Sexo e violência na nova série do Cinemax

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Banshee

Criada por um grupo de cinco escritores e produtores, que incluem Alan Ball (escritor e produtor das séries A Sete Palmos e True Blood) e Greg Yaitanes (diretor cujo currículo inclui passagens por séries como Damages, Lost e House), Banshee (2013) foi o primeiro investimento do canal a cabo estadunidense Cinemax em um programa original. Com uma grande dose de violência e sexo – há bastante nudez na série e uma crítica chegou a comparar as sequências de sexo com o que se vê em filmes eróticos – Banshee conquistou bons números de audiência, chegando a bater o recorde para o canal e, com apenas três episódios exibidos, foi renovada para uma segunda temporada, que deve chegar à telinha no começo do próximo ano.

A cidade abriga, basicamente, três comunidades distintas: há os habitantes da cidade, que possuem uma prefeitura, corpo de bombeiros, delegacia de polícia – ainda que esta se localize em uma concessionária falida e conte com um carro permanentemente estacionado em sua recepção – hospital e todas as instalações e instituições de uma pequena cidade moderna; há a tribo indígena localizada na periferia da cidade, que atrai turistas na medida em que mantém um cassino funcionando e, finalmente, há os habitantes originais da região, que pertencem aos Amish, grupo religioso originário da Holanda cuja principal característica é manter um estilo de vida estritamente controlado pela religião e que renega qualquer conforto da vida moderna. Os Amish não têm televisão, telefone ou mesmo saneamento básico, o homens não podem se barbear, as mulheres não podem cortar os cabelos, usam roupas de camponeses (os homens usam ternos e chapéus pretos e as mulheres um vestido preto com a cabeça coberta por um capuz branco)  e vivem, na medida do possível, exatamente como os primeiros colonos que ali chegaram por volta dos séculos XVII/XVIII.

Banshee Thomsen

Apesar de transmitir uma aura de tranqüilidade, Banshee, tem seu lado podre, que se manifesta na figura de Kai Proctor (Ulrich Thomsen, de Caça às Bruxas, 2011 – acima), um empresário do ramo da carne que usa da fachada de respeitado empresário para comandar o crime na região, o que inclui, principalmente, extorsão e assassinato. Como acontece em muitos universos ficcionais, a maior parte da população de Banshee, incluindo o promotor Gordon Hopewell (Rus Blackwell, de Curvas da Vida, 2012) sabe das atividades paralelas de Proctor mas, graças ao poder financeiro do “rei do crime” local, nunca consegue que se prove algo contra ele.

A luta de Gordon contra Proctor ganha fôlego quando o xerife local – que se encontra na folha de pagamento de Kai – se aposenta e o prefeito Dan Kendall (Daniel Ross Owens, de séries como Lie to Me e Prison Break) vai contra o costume e importa um xerife de outro estado para assumir a função e, assim, se empenhar em levar Proctor à justiça (nas cidades pequenas dos EUA tanto o xerife quanto o promotor são geralmente eleitos pela população). Um xerife do estado de Oregon, Lucas Hood (Griff Furst, de Lanterna Verde, 2011) é o escolhido para o cargo.

Banshee couplePraticamente ao mesmo tempo que o novo xerife chega à cidade – e antes mesmo de ele se apresentar ao prefeito, já que os dois nunca se viram sequer por fotos – Banshee recebe um outro visitante. Após servir quinze anos na prisão por roubar diamantes de um gângster ucraniano conhecido simplesmente como “Mr. Rabbit”, o ex-condenado cujo nome nunca é revelado (Anthony Starr, de Wish You Were Here, 2012), descobre que sua ex-parceira de crime – e ex-namorada – Anastasia (Ivana Milicevic de 007 – Cassino Royale, 2006) se refugiou em Banshee e ele parte ao encalço dela.

Chegando lá, ele descobre que Anastasia refez sua vida, e agora atende pelo nome de Carrie Hopewell, esposa do promotor local e mãe de dois filhos. Desconsolado, ele se dirige ao bar local. Entre uma e outra dose de uísque, o dono do bar, o ex-boxeador conhecido como Sugar (Frankie Faison, veterano  cujos créditos incluem de As Branquelas a O Silêncio dos Inocentes) recebe a visita de dois dos “empregados” de Proctor, cobrando uma “taxa de proteção” de Sugar. Coincidentemente ou não, tanto o xerife quanto o ex-condenado também estão no recinto e, no conflito que se segue, tanto os dois marginais quanto o xerife morrem. Após se livrarem dos corpos, o ex-condenado, com a ajuda do hacker Job (Hoon Lee, de Perigo por Encomenda, 2012) decide assumir a identidade e o trabalho do xerife.

É preciso comprar a ideia e usar bastante suspensão de descrença, já que é difícil de acreditar que uma pessoa como Lucas Hood, xerife de uma cidade pequena, esteja totalmente fora das redes sociais, a ponto de não ter sequer uma conta de Twitter ou Facebook e nenhuma foto disponível online. Se a série interessou, basta ligar a TV a cabo nos canais Cinemax. Toda hora tem um episódio de Banshee passando, é fácil de conferir.

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Aquele não foi o último exorcismo, este será?

por Marcelo Seabra

Last Exorcism 2

Quando lançado, em 2010, O Último Exorcismo (The Last Exorcism) dividiu a crítica, mas conseguiu um bom resultado financeiro. Para um filme que não gastou nem dois milhões de dólares, ganhar mais de 67 milhões é fantástico. Mesmo dando a impressão clara de ter sido pensado para ser só aquilo e pronto, como o título confirma, uma sequência teria que acontecer. As soluções encontradas foram colocar um Parte 2 na frente, para não ser o segundo último exorcismo, e abandonar o estilo de filmagens encontradas, passando ao convencional.

Last Exorcism 2 NellOs grandes méritos do primeiro filme (como relatado aqui), eram ter um protagonista forte e interessante (o pastor Cotton Marcus de Patrick Fabian) e um clima de suspense e de dúvida, se tudo estaria ocorrendo mesmo ou se seria apenas mais uma fraude. Neste Parte 2 (2013), a mesma Ashley Bell (ao lado) volta como a traumatizada Nell, uma menina bobinha, para quem tudo parece ser novidade. Ela certamente tem um lado bom e um lado escuro e o demônio se apresenta logo de cara. Na introdução, desnecessária, já fica estabelecido o que acontecerá, e algumas cenas do primeiro filme são resumidas no início para ninguém ficar na mão. Não que seja muito necessário contextualizar: a menina passou por um exorcismo, tentam convencê-la de que foi tudo ilusão da cabeça dela, e a família morreu toda, além dos demais envolvidos nas filmagens do episódio anterior. “Mas nada daquilo foi real”, diz o dono da pensão onde ela está hospedada, alguém que parece vagamente ser um psicólogo. “Não sou louca, acredite em mim”, responde a menina. Uau!

Os clichês mais dispensáveis do gênero multiplicam-se, como barulhos e luzes estranhas, visões, vozes alteradas e aparelhos que ligam sozinhos. Já que a menina é branquinha, ruiva e ingênua, não poderia faltar uma menção a Carrie, A Estranha (1976), com facas voando. A metáfora da adolescência ser representada pela possessão vai pro espaço, assim como qualquer profundidade para os personagens, que inexiste. Nell faz caras suspeitas, que dão a entender que há algo errado, e na maioria das vezes não acontece nada. As colegas de pensão são bastante inúteis também, servindo à conveniência da história. Os efeitos de som são ruins, com gritos altíssimos, e as imagens abusam da escuridão, além da câmera ficar tímida quando cenas de violência se aproximam. Se o público alvo é a garotada, a censura não poderia ser alta.

O Último Exorcismo 2 é o tipo de filme que não deveria existir e ainda enfraquece o primeiro, para quem gostou. Toda a complexidade anterior é abandonada e o fraquíssimo roteiro do inexperiente Damien Chazelle e de Ed Gass-Donnelly, também diretor, apela a sustos vazios constantes, tentando movimentar os momentos chatos e cansativos que marcam a produção. Muitos destes sustos seriam causados por fatos que só existem na cabeça de Nell, mas eles relembram o tempo todo que o tal demônio Abalam espreita. Ah, e o demônio pode estar apaixonado, é bom ressaltar. Para o espectador, não há medo ou receio, é questão apenas de sentar e esperar que tudo chegue ao final. Final este que tenta ser descolado, original, mas é previsível e ruim. Só isso. E oremos para que não nasça uma franquia daqui.

"Olha que vídeo legal, nossa colega estava possuída!"

“Olha que vídeo legal, nossa colega estava possuída!”

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Tucker e Dale desafiam os filmes de terror

por Marcelo Seabra

Tucker & DaleAlguns filmes nunca chegam a ter o destaque que merecem. Por falta de fé no desempenho ou de verbas para divulgação, distribuidoras mandam ótimas obras direto para as prateleiras e muita gente fica sem conferir uma pérola como Tucker e Dale Contra o Mal (Tucker and Dale Versus Evil, 2010), ou leva dois anos para conseguir fazê-lo, como é o caso. A falta de um nome de peso torna a aposta em um grande lançamento arriscada, mesmo quando trata-se de uma brincadeira bem humorada e bem sucedida com filmes de terror.

Elencar os clichês de certos gêneros é fácil, basta ser um pouco observador. A série Pânico (Scream) propôs avacalhar longas de suspense e terror e é assinada por um dos pais do filão, Wes Craven, além do roteirista então em ascensão Kevin Williamson. O resultado foi muito dinheiro em caixa e uma franquia de quatro filmes – que já perderam o fôlego há muito tempo, diga-se de passagem. O estreante Eli Craig foi mais longe por entender que, para parodiar, é preciso escrachar logo e não se levar a sério. Os protagonistas, Alan “Tucker” Tudyk (de Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, de 2011) e Tyler “Dale” Labine (de Planeta dos Macacos: A Origem, de 2011), se encaixam muito bem no tipo necessário, o caipira inocente e trapalhão, e tornam as coisas muito divertidas.

Tucker & Dale sceneTucker e Dale são dois trabalhadores humildes que esperam gozar de merecidas férias em uma cabana capenga no meio do mato que acaba de ser comprada por Tucker. Na mesma vizinhança, um grupo de universitários se diverte na casa do lago de um deles. É óbvio que os dois grupos vão ter conflitos, mas não pelos mesmos motivos de sempre, e com consequências hilárias. Mais ou menos parecido com o que fez o recente O Segredo da Cabana (The Cabin in the Woods, 2011), para citar outro caso de transgressão de “regras” de um gênero cinematográfico.

É comum, independente do enfoque, ver no cinema lutas de classes e entre grupos com interesses diferentes. Casos extremos podem ser vistos em Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972) e Sob o Domínio do Mal (Straw Dogs, 1971), ambos sobre moradores de cidades grandes em embates com locais em uma cidadezinha. Para filmes de terror, esse cenário é um prato cheio, apesar do preconceito que dissemina e da tendência a clichês e exageros, como no clássico O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974) e na horrorosa refilmagem Doce Vingança (I Spit on Your Grave, 2010). Tucker e Dale passam por esse problema, mas não são os caipiras usuais que partem para a ignorância. Ao contrário, eles são as vítimas.

A inversão de papéis no criativo roteiro de Craig, que também assina a direção, é o grande diferencial de Tucker e Dale Contra o Mal. Os lugares-comuns de um filme de terror vão aparecer, não da forma esperada, inclusive com muito sangue, mas a violência é exagerada e tratada com humor. Assim, pessoas mais sensíveis não se sentirão mal nas cenas grotescas, pelo contrário: vão dar risadas.

Todo "filme de cabana" tem que ter jovens pro abate

Todo “filme de cabana” tem que ter jovens pro abate

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Fundador da Legião Urbana ganha filme de origem

por Marcelo Seabra

Somos Tão JovensCercado por muita expectativa do grande público, finalmente chega aos cinemas a cinebiografia Somos Tão Jovens (2013), longa que se propõe a apresentar o jovem Renato Russo, antes da fama e da Legião Urbana – daí o título, inspirado nos versos da clássica Tempo Perdido. O destaque da produção, como aconteceu em Cazuza – O Tempo Não Para (2004), é a interpretação do ator principal, Thiago Mendonça, fundamental para o sucesso de público que a obra vem atingindo. As canções de Russo também são um diferencial que tem mobilizado muita gente, e dá para perceber isso quando uns e outros começam a cantar dentro do cinema. Já é a sexta melhor estreia desde a chamada Retomada do Cinema Brasileiro.

Depois de descartar a possibilidade de fazer um documentário sobre a vida do cantor e compositor, o cineasta Antônio Carlos da Fontoura (de Gatão de Meia Idade, 2006), amigo de Russo e da família Manfredini, propôs focar nos anos de formação do artista, aqueles que não são muito conhecidos pela maioria. Trata-se de um “filme de origem”, tão na moda com super-heróis, e ignora os anos finais e tristes da vida de Russo, morto em 1996 em decorrência da AIDS.

Mendonça e RussoA intenção da mãe de Renato, D. Carminha, era ter um filme alegre para lembrar o filho, e não algo deprimente, focado na degeneração física que ele sofreu após contrair o vírus que o levou. Talvez por isso, Fontoura e seu roteirista, o experiente Marcos Bernstein (de Meu Pé de Laranja Lima, 2012), não se prendam aos elementos mais dramáticos daqueles anos de chumbo. A questão da sexualidade, por exemplo, é tratada de leve, assim como a luta contra a ditadura, o uso de álcool e substâncias ilegais e as crises existenciais. A necessidade de emendar citações a músicas de Renato nos diálogos irrita, e muitas delas têm sua gênese explicada, o que soa bem forçado.

Para simplificar, Bernstein usou um recurso comum principalmente na adaptação de livros: mesclar personagens. Ana Cláudia, vivida pela ótima e discreta Laila Zaid, não existiu, é apenas o resumo de várias mulheres que passaram pela vida de Renato. O mesmo acontece com Carlinhos (Antônio Bento), que representa os homens de Renato. No elenco adulto, Marcos Breda e Sandra Corveloni vivem os pais, e passam por momentos engraçados em meio à atitude dos jovens punks de Brasília. Mendonça, que já havia interpretado o cantor sertanejo Luciano em Os Dois Filhos de Francisco (2005), canta e toca de fato, o que traz bastante veracidade ao longa. Suas caras e bocas remetem diretamente a Russo e até as desafinadas ao vivo são legítimas.

Sergio DalcinEntre os jovens, é interessante notar que muitos dos amigos da “turma da colina” ficaram famosos. Não é difícil identificar Dinho Ouro Preto (Capital Inicial), Philippe Seabra (Plebe Rude) e Herbert Viana (Paralamas do Sucesso) em meio aos principais, como os irmãos Lemos e André Pretorius (identificado como Petrus), entre vários outros. A caracterização de Petrus (vivido por Sérgio Dalcin – ao lado) é extremamente exagerada, fugindo do tom dos demais. Edu Moraes, que faz Herbert, tem um trabalho vocal fantástico, parece o original falando.

Em 2011, foi lançado Rock Brasília – A Era de Ouro, documentário que retrata bem a “turma da colina” e as bandas que se originaram da capital do Brasil. Somos Tão Jovens é a versão ficcional, focada em Renato. É impossível explicar tudo e dar início, meio e fim para todos os personagens. Alguns coadjuvantes entram e saem e não entendemos bem a trajetória deles. As anedotas mais populares vão se enfileirando, como a briga entre Renato e Fê Lemos, que termina com um arremesso de baqueta. Dá a sensação de que o roteirista precisa arrumar lugar para todos os fatos listados previamente. Para os interessados naquela cena do rock nacional, não deixa de ser curioso conhecer esses episódios. E fica a esperança de que, logo, assistiremos à parte 2, que bem poderia se chamar Legião Urbana.

A icônica foto da turma de Brasília é refeita

A icônica foto da turma de Brasília é refeita

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Spartacus chega ao fim

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Spartacus War

Depois de três temporadas e meia, Spartacus chega ao fim de maneira bastante satisfatória. A minissérie Spartacus: Gods of the Arena teve apenas seis episódios e funcionou quase como um derivado da série principal, ainda que tenha servido a um propósito: introduzir na trama personagens que mais tarde teriam um papel importante nela, como a figura do gladiador Gannicus (Dustin Clare, da série Satisfaction), apresentado nesta última temporada.

SpartacusDiferentemente da maioria das séries atualmente na TV – se não de todas elas – cada temporada de Spartacus teve um subtítulo que dava uma ideia do conteúdo da trama daquele ano. Assim sendo, Spartacus: Blood and Sand, a primeira temporada, tinha como foco a transformação do escravo sem nome que recebera a alcunha de “Spartacus” em homenagem a um rei de sua terra de origem, a Trácia, em gladiador e sua conseqüente fuga da prisão (nossa resenha dessa temporada pode ser lida aqui). Spartacus: Gods of the Arena, foi uma intertemporada concebida devido ao fato de o protagonista de Blood and Sand (o ator galês Andy Whitfield) lutar contra um câncer que acabou vitimando-o; Spartacus: Vengeance, encontra o trácio (agora vivido por Liam McIntyre, da série The Pacific – acima) em sua busca por vingança contra o homem que o escravizou e fora responsável pela morte de sua esposa, o Pretor Claudius Glaber (Craig Parker, de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres), enquanto seu exército de escravos libertos cresce a cada dia, tendo o escravo liberto Gannicus como uma inesperada adição a ele.

Aviso: se você não assistiu à segunda temporada da série, Spartacus: Vengeance, o texto abaixo pode conter alguns spoilers.

Assim sendo, Spartacus: War of the Damned começa poucos meses após a luta definitiva do protagonista com sua nêmese. Ainda acossados pelas forças romanas, que tentam de todas as formas deter a revolta rebelde que passou à história como a Terceira Guerra Servil (também chamada pelo historiador Plutarco de “Guerra dos Gladiadores), Spartacus e seus generais – os gladiadores Agron (Daniel Feuerriegel), Crixus (Manu Bennet, de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada) e o supracitado Gannicus – têm uma decisão difícil pela frente: encontrar abrigo e alimento para os milhares de escravos fugitivos que compõem seu grupo, sendo muitos deles mulheres, crianças e velhos sem condições de lutar.

Simon MerrellsAo mesmo tempo, o Senado Romano também tem uma decisão difícil a tomar. Com a guerra na Espanha acontecendo simultaneamente à rebelião em terras romanas, os recursos da República para combater a revolta estão cada vez mais escassos. Sem o dinheiro necessário e pressionado pela opinião pública que quer o fim da rebelião, o senado não vê alternativa além de recorrer ao único homem da república rico o suficiente para financiar um exército capaz de derrotar Spartacus: Marcus Crassus (Simon Merrells, de O Lobisomem, 2010 – acima). Crassus vê, aí, a chance pela qual estava esperando para tornar sua ambição – a de se sagrar imperador – verdadeira. Para isso, ele se cerca de aliados nas figuras de seu filho Tiberius (Christian Antidormi) e do jovem e ambicioso – e futuro imperador – Júlio Cesar (Todd Lasance). Desnecessário dizer que as ambições de Tiberius e Cesar para se tornarem o segundo homem mais importante no exército de Crassus logo entrarão em conflito.

Se as coisas nas forças da república andam complicadas, o mesmo pode se dizer do exército rebelde, na medida em que há uma cisão entre seus generais. Crixus quer conduzir uma guerra aberta contra Roma, enquanto Spartacus e Argon preferem encontrar maneiras de fugir da Itália e, saindo da sombra de Roma, tornarem-se realmente livres.

Com dez episódios, Spartacus: War of the Damned tem um desenvolvimento parecido com o visto em temporadas passadas: cenas de violência e sexo intercaladas com sequências com diálogos afiados e conspirações dentro de conspirações sendo tramadas. Enquanto o desfecho de alguns episódios pode ser quase que adivinhado por quem está acompanhando a série desde o princípio, outros trazem viradas inesperadas, o que mantém o apelo. No fim das contas, apesar de todos os seus contratempos – sendo o maior deles a morte do protagonista do primeiro ano –, Spartacus foi uma série bastante consistente e que deixará saudades naqueles que gostam do tipo de história ali apresentada. As primeiras temporadas da série foram veiculadas no Brasil nos canais a cabo FX e Globosat HD. War of the Damned está sendo transmitida via streaming no site Muu. O FX anunciou que transmitirá a temporada final da série, mas ainda não divulgou sua data de estréia.

Liam McIntyre, Dan Feuerriegel, Dustin Clare e Simon Merrells

Liam McIntyre, Dan Feuerriegel, Dustin Clare e Simon Merrells

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Ferrugem e Osso traz um relacionamento real e atual

por Marcelo Seabra

Rust & Bone

De histórias de amor, o Cinema está cheio. De vez em quando, vemos algumas inovações interessantes, que fogem das figuras idealizadas do filme padrão americano. Um bom exemplo é o francês Ferrugem e Osso (De Rouille et D’os, 2012), um drama com um tom bem realista, inclusive tendo a crise econômica da Europa afetando os personagens. O diretor Jacques Audiard, do elogiado Um Profeta (Un Prophète, 2009), realiza mais uma obra forte, moderna e bem feita. E ajuda ter a premiada e linda Marion Cotillard no elenco. Pena que uns poucos sortudos têm a chance de ver o longa, que demorou tanto a chegar ao Brasil e, ainda assim, em pouquíssimas salas.

Baseado em um conto do canadense Craig Davidson, o roteiro de Audiard e Thomas Bidegain, também de O Profeta, nos apresenta a Ali (Matthias Schoenaerts, de A Gangue de Oss, 2011), um pai divorciado que chega à cidade onde mora a irmã para passar uns tempos com ela. Com o garoto indo a uma escolinha próxima, ele consegue arrumar um emprego como segurança de boate e, casualmente, conhece Stéphanie (Marion), uma treinadora de baleias de um parque aquático. Um acidente fará com que os dois se aproximem, sempre de forma bem fluida e natural, sem forçar a barra. Enquanto isso, Ali encontra outras formas para ganhar dinheiro, envolvendo-se com lutas ilegais, e Stéphanie procura adaptar-se à nova vida.

Rust & Bone cenaHá violência e há sexo, elementos que costumam atrair público facilmente. Mas também temos belas histórias sendo contadas, reforçadas por ótimas atuações dos dois protagonistas. Os personagens estão longe de serem perfeitos ou infalíveis, e Marion e Schoenaerts acertam o tom deles. O relacionamento deles tem o melhor e o pior do que vemos por aí. As relações têm se tornado mais superficiais, os parceiros mudam rápido, um envolvimento emocional é cada vez mais difícil. Assim, as coisas andam a passos lentos com Ali e Stéphanie, ora parecendo muitos próximos, ora como estranhos. E ninguém fala nada sobre exclusividade. Tudo muito atual.

Apesar de ter sido lançado fora em maio de 2012, Ferrugem e Osso só chega comercialmente ao Brasil agora, quase um ano depois. Nesse meio tempo, foram vários festivais pelo mundo, incluindo o do Rio. Não foi a toa que Ferrugem e Osso foi indicado a diversos prêmios, principalmente nas categorias Melhor Filme, Diretor e Atriz. Marion, que já ganhou um Oscar por sua versão de Edith Piaf, de 2007, não teve muita oportunidade de mostrar serviço no terceiro Batman de Christopher Nolan, mas tem outros vários papéis que comprovam o seu talento. Ela consegue passar emoções sem fazer esforço, mesmo que esteja impossibilitada de usar todo o corpo, como é o caso aqui. Atores que vivem personagens com deficiências físicas ou doenças acabam ganhando destaque, e Marion aproveita bem a oportunidade. E Schoenaerts acompanha bem, vivendo um brutamontes capaz de gestos de extrema delicadeza. Os dois compõem figuras tridimensionais interessantes de se acompanhar e de se deixar envolver.

O casal apresenta o longa em Cannes

O casal apresenta o longa em Cannes

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Hipnose é a base do suspense de Em Transe

por Marcelo Seabra

Trance

Com trabalhos variados como Extermínio (28 Days Later, 2002), Caiu do Céu (Millions, 2004), Sunshine (2007) e Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008), pelo qual ganhou o Oscar, o diretor Danny Boyle resolveu voltar às origens. A linha seguida no ótimo Cova Rasa (Shallow Grave, 1994) e no já cult Trainspotting (1996) volta a dar as caras no novo Em Transe (Trance, 2013), suspense violento que traz um elenco afiado numa trama que tenta ser mais esperta que o público.

Trance gangUm pouco mais pretensioso do que deveria, o roteiro de Joe Ahearne (da série Da Vinci’s Demons) e John Hodge (em sua quinta colaboração com Boyle) envolve hipnose quando um sujeito precisa se lembrar do que fez com um valioso quadro roubado. A gangue (ao lado) que pretende dividir a fortuna do quadro precisa contratar uma profissional para resolver o problema do amnésico, e o papel deles na história vai mudando à medida que recebemos mais informação. O clichê “nada é o que parece” define bem, e é bom falar o mínimo.

À frente dos atores, James McAvoy (de Conspiração Americana, 2010) tem a presença necessária para segurar as pontas. Mas, sem perceber, ele perde a posição de protagonista para Vincent Cassel (de Cisne Negro, 2010), que por sua vez vê Rosario Dawson (de Fogo Contra Fogo, 2012) facilmente tomar a dianteira. E os três ficam nessa dança os cem minutos de projeção, mostrando um equilíbrio perfeito e a interação que o projeto precisava. Alguns recursos técnicos enriquecem, como mostrar parte da ação em um iPad, e o clima de “filme do Guy Ritchie” ganha uma modernizada. A imagem por vezes dá a impressão que está a um passo de sair do foco, numa metáfora visual inteligente para a mente de Simon.

Trance McAvoyComo Christopher Nolan está em alta, é lugar comum ficar comparando-o com o que quer que seja, e Em Transe não escapou dessa. Há cenas que confundem por utilizar a mente do personagem como cenário, e A Origem (Inception, 2010) é mencionado em algumas críticas. Na verdade, os dois longas se assemelham em um aspecto que pode ser apontado como negativo: sonhos, lembranças, ou a estrutura da mente de uma forma geral, não são tão certinhos, tão lógicos. Se isso, a forma como a hipnoterapeuta lida com o tratamento, chega a ser um defeito, depende da leitura do espectador. Amnésia (Memento, 2001), outro trabalho de Nolan, estaria mais próximo, já que também traz uma pessoa com problemas relacionados a informações perdidas após um trauma na cabeça. Ambos deixam o público perdido em um momento ou outro, mas terminam fazendo sentido. Mas a abordagem aqui é bem diferente do neo noir de Nolan.

Alguns roteiros se julgam tão intricados que, para amarrar as pontas, acabam negando informações já entregues e atropelam a própria lógica que estabeleceram. Isso é chamar o espectador de estúpido, e é um erro que Em Transe não comete (como no recente Chamada de Emergência, 2013). Mas, depois de tantas reviravoltas, o final já não importa muito. Ainda mais quando as soluções são tão simplistas e entregues de bandeja. Se hipnotizadores fossem tão certeiros, com resultados tão bons, a maioria dos problemas psicológicos do mundo estaria resolvida. Apesar dos pesares, trata-se de uma obra bem realizada, que satisfaz na falta de um programa melhor.

Diretor apresenta seu elenco na estreia no Reino Unido

Diretor apresenta seu elenco na estreia no Reino Unido

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Homem de Ferro 3 inicia a Fase Dois da Marvel no Cinema

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Iron Man 3

Exatamente um ano após o lançamento do longa-metragem que reuniu os “Heróis mais poderosos da Terra” na tela grande, a Marvel Studios inicia a “Fase Dois” com Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013), um filme que mostra que toda a empolgação dos fãs com relação aos filmes da Marvel tem seu merecimento. Ao contrário do que poderia se pensar, dado à tonelada de informações e material divulgada na internet ao longo dos últimos meses, não se trata de um filme sombrio, nem tampouco é o Cavaleiro das Trevas do personagem (numa referência à trilogia de Nolan). Muito pelo contrário, a produção tem toda a leveza e ação dos filmes anteriores, com uma pitadinha de drama que faz todo o sentido.

Os Vingadores (2012) encerrou com chave de ouro o que se convencionou chamar de a Primeira Fase das produções da Marvel Studios nos cinemas. O plano do estúdio, de transportar toda a coesão do Universo Marvel dos quadrinhos para a tela grande, teve seu pontapé inicial em 2008, com Homem de Ferro. A ele seguiram-se O Incrível Hulk (2010), Homem de Ferro 2 (2010), Thor (2011), Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) e, claro, Os Vingadores. Todos – à exceção de O Incrível Hulk – conseguiram sucesso de crítica e público.

Tony StarkO terceiro longa do herói começa com um Tony Stark (Robert Downey Jr.) mais recluso do que nunca. Suas empresas estão sendo comandadas por  Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, em um papel mais relevante do que nos filmes anteriores), enquanto Tony passa a maior parte de seus dias e noites enfiado em seu laboratório, criando mais e mais armaduras, desenvolvendo novas tecnologias e tentando lidar com o estresse pós-traumático adquirido após os acontecimentos mostrados em Os Vingadores. Lutar contra alienígenas ao lado de um deus (Thor), uma lenda viva (Capitão América) e uma criatura que é quase uma força da natureza (Hulk) deixa Tony com crises de ansiedade fortes todas as vezes em que os eventos de Nova York são mencionados.

MandarinParalelamente, somos apresentados ao Mandarim (vivido por um afiado Sir Ben Kingsley – ao lado), um terrorista que se considera um professor e cujas ações ele gosta de chamar de “lições educacionais”. Lições essas que envolvem explodir pessoas e matar inocentes. Inicialmente, Tony apenas observa os resultados das “lições” do Mandarim, sem se envolver. Afinal de contas, o combate ao terrorismo é uma função do governo, não de um super-herói. Essa posição de neutralidade, no entanto, é colocada em xeque quando uma das tais “lições” atinge uma pessoa próxima a Stark. A partir daí, clichê dos clichês, a coisa se torna pessoal e o Homem de Ferro se envolverá diretamente na caçada ao terrorista. Dizer mais do que isso estragaria as surpresas que a película reserva.

Um dos grandes diferenciais de Homem de Ferro 3 para seus antecessores está na cadeira de diretor. Depois dos dois longas anteriores, Jon Favreau (que também atua na franquia vivendo o segurança Happy Hogan) deixou o posto, sendo substituído pelo quase desconhecido no Brasil Shane Black, que até então havia dirigido apenas o simpático Beijos e Tiros (Kiss Kiss Bang Bang, 2005), filme também protagonizado por Robert Downey Jr. Black, no entanto, é um roteirista experiente, tendo, dentre seus créditos, participações fundamentais nos roteiros de todos os quatro filmes da franquia Máquina Mortífera (Lethal Weapon). O humor mais acentuado desse episódio deve-se muito a Black, que escreveu o roteiro com Drew Pearce (criador da série No Heroics). No elenco, além dos habituais Don Cheadle e Paul Bettany (como a voz de Jarvis), há Guy Pearce, Rebecca Hall, William Sadler e James Badge Dale.

Com bastante equilíbrio entre as cenas de ação e sem perder as gracinhas características do personagem, Homem de Ferro 3 mantém o nível das produções do Marvel Studios lá em cima e atende – se não supera – as expectativas dos fãs dos quadrinhos. Como já é tradição nos filmes da produtora, pode esperar a ponta de Stan Lee e não saia de sua cadeira antes que todos os créditos tenham subido na tela, ou perderá uma divertida – ainda que não importante – cena escondida.

Iron Man 3

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O caçador rapidamente vira A Caça

por Marcelo Seabra

A Caça poster

É provável que violência sexual contra crianças seja, para muitos, o pior crime imaginável. E o sujeito responsável por algo assim só pode ser a escória da humanidade. O problema é conseguir essa informação da criança em questão, e conseguir elementos suficientes para provar o fato. Esse é o tipo de situação tão detestável que é bem capaz de a população de uma cidadezinha decidir resolver o caso por seus próprios meios. Mesmo sem saber ao certo o que aconteceu, e se aconteceu.

Annika WedderkoppO grande mérito do dinamarquês A Caça (Jagten, 2012), que chega aos cinemas essa semana, é já deixar claro, para o público, o que está havendo. Lucas (Mads Mikkelsen, da série Hannibal) é um pai divorciado, se recuperando do fim do casamento, que parece estar colocando a vida em ordem. Por ser extremamente atencioso com as crianças da creche que cuida, desperta a afeição da pequena Klara (Annika Wedderkopp – acima). “As crianças não mentem”, afirma a responsável pela instituição, e uma mentirinha de Klara toma uma proporção que leva Lucas de volta ao fundo do poço, agora mais fundo. O pai da menina, Theo (Thomas Bo Larsen, de Festa de Família, 1998), é o melhor amigo de Lucas, são colegas de caça, e mesmo assim não demora a crucificá-lo.

Obviamente, há várias técnicas empregadas por especialistas que podem ajudar a fazer a criança se abrir sobre o ocorrido. Uma delas, claro, não é perguntar: “Isso aconteceu? Foi o tio fulano?”. Os adultos teoricamente responsáveis induzem a criança a se afundar na mentira, deixando a verdade cada vez mais longe. E isso aumenta na pequena o medo de uma punição, caso a farsa seja descoberta. Táticas estúpidas como essa acabam com a reputação de um homem. Quanto mais sério é o crime, mais importante se faz a comprovação da infração. Alguém já esqueceu o caso Escola Base?

Mads MikkelsenPersonagens pedófilos não são estranhos ao Cinema. Um caso bem retratado é O Lenhador (The Woodsman, 2004), que acompanha o molestador vivido por Kevin Bacon saindo da cadeia e tentando se recompor. Em Pecados Íntimos (Little Children, 2006), Jackie Earle Haley é um coadjuvante também já condenado e livre, mas continua perseguido pela comunidade. O Lucas de Mikkelsen coloca o espectador numa situação difícil: já sabemos de cara que trata-se de uma grande injustiça, e ter um ótimo ator no papel traz ainda mais veracidade e angústia. Não a toa, Mikkelsen saiu de Cannes com o prêmio de melhor ator. Sua cara de mau natural não se aplica aqui e ele se sai muito bem como um cara normal e decente.

O diretor e roteirista Thomas Vinterberg é sempre lembrado pelo marcante Festa de Família, ainda o maior expoente do movimento Dogma 95. Quinze anos depois (e alguns filmes e clipes), ele volta a ganhar mídia. Em entrevista à revista Preview, ele revela que não gostou de saber que seus trabalhos intermediários foram relegados a um segundo escalão, e que este seria o seu retorno. Mas é inegável que A Caça está a anos luz do que ele andou fazendo – e do que andam fazendo por aí.

Elenco e diretor foram bem recebidos em Cannes

Elenco e diretor foram bem recebidos em Cannes

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Nessa casa a espiada vale a pena

por Marcelo Seabra

Dans la Maison“Alguns filósofos reacionários dizem que haverá uma invasão de bárbaros. Os bárbaros já estão em nossas salas”. É mais ou menos isso que diz o professor Germain (Fabrice Luchini, de Potiche, 2010) a respeito de seus alunos. Uma redação sobre o cotidiano é entregue com apenas duas ou três frases, e a língua francesa é constantemente assassinada. Por isso, é tamanha a surpresa dele ao ler o texto de Claude Garcia (Ernst Umhauer), que denuncia um grande talento para contar histórias. É daí que parte Dentro da Casa (Dans la Maison, 2012), produção francesa que chega aos cinemas nacionais essa semana.

O diretor François Ozon, de longas como Swimming Pool (2003), 8 Mulheres (2002) e Potiche, adapta uma peça de Juan Mayorga que mistura assuntos intrigantes como obsessão e privacidade e as dualidades entre arte e literatura, realidade e ficção. Pelo fato de ser um filme francês, é interessante perceber que as referências usadas pelo professor não são os habituais Dickens, Hemingway ou Poe, mas Flaubert e La Fontaine. Germain é um sujeito extremamente erudito, mas frustrado por não fazer parte da turma de escritores que idolatra. Claude pode ser uma espécie de projeto pessoal, a projeção do sucesso editorial que nunca teve.

Ernst UmhauerO problema é o assunto que interessa a Claude (ao lado): a vida de uma família burguesa normal, os Rapha. Rapha filho (Bastien Ughetto) é seu colega na escola e precisa de ajuda com a matemática. Dessa forma, ele consegue entrar na casa e conhecer Rapha pai (Denis Ménochet, de Bastardos Inglórios, 2009) e Esther (Emmanuelle Seigner, de Piaf, 2007), a bela mãe que exerce sobre ele um fascínio perigoso. Germain e sua esposa (Kristin Scott Thomas, de Bel Ami, 2012) viram leitores assíduos de Claude, num misto de curiosidade e reprovação. O texto é bastante irônico, crítico, até maldoso, revelando em Claude uma faceta de Tom Ripley, personagem de Patricia Highsmith que empregava seu talento de observação para o mal.

O jovem Umhauer é quase um estreante no cinema, com apenas O Monge (Le Moine, 2011) no currículo, e já convence. Seu Claude é misterioso, curioso e manipulador, levando o incauto Germain a atitudes impensadas. Sua escrita é tão envolvente que o limite entre ficção e realidade fica enevoado e ficamos à mercê do escritor de primeira viagem. Professores sabem como é bom ter um aluno que se dedica à lição, e Germain se torna um cúmplice, e um personagem. Para o espectador, não é diferente: acompanhamos um roteiro que segue as convenções ditadas por seu protagonista e somos levados junto para dentro da casa dos Rapha. O final, claro, não poderia ser outro, mesmo sendo surpreendente, como recomenda o mestre.

"E isso seria arte?"

“E isso seria arte?”

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