais, como Star Wars, Indiana Jones e o clássico trash Flash Gordon, que ganha um destaque grande na trama. Em meio a muitas tiradas inteligentes e engraçadas, como já é padrão nas séries de TV de MacFarlane, há também os momentos além da conta, como aqueles em que críticas extremadas são jogadas ao vento, conversas são recheadas de palavrões desnecessários e gags extrapolam seu tempo, perdendo o efeito buscado. De uma forma geral, dá para rir muito, há passagens bem interessantes e MacFarlane mostra estar no caminho certo nesse terreno desconhecido para ele que é o cinema.

Deu para perceber que Ted não é um ursinho bonzinho qualquer

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Mais um trabalho equivocado de Robert De Niro

por Marcelo Seabra

Depois do elogiado Enterrado Vivo (Buried, 2010), era inevitável que o diretor Rodrigo Cortés e o roteirista Chris Sparling fossem cercados de expectativa sobre seus próximos trabalhos. Sparling escreveu ATM (ou Armadilha, de 2012) e mostrou que não vai sempre acertar o alvo. Cortés, com o novo Poder Paranormal (Red Lights, 2012), comprova que tem estilo na condução de um filme, mas poderia contar com um bom roteirista. A exemplo de M. Night Shyamalan, ele perde a mão quando a história precisa se resolver e joga para cima tudo de bom que havia criado até então.

Como também acontece em A Colheita do Mal (The Reaping, 2007), O Último Exorcismo (The Last Exorcism, 2011) e O Despertar (Awakening, 2011), os protagonistas aqui são profissionais especializados em revelar fraudes de supostos paranormais. Sempre se constata que há vários impostores nesse “mercado”, dando esperanças e enganando pessoas em situação frágil, de luto ou algo similar. E os filmes sempre enfocam uma possibilidade de que as manifestações do além sejam reais, levando para um clímax em que a verdade aparecerá. Às vezes, de forma satisfatória, como nos casos acima, mas só às vezes.

Sigourney Weaver, a eterna Tenente Ripley, vive a Professora Margaret Matheson, que divide seu tempo entre dar aulas e investigar lugares considerados assombrados e outros fenômenos não explicados. Seu auxiliar, o físico Tom Buckley (Cillian Murphy, o Espantalho da trilogia Batman), a acompanha em ambos os trabalhos dando o suporte necessário e dirigindo o carro nas viagens. Como atrai mais popularidade acreditar no sobrenatural que o contrário, o departamento deles na faculdade não anda bem das pernas, ao contrário da concorrência representada pelo professor de Toby Jones (de Capitão América, 2011).

Paralelamente, conhecemos Simon Silver (Robert De Niro, de Sem Limites, 2011), um médium cego que, depois de causar sensação com suas demonstrações públicas (e bem remuneradas) de dons sobrenaturais na década de 70, sumiu por 30 anos. Da mesma forma repentina, ele reaparece e retoma o circuito de shows, mobilizando milhares de pessoas e embolsando uma boa grana. Buckley começa a ficar cada vez mais curioso sobre Silver, mas algo do passado faz com que Margaret sempre recuse a proposta de investigá-lo. O filme começa a desandar quando Silver passa a ter mais destaque na trama, mostrando os buracos na concepção do personagem.

Para situar o leitor, tomemos para comparação O Ilusionista (The Ilusionist, 2006). Como pode um filme se construir sobre um mistério que em momento algum é explicado? Isso, sim, é uma fraude. No caso de Poder Paranormal, há uma resolução, ela só não é satisfatória, o que dá na mesma. Ou seja: o motivo de o filme existir cai por terra pela fragilidade de suas revelações, que deveriam deixar o espectador no mínimo intrigado, surpreso ou embasbacado. Uma coisa é um filme, em sua simplicidade ou engenho, te enganar e continuar fazendo sentido. Outra, é ele se enfraquecer à medida que se desenvolve. E Cortés faz a boa opção de não apelar para sustos juvenis, mas erra ao enquadrar personagens e situações de que não se tinha mais o que tirar, buscando gerar tensão de nada.

Outra triste constatação que se reafirma é a facilidade com que um ator do porte de Robert De Niro, responsável por excelentes momentos do cinema, vem se unindo a projetos duvidosos e até fadados ao fracasso. Tudo no piloto automático, sem exigir qualquer esforço. Com cinco trabalhos em um mesmo ano e cometendo atrocidades como Noite de Ano Novo, de 2011, dá vontade de ajudar o ator a arrumar mais empregos, porque as contas a pagar devem estar se multiplicando. Desde o início dos anos 2000, tem ficado cada vez mais difícil achar algo de bom ligado a ele, em meio a coisas como Showtime (2002), O Enviado (2004), O Amigo Oculto (2005), Fora de Controle (2008) ou Homens em Fúria (2010) e a saga da família Focker. Com Desafio no Bronx (1993) e O Bom Pastor (2006) no currículo de diretor, ele deveria se dedicar mais à função.

Uma bola fora não é o suficiente para deixar Cortés de lado. Da minha parte, ele continua sendo digno de confiança – OK, Sparling também. Seria uma tentativa de buscar alguma garantia de sucesso repetir a parceria, e é louvável que eles tenham se aventurado a novos rumos. Mas o caminho certo continua enevoado para ambos.

O diretor e roteirista Cortés levou seu elenco ao Festival de Sundance em janeiro

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Dredd faz justiça nos quadrinhos e no cinema

por Marcelo Seabra & Rodrigo “Piolho” Monteiro

Algumas adaptações de quadrinhos atingiram um resultado tão ruim que é necessário dar um tempo do personagem. Pois foram necessários dezessete anos para que se esquecesse O Juiz (Judge Dredd, 1995), aquele longa mequetrefe com Stallone, e se produzisse esse novo Dredd (2012), que chega maravilhosamente perto da essência do anti-herói criado por John Wagner e Carlos Ezquerra para a revista 2000AD. Além de agradar os fãs das revistas pela fidelidade ao material, é um longa de ação muito bem feito que não exige nenhuma experiência prévia para que se aprecie a sessão. Tem um roteiro bem amarrado, atuações interessantes e – o principal – é bastante violento, como sua base inspiradora.

Karl Urban, o Dr. “Bones” McCoy dos novos Star Trek, encarna o juiz Dredd como nenhum aficcionado sonharia. Ele não se rende à vaidade e permanece o filme inteiro com o capacete, marca registrada dos juizes de Mega City One. Eles assumem o papel de policial, júri, juiz e, muitas vezes, executor. Nada de processos, necessidade de provas e apelações. É tudo rápido e direto.  Não à toa, os juízes são figuras bastante temidas nessas metrópoles. Eles são a justiça em supercidades que reúnem pedaços que sobraram dos Estados Unidos após a guerra nuclear de 2070. Na ordem que se seguiu, surgiram novas megalópoles que se estendem por milhares de quilômetros e abrigam centenas de milhões de pessoas. A exemplo de cidades medievais, elas são protegidas do ambiente externo por muros que as separam do deserto radioativo povoado por criaturas disformes. Órfãos dessas cidades são entregues para treinamentos desde cedo, visando aumentar o corpo de juízes – ou, ao menos, repor os falecidos em serviço, o que acontece com grande frequência. Dredd é o nome mais respeitado entre os colegas e um dos personagens ficcionais mais famosos da Inglaterra.

A história simples, fornecida por Alex Garland (de Não Me Abandone Jamais, 2010), foi muito bem aproveitada pelo diretor Pete Travis (de Ponto de Vista, de 2008).  Interessante observar aqui que mesmo essa simplicidade é outro ponto a favor da fidelidade à fonte, já que os quadrinhos do Juiz nunca tiveram tramas muito elaboradas. No novo filme, Dredd é incumbido de acompanhar uma novata em um dia de trabalho para, ao final, avaliá-la e permitir ou não o ingresso dela na força de juízes. Cassandra Anderson (Olivia Thirlby, de A Hora da Escuridão, 2011) não teve ótimas notas nos testes, mas um talento muito raro fará com que tenha uma oportunidade de se provar: ela consegue ler mentes. Para o azar – ou sorte, depende do ponto de vista – de Anderson, a primeira chamada que ela a seu mentor recebem é a respeito de um assassinato triplo no que poderíamos chamar de favela vertical, um conjunto residencial com 200 andares chamado Peach Trees.

O assassinato, no entanto, revela-se resultado de um acerto de contas por disputa de pontos de vendas de uma nova droga chamada Slow-Mo, cujo efeito é fazer seus usuários passarem a ver o mundo com 1% de sua velocidade. Isso faz com que Travis use – e às vezes abuse – de sequências em câmera lenta tornadas mais belas e gráficas pelo 3D, especialmente aquelas nas quais tiros são disparados e sangue é jorrado. O papel de chefão do tráfico cabe a Ma-Ma (Lena Headey, de Game of Thrones) e assim que ela fica ciente de que dois juízes entraram em seu complexo e prenderam um empregado seu, ela convoca seus muitos asseclas para que façam o que for necessário para que a dupla nunca mais saia de lá.

Travis faz com que todos os aspectos técnicos funcionem perfeitamente e o fato de ele ter filmado diretamente em 3D – e não convertido – colabora para isso. É um dos poucos longas em 3D que o efeito realmente traz um diferencial, além do ingresso mais salgado. Outro fator que chama a atenção é o elenco, especialmente Urban e Lena. Só o fato de Urban passar todo o filme com o rosto encoberto pelo capacete do personagem (coisa que Stallone se recusou a fazer em 1995) mostra seu comprometimento com o papel. Sua interpretação é bastante seca e direta, o que também combina bastante com Dredd. A voz, que lembra Clint Eastwood, fica perfeita em frases icônicas como “Eu sou a Lei”. Já Lena é um caso à parte. A atriz (ao lado), que vem se especializando em produções voltadas ao dito “público nerd” (além de Game of Thrones, ela também protagonizou Terminator: The Sarah Connor Chronicles e 300), está bastante convincente no papel da ex-prostituta e traficante de drogas impiedosa. Mesmo sendo baixa e magrinha, ela consegue fazer de sua Ma-Ma uma figura temida.

Dredd não vai – nem pretende – mudar a história do cinema de ação. O roteiro, inclusive, lembra muito o indonésio Operação Invasão (ou The Raid, 2011). Tem aquele clima de filme policial dos anos 70, como a série de Dirty Harry, e visual bem cru. No fim das contas, pode-se dizer que é um filme correto, divertido e que, esperamos, terá uma continuação em breve. E Thomas Jane, fã e intérprete de O Justiceiro (o de 2004), deve estar morrendo de inveja. É algo assim que ele queria ter realizado.

O queixo de Karl Urban caiu muito bem em Dredd

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Longa francês é engraçado e sensível na medida certa

por Marcelo Seabra

No ano em que Jean Dujardin levou os principais prêmios do mundo como melhor ator por O Artista (The Artist, 2011), um escorregou pelas suas mãos: exatamente o César, de sua França natal. Ele não contava com a chegada do pouco conhecido Omar Sy, que estrela Os Intocáveis (Intouchables, 2011) ao lado do veterano François Cluzet (do thriller Não Conte a Ninguém, de 2006). Os dois divertem o público na dose certa e fazem do longa uma ótima experiência.

Cluzet, lembrando demais Robert De Niro (que estrelou um clássico com o mesmo título deste), é um milionário que tem tudo que o dinheiro pode comprar, mas perdeu a esposa e a mobilidade. Tetraplégico, vive com a filha adotiva e os muitos empregados que lhe trazem algum conforto. Ao fazer uma seleção para escolher seu novo cuidador, ele se depara com um jovem irreverente, prepotente e sincero (Sy). O sujeito, que apenas buscava manter um benefício do governo fingindo estar em busca de trabalho, é surpreendido por ser escolhido entre tantos candidatos mais capacitados e supostamente mais confiáveis – mas bem entediantes.

O tema pode parecer dramático demais e, em mãos erradas, teria sido algo deprimente que induziria lágrimas aos mais incautos. Pelo contrário, a história da dupla tem entretido milhões de espectadores pelo mundo e relatos de gargalhadas durante as sessões têm sido comuns. O filme já é o mais visto da história da França, atingiu mais de 23 milhões pessoas fora do país (dados da Unifrance, responsável por promover o cinema francês no mundo), quebrando o recorde de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001). No Brasil, conseguiu 80 mil espectadores em sua primeira semana de exibição.

Escrito pelos também diretores Olivier Nakache e Eric Toledano, o roteiro de Intocáveis é inspirado no livro O Segundo Suspiro, do próprio Phillippe Pozzo di Borgo, o milionário que inspirou o protagonista. Muitas liberdades são tomadas, claro, e não vemos um relato fiel da real relação entre os dois, o que leva a algumas críticas que têm sido feitas. Vemos, na tela, alguns estereótipos que podem causar certo desconforto, como o patrão bonzinho que tem empregados praticamente sem vida pessoal, o negro de maus modos e bom coração e o fato de a diferença entre classes se repetir no gosto musical, confrontando grandes nomes eruditos e clássicos da black music norte-americana. O tratamento na França destinado a imigrantes não chegar a ser uma questão aqui, o que teria levado as coisas a outro rumo. Outra situação que pode ser apontada como problema é a falta de expressão das tramas paralelas, como as que envolvem a filha do rico, em crise no namoro, e o irmão do pobre, que está a um passo de ter sérios problemas com criminosos.

De fato, o coração do filme está na relação entre Phillippe e Driss. Todo o resto não chega a enfraquecer a trama principal, não faz muita diferença. Bom mesmo é ver os dois se conhecendo e interagindo. Cluzet entrega todas as emoções necessárias apenas com o olhar e a fala, fazendo um interessante contraponto à expressividade física de Sy, que impressiona na riqueza de detalhes de sua composição. Como aconteceu com Miss Daisy e seu motorista, um terá muito o que aprender com o outro, nunca caindo no drama fácil, sempre com um charme que conquista o público como poucos.

Omar Sy fez por merecer a atenção dedicada a ele

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Comédia sem graça desperdiça talentos

por Marcelo Seabra

Alguém provavelmente assistiu a Ataque o Prédio (Attack the Block, 2011) e pensou em refazer o longa mudando alguns “detalhes”: ao invés de jovens delinquentes em Londres, por que não colocar uns caras de meia idade numa cidadezinha americana? A ideia é a mesma: há uma invasão alienígena acontecendo e eles devem desbaratá-la. A diferença é que neste (argh!) Vizinhos Imediatos de 3º Grau (vamos chamá-lo de The Watch, de 2012), não há o humor e a ação do outro, apesar do orçamento ser bem mais polpudo e dos nomes conhecidos em frente e atrás das câmeras.

Ben Stiller, repetindo o papel do cara deslocado numa comédia de ação (de Roubo nas Alturas, de 2011, por exemplo), é um sujeito que vive criando clubes para reunir pessoas e ocupar seu tempo. Certo dia, o segurança da loja onde ele trabalha é brutalmente assassinado e ele decide reunir outros moradores daquela pacata comunidade que queiram dar segurança a suas famílias e amigos e resolver o crime. É claro que os voluntários não vão ser cidadãos modelo. Ah, e o personagem tem um draminha bobo que não serve para nada além de tentar dar profundidade a ele.

Para balancear o peso de Stiller na história, aparece Vince Vaughn (de Encontro de Casais, 2009), que vive um pai ciumento que não sabe como lidar com a filha adolescente e prefere se ocupar nessa nova atividade: patrulhar a vizinhança. Juntam-se à dupla o Franklin de Jonah Hill (de Anjos da Lei, 2012), que vive um possível sociopata que vive com a mãe, e um britânico esquisito que pretende usar a patrulha para conhecer mulheres (o comediante Richard Ayoade, da série The IT Crowd). Os quatro começam, então, a concorrer com a polícia nas investigações locais, cruzando o caminho do estúpido Sargento Bressman (Will Forte, do Saturday Night Live – ao lado).

É duro passar cem minutos esperando por piadas e observar que elas até existem, mas não são nem perto de justificar o preço do ingresso, nem pela qualidade, nem pela frequência. Com os amigos Seth Rogen e Evan Goldberg (de Superbad, 2007, e Segurando as Pontas, 2008) tendo reescrito o roteiro de Jared Stern (de Os Pingüins do Papai, 2011), a decepção é grande (não por Stern). O longa não define qual será o seu tom, passando por piadas infantis (alguém falou em pênis?), violência exagerada e situações familiares potencialmente chorosas. Se o roteiro já não ajuda em nada, pior é a direção de Akiva Schaffer (redator do SNL), que se contenta em repetir o que vemos por aí com frequência, como cenas em câmera lenta dos personagens andando, cuja graça já foi explorada à exaustão no cinema, e acredita que linguagem pesada seja engraçada por si só. Dá a impressão que os poucos diálogos mais inspirados devem ter surgido na hora, de improviso.

Nenhum dos envolvidos em The Watch é exatamente brilhante, mas aqui é indiscutível que este seja um mau momento em suas carreiras. O final consegue ser parte previsível e parte descabido, o que é um feito. Negativo, claro. Vários diretores suspeitos passaram pelo projeto, como David Dobkin e Peter Segal, e Will Ferrell chegou a estudar a possibilidade de pegar o papel principal. Nada disso teria ajudado a salvar essa besteira, que até poderia ter funcionado como quadros cômicos isolados no SNL, mas não se sustenta como um longa. O resultado desagrada por mais que as simpáticas figuras em cena sejam velhas conhecidas do público, e não sei qual é o prejuízo maior: se dinheiro ou tempo. Dos dois lados da tela.

Mais uma vez, temos personagens andando em câmera lenta

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ParaNorman não é para crianças!

por Marcelo Seabra

É uma pena que animações ainda tragam aquele estigma ridículo de que sempre seriam destinadas ao público infantil. Com O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, 1993), as animações em stopmotion atingiram um outro patamar, e se seguiram A Noiva Cadáver (Corpse Bride, 2005) e Coraline (2009), para ficar nos principais. O tema mais sombrio foi comum a todos os longas mencionados e agora temos mais um belo exemplo: ParaNorman (2012).

Imagine colocar o garoto de O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) em uma cidade pequena prestes a ser atacada por uma horda de zumbis liderados por uma bruxa de mais de duzentos anos. Basicamente, este é Norman, o garoto que é zombado no colégio por ser considerado diferente, ou esquisito, devido a um talento/maldição: ele vê e fala com os mortos. Seus próprios pais não o entendem, o garoto não consegue ser levado a sério nem em casa. Perto da adolescência e frequentando a escola, Norman não tem folga dos valentões locais, tendo como amigo apenas um outro garoto igualmente sacaneado, este por ser gordinho.

Quando a vida parecia seguir seu caminho normal, Norman é procurado pelo doidão da cidade, um sujeito solitário e mal vestido que comunica ao garoto que ele será o próximo a lutar contra a maldição da bruxa. Norman descobre que não só a história contada na cidade é verdadeira como a bruxa está prestes a acordar, e ele deverá colocá-la para dormir novamente. E, teoricamente, sozinho, já que ele não é um cara muito popular.

Visualmente, a animação é muito rica, os ângulos, cores e desenhos são mais interessantes que qualquer filme de terror feito atualmente. Tarantino e Rodriguez, que se metem a fazer homenagens aos clássicos do horror, poderiam aprender muito com os diretores Chris Butler e Sam Fell, do estúdio Laika Entertainment, também responsável por Coraline. O desenho dos zumbis dos colonos é bem feito e cheio de detalhes, assim como a arquitetura da cidade, que tem um ar gótico e triste, como se a maldição da bruxa deixasse todos em um permanente estado de melancolia.

Como acontece com outros desenhos produzidos recentemente, como a franquia Shrek, há referências curiosas e outros atrativos para o público mais velho, e a jornada de Norman rumo ao mundo adulto deve interessar aos adolescentes (e pré). Mas não é um programa muito adequado para os mais jovens, que poderão ser assombrados pelas imagens de zumbis ou pela simples ideia da morte, que está sempre presente durante a exibição. A abordagem do além-túmulo poderia ter ido mais longe, os temas relacionados poderiam ter sido melhor explorados, mas não deixa de ser uma história simpática com um personagem com o qual o espectador pode se identificar.

Lamentavelmente, é impossível ver uma animação nos cinemas com o áudio original. Se com filmes tidos como adultos já anda complicado, imagine com um desenho! Dessa forma, o público brasileiro não pode conferir o trabalho do jovem Kodi Smit-McPhee (de A Estrada, 2009), que dá voz e personalidade a Norman. Além dele, John Goodman, Leslie Mann, Anna Kendrick, Casey Affleck, Bernard Hill e Christopher Mintz-Plasse também estão no elenco. Muitos podem rejeitar o longa por não poderem apreciá-lo na íntegra, o que é compreensível, e deverão recorrer futuramente ao DVD. Não deixa de ser uma injustiça, mas as distribuidoras criam essa situação e resta ao público buscar saídas.

Duas gerações de paranormais esquisitos se encontram

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