Truque de Mestre engana e diverte na mesma medida

por Marcelo Seabra

Now You See Me banner

Reunir um grupo de ilusionistas para praticar assaltos é uma premissa tão interessante que já deveria ter sido filmada. Quando se tem um elenco bacana, então, se torna ainda mais atraente conferir o resultado. Filmes que colocam truques de mágica no cerne de sua trama têm por obrigação revelar seus segredos para o público e mostrar que não se trata de enganação, mas de engenhosidade. É aí que separamos, por exemplo, o ótimo O Grande Truque (The Prestige, 2006) do decepcionante O Ilusionista (The Illusionist, 2006). E também é aí que derrapa o novo Truque de Mestre (Now You See Me, 2013), em cartaz nos cinemas brasileiros. Mas as várias outras qualidades tentam equilibrar as coisas.

Com roteiro escrito a seis mãos – Ed Solomon, (de Homens de Preto, 1997), Boaz Yakin (de Príncipe da Pérsia, 2010) e o estreante Edward Ricourt – e um diretor habituado ao gênero ação – Louis Leterrier, de dois Carga Explosiva (2002 e 2005) –, era de se esperar algo mais confuso e descerebrado. No entanto, tudo começa muito bem, com uma fantástica sequência de apresentação de cada um dos quatro mágicos que se tornarão “Os Quatro Cavaleiros”, responsáveis por um show conjunto num cassino de Las Vegas. J. Daniel Atlas (Jesse Eisenberg, de Para Roma, Com Amor, 2012), Henley Reeves (Isla Fisher, de O Grande Gatsby, 2013), Jack Wilder (Dave Franco, de Anjos da Lei, 2012) e Merritt McKinney (Woody Harrelson, de Jogos Vorazes, 2012) foram reunidos misteriosamente e realizam uma série de apresentações que têm um objetivo desconhecido.

Now You See Me scene

Logo de cara, os Cavaleiros fazem uma mágica, com a ajuda de um espectador, que se mostra realmente um roubo a um banco francês. O agente do FBI Dylan Rhodes (Mark Ruffalo, o Hulk de Os Vingadores, 2012) e a agente da Interpol Alma Dray (Mélanie Laurent, de Bastardos Inglórios, 2009) se unem para tentar prender o grupo, o que fica difícil pela falta de provas. Eles buscam ajuda com o ex-mágico Thaddeus Bradley (Morgan Freeman, de Oblivion, 2013), que se ocupa de revelar os segredos por trás dos truques. Michael Caine (da trilogia Batman) fecha o ótimo elenco principal como o milionário que banca o quarteto. Uma boa escolha para cada papel ajuda muito a colocar o longa no caminho certo, e este é o principal mérito de Truque de Mestre.

À medida que a projeção vai se aproximando do final, as coisas se tornam mais frenéticas e pontos importantes da trama começam a ficar no ar. Muito do plano dos protagonistas depende de mágicas não explicadas e mirabolantes, o que começa a deixar uma pulga atrás da orelha. Tudo estava muito divertido, mas passa a ser inacreditável, o que derruba o pacto que o longa firmou com o público. Explica-se uma coisa aqui para deixar outras três ali sem a menor pista. Este é o tipo de filme que perde força quando se olha para trás, após a sessão, e os furos começam a ficar mais óbvios. Não deixa de ser um bom passatempo, mas não pense muito a respeito.

Os Quatro Cavaleiros: Eisenberg, Fisher, Harrelson e Franco

Os Quatro Cavaleiros: Eisenberg, Fisher, Harrelson e Franco

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Universidade Monstros traz os jovens Mike e Sulley

por Marcelo Seabra

Monsters University banner

A vida na universidade é um tema extremamente explorado no Cinema, principalmente no americano. Em qualquer gênero, sendo comédia e terror os mais freqüentes, as questões desenvolvidas são sempre as mesmas: diferenças, aceitação, bullying, superação, competição, amadurecimento. Ao pensarem no que poderiam fazer para aproveitarem o sucesso de Monstros S.A. (Monsters, Inc.), de 2001, os criativos da Pixar concluíram que uma solução seria uma pré-continuação, mostrando como os protagonistas se conheceram durante seus anos de formação. Mais de uma década depois, sai Universidade Monstros (Monsters University, 2013), uma animação nada inovadora que deve agradar às crianças, e só.

O universo criado no primeiro filme dá liberdade para os mágicos da Pixar criarem os mais variados monstros, muitos deles bastante simpáticos e coloridos, e encaixá-los nas tribos que geralmente podem ser encontradas em uma universidade. Até o hippie que fica no gramado tocando violão aparece. Não faltam atletas, mocinhas, nerds, desajustados, góticos e todos os tipos de adolescentes que pudermos pensar. Claro que cada um com suas características marcantes, já que não estamos falando de humanos. É na Universidade Monstros que o futuro deles é definido, pelas habilidades demonstradas dentro das funções que eles têm.

Monsters University monsters

O curso mais disputado é o Assustador, que formará monstros aptos a assustarem crianças humanas. O susto gera a energia que mantém o mundo deles funcionando. Quem não consegue assustar vai para um trabalho mais burocrático, como criar as portas usadas entre os mundos ou cuidar dos cilindros que armazenam os sustos. É para o curso de Assustador que se matricula Michael “Mike” Wazowski, um monstrinho verde que desde pequeno sonha em assustar crianças e trabalhar ao lado de seus ídolos. É para lá que vai também James “Sulley” Sullivan, um grandão de família nobre com talento natural para assustar, ao contrário do colega. Com cada um assumindo um estereótipo do mundo colegial, o talentoso e o esforçado, eles não poderiam mesmo ser amigos.

O clichê dos clichês fará com que aqueles dois seres de bom coração, mas muito diferentes um do outro, se aproximem: uma competição. Eles são expulsos do tão almejado curso e têm, como última esperança, um concurso de sustos que poderá reabilitá-los. A cada prova, um time é desclassificado e já sabemos onde isso vai dar. Carros (Cars, 2006), outro trabalho menor do estúdio, trazia à mente imediatamente Doc Hollywood (1991), aquela despretensiosa comédia com Michael J. Fox sobre um médico sabichão que era obrigado a ficar numa cidade pequena. Em Universidade Monstros, várias produções podem ter servido como inspiração, de A Vingança dos Nerds (Revenge of the Nerds, 1984) a A Casa das Coelhinhas (The House Bunny, 2008). No visual, não dá para esquecer dos Muppets – o Art, por exemplo, parece uma mistura do Animal com o Zed, de Loucademia de Polícia (Police Academy, 1984).

À frente da equipe de pobres coitados, Mike deve fazer com que todos superem suas limitações para ganharem a disputa e terem de volta a vaga no curso. E, de quebra, darem uma lição na fraternidade dos atletas valentões. Sobram lições de moral e discursos motivacionais, mas falta graça. Para uma animação que se pretende uma comédia, esse é um pecado capital. Seria uma influência negativa da Disney? Os cenários criados são ótimos, muito criativos e condizentes, e há até um trecho no final que faz uma homenagem a filmes de terror – muito adequada, tendo em vista a natureza dos personagens. Mas rir é algo que não acontece. Como, mesmo assim, já são mais de 150 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, esperemos por mais produções com Mike e Sulley.

Essa é a turma de Mike

Essa é a turma de Mike

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Brad Pitt combate zumbis na Guerra Mundial Z

por Marcelo Seabra

World War Z

Uns dizem que é uma história sobre Brad Pitt e zumbis. Outros, que era uma bomba anunciada devido aos problemas durante a produção. E ainda há um trailer com cenas mal escolhidas, que não dá vontade de conferir o longa. Estes são alguns dos obstáculos que Guerra Mundial Z (World War Z, 2013) enfrentou sem ao menos ter estreado, e são também exemplos dos riscos que correm aqueles que dão um parecer sobre um filme antes de assisti-lo. Para a surpresa de muitos, trata-se de uma obra interessante e bem feita, ao contrário de muita coisa que essa moda de zumbis originou.

Em Contágio (Contagion, 2011), vimos uma doença se espalhando em velocidade impressionante e derrubando cidadãos do mundo inteiro. Imagine essas pessoas se tornando, em torno de 12 segundos, zumbis acelerados e audaciosos como em Extermínio (28 Days Later, 2002). As cenas com multidões de zumbis lembram os ataques de Eu, Robô (I, Robot, 2004), muito bem orquestradas e com fartura de corpos para todos os lados. Como não poderia deixar de ser numa obra dessa natureza, há críticas a aspectos da sociedade, como o fato de as autoridades terem sido avisadas dos primeiros acontecimentos e terem ignorado, o que acontece mais vezes do que deveria.

World War Z Set

Brad Pitt, sem precisar fazer muito esforço, vive Gerry Lane, um ex-agente das Nações Unidas que se retirou do trabalho após algum tipo de trauma e vive tranqüilo com a esposa (Mireille Enos, de The Killing) e filhas. Num belo dia, como outro qualquer, eles são surpreendidos na rua por pessoas agindo como loucos e Lane presencia uma transformação, após uma contaminação por mordida. Daí em diante, o ritmo da ação se intensifica e o roteiro foca no problema, sem se preocupar em dar muita profundidade aos personagens. O passado não vem ao caso, o agora é o que importa. Essa opção se mostra acertada por dar um ritmo ágil ao longa e explorar bem o assunto, com Lane viajando pelo mundo em busca de respostas.

Pitt, também produtor do longa, conseguiu comprar os direitos do livro de Max Brooks em 2007 e trouxe uma escolha inusitada para a direção. Marc Foster chamou a atenção com A Última Ceia (Monster’s Ball, 2001), seguindo com bons dramas como Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, 2004) e Mais Estranho que a Ficção (Stranger Than Fiction, 2006). Em 2008, ele comandou James Bond em Quantum of Solace (2008), dando uma guinada nos projetos que habitualmente assumia. Por que não, então, zumbis? Para adaptar o livro já tido como cult, foi chamado J. Michael Straczynski (de A Troca, 2008). Com o desenvolvimento de novas versões do roteiro, Foster acabou partindo para Redenção (Machine Gun Preacher, 2011), e voltou para pré-produção em abril de 2011. Depois de negociações, o orçamento foi fechado em US$ 125 milhões.

Depois que Damon Lindelof e Drew Goddard (ambos de Lost) reescreveram passagens, foi necessário fazer novas filmagens e o orçamento bateu a casa de US$ 190 milhões. Com tantos problemas, críticos previam um prejuízo grande, mas Guerra Mundial Z já está chegando a US$ 80 milhões de bilheteria, metade do custo, só nos Estados Unidos. Uma sequência já foi aprovada pela Paramount e Foster chegou a prever uma trilogia. Se a qualidade for mantida, eu não me importaria de acompanhar a parte 2.

Cena assustadora e bem feita

Cena assustadora e bem feita

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A expectativa por O Homem de Aço

por Marcelo Seabra

Man of Steel

Com a aproximação da estreia do novo longa do Homem de Aço, marcada no Brasil para 12 de julho (um mês de atraso em relação aos EUA), um misto de ansiedade e receio toma conta. Não deveria, mas como evitar? Sabemos que quanto mais expectativa um projeto cria, maior é a possibilidade de seu público se frustrar. É inevitável que algo dessa magnitude seja cercado de especulações, medos e, acima de tudo, esperança. Afinal, foi o filme de 1978 que abriu as portas para essa enxurrada de adaptações de histórias em quadrinhos que temos hoje, ou que ao menos permitiu aos grandes estúdios vislumbrarem o potencial deste tipo de personagem.

Superman 78Os problemas que marcaram a produção de 78 já fazem parte do anedotário do Cinema. Várias trocas de roteiristas e diretores, uma grande indecisão com relação ao protagonista, se seria alguém já estabelecido ou um novato, a dificuldade de criar os efeitos visuais necessários etc. A escolha de Christopher Reeve se mostrou fundamental. O carisma do ator era enorme, além da competência ao viver dois indivíduos distintos: o poderoso e indestrutível salvador da humanidade e o jornalista boboca que está sempre sendo deixado para trás. O sucesso foi tanto que marcou Reeve, que não ficou famoso por nenhum outro trabalho, e acabou repetindo o papel até o vergonhoso Superman IV (1987), que ele alegou ter aceitado devido ao importante tema da paz.

Apesar do que havia sido planejado inicialmente, o primeiro Superman não seguiu a linha camp, ou brega. Richard Donner, ao assumir a direção, descartou tudo e convocou Tom Mankiewicz para reescrever o roteiro, bolando logo a trama para dois filmes. Quando estava com 75% do segundo filmado, Donner parou o processo e finalizou o primeiro, quando foi demitido pelo produtor Alexander Salkind. O segundo foi finalizado por Richard Lester, que assinou a direção e cometeu ainda o terceiro filme. A diferença entre o que Lester e Donner fizeram é clara. O segundo filme começa com uma introdução muito original e inventiva que situa o espectador que não havia assistido ao primeiro, algo que é comum hoje em sequências. O terceiro, no entanto, recorre a uma série de trapalhadas e confusões, num estilo pastelão na contramão dos episódios anteriores. Contratar Richard Pryor para um papel importante já era um indicador de que as coisas iam para o espaço.

Superman III fight

Há situações, nesse terceiro, que chegam ao ridículo. A luta entre Clark e Superman, que parece ter ficado bêbado e mau com uma kriptonita estragada, é de dar pena. Só não é pior pela dignidade conferida por Reeve, que em momento algum deixa de se levar a sério. Ele tem a oportunidade de viver alguém cafajeste e maligno e se sai bem. Isso, até Clark ter o terno derretido pelo mesmo ácido que nem molha o uniforme do herói, que está sempre intacto. No segundo filme, é possível ver sangue em várias cenas, como na interessante briga no bar. Mas a briga se conclui com uma idiota cadeira giratória. E Lois convenientemente esquece tudo que sabia com um beijo. Uma boa proposta do terceiro é colocar Lana Lang no caminho de Clark, mostrando que há mais mulheres no mundo além de Lois. E, ao contrário da jornalista, Lana se apaixona por Clark, e não pelo Superman. Mas, ao final, ela simplesmente é deixada de lado.

No quarto filme, temos novamente o mala Luthor bolando planos igualmente malas. Ele chega ao ponto de criar um “Homem Nuclear”, um dos piores vilões da história do Cinema. Depois de um salto de quase vinte anos (de 1987 para 2006), necessário para apagar esse constrangimento, tivemos uma nova aventura do Super-Homem no Cinema. Outra decepção! A escolha de Bryan Singer como diretor parecia promissora, e Brandon Routh poderia ter sido outro Christopher Reeve – ele foi escolhido inclusive por sua semelhança física com o falecido. Pena que suas qualidades vinham no singular. Mais para modelo que para ator, Routh ainda foi prejudicado por um roteiro ridículo, novamente trazendo Luthor como um vilão cômico planejando ficar rico com terrenos valorizados. A Lois de Kate Bosworth não ajudou em nada, de tão inexpressiva, e ainda arrumaram um impossível superfilho.

Com um início tão brilhante, com acertos que fazem qualquer falha sumir, a carreira do Super-Homem merecia um futuro melhor. A balança já conta três a dois no quesito qualidade e este novo Homem de Aço representaria um empate, o início de uma reerguida. Algumas críticas já divulgadas lá fora não são muito animadoras, indicando fatores negativos como religiosidade forçada, falta de leveza e desmedida influência do efeito “Cavaleiro das Trevas”, o que era totalmente desnecessário para um personagem que representa o oposto de Batman. Independente das evidências, a criança interior continuará torcendo pelo herói, até ser tarde demais.

Depois do segundo filme, o General Zod volta a aparecer em O Homem de Aço

Depois do segundo filme, o General Zod volta a aparecer em O Homem de Aço

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Daniel de Oliveira é o rei da Boca do Lixo

por Marcelo Seabra

Boca internationalHiroito de Moraes Joanides (1936-1992), enquanto enfrentava uma longa pena na cadeia, decidiu contar sua história e justificar seus crimes. Por isso, escreveu um livro contando tudo o que fez para merecer o título de Rei da Boca do Lixo, zona boêmia paulistana que concentrava intelectuais, beberrões, prostitutas e diversos tipos de criminosos. Esse livro serviu de inspiração para o roteiro escrito por Flávio Frederico e Mariana Pamplona que daria origem a Boca (2010), longa já exibido em mostras, festivais e sessões pingadas que só agora chega às locadoras. O título original foi alterado para evitar confusões com o chamado “cinema marginal”, conhecido como Boca do Lixo.

Como os anos de atuação de Hiroito se restringiram às décadas de 50, 60 e 70, seu nome não é dos mais famosos hoje. Logo, seria necessária uma maior contextualização sobre o personagem. Não é isso que temos no longa, também dirigido por Flávio Frederico. Muitas informações são abordadas de raspão e outras são apenas dadas como notórias. Os saltos no tempo do roteiro não ajudam, o público fica boiando em diversos momentos da exibição. Em um, por exemplo, o personagem simplesmente sai da cadeia, apesar das várias acusações que enfrenta, e somos obrigados a deduzir que ele comprou a força policial local.

Vivendo o protagonista, Daniel de Oliveira tenta fazer o possível com o que lhe é dado e se resume a usar maneirismos para mostrar o quanto é mau, apesar do tipo magro. Seu Hiroito é um personagem falho, o roteiro usa subterfúgios óbvios para estabelecer verdades, como mostrar o sujeito lendo um livro para mostrar que ele era culto. Uma vez tendo provado o ponto, o texto não vê necessidade de voltar naquele aspecto, parecendo ter muito a mostrar em pouco tempo. Pode ter sido uma escolha de Frederico, para evitar um tom episódico, ou até uma restrição de orçamento, mas o longa acaba cheio de buracos.

Boca

Oliveira já mostrou competência em diversos trabalhos, e muitos não esquecem seu Cazuza (de 2004). Ele só está precisando ler melhor os roteiros que topa fazer, para evitar confusões como 400 Contra 1 (2010) ou esse Boca. Hermila Guedes, de Assalto ao Banco Central (2011), interpreta a esposa de Hiroito, uma prostituta por quem o chefão cai de amores e que nunca define se é parceira do marido no crime ou se prefere que ele saia daquela vida. Ela é mostrada em cenas que reforçam ambas as situações. Milhem Cortaz, dos dois Tropa de Elite e de Assalto, é sempre um ator interessante, mas seu personagem aparece quando é conveniente para o filme, e nunca chega a ser menos que raso. Esse, inclusive, é o problema de todos que cercam o Hiroito cinematográfico, como o traficante concorrente vivido por Jefferson Brasil ou o policial corrupto de Paulo César Peréio. Leandra Leal, então, entra e sai pela mesma porta.

Após ler um pouco sobre a história do Rei da Boca, constatamos que realmente se trata de uma figura rica, que poderia ter sido bem explorada pelo cinema. Ele veio de uma família de recursos, tinha uma relação complicada com o pai, que foi brutalmente assassinado, e ele ainda foi acusado do crime. Passou a morar na zona que frequentava e montou um bordel que o faria crescer na região. Diz-se que sua ficha criminal corrida tinha mais de 20 metros. Elementos suficientes para se ter um novo Scarface, ou algo assim, mas não foi desta vez. Apesar de uma fotografia competente, um clima noir muito apropriado e uma boa direção de Frederico, que opta por pular certas passagens desnecessárias e óbvias que causariam pouco ou nenhum efeito sobre o público, Boca peca pela falta de um (anti)herói bem delimitado, que criasse um mínimo de identificação com o espectador, que poderia até entender a lógica de suas ações. Para que isso aconteça, é melhor buscar o livro do verdadeiro Hiroito.

Leandra Leal: "O que vim fazer aqui mesmo?"

Leandra Leal: “O que vim fazer aqui mesmo?”

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A Dona Hermínia do Teatro chega ao Cinema

por Marcelo Seabra

Minha Mãe Peça

Correndo por fora dessa cena atual da comédia nacional, Paulo Gustavo se revela uma boa surpresa – ao menos para o grande público, que não o conhecia. O ator vem fazendo sucesso nos programas que cria e em que atua para o Multishow, além de seguir pelo Brasil com suas apresentações e de aparecer esporadicamente em programas da TV aberta. Depois de muita captação de recursos, ele finalmente conseguiu levar aos cinemas Minha Mãe É uma Peça – O Filme (2013), a adaptação para as telas de sua longeva peça de teatro.

Paulo GustavoComo se tratava de uma comédia de uma personagem só, o texto teve que ser trabalhado para apresentar os personagens que antes eram só mencionados. Paulo Gustavo (ao lado) teve que dividir a cena com outros atores nem tão inspirados, vivendo figuras menos trabalhadas e com menor potencial de humor. Dona Hermínia, claro, rouba a cena, mesmo se mostrando mal humorada, intolerante e até maldosa, como podemos perceber pelos comentários que faz sobre a filha – a maioria na presença da jovem gordinha. Ah, cabe uma explicação para os desavisados: Paulo Gustavo é a Dona Hermínia.

Claramente inspirada pela mãe do criador do texto, e ela ainda aparece no final, a protagonista é uma dona de casa que se preocupa mais do que o suficiente com os filhos, que a vêem como uma chata que os sufoca. O único filho bonzinho é o casado, que mora longe. O pai, uma participação especial de Herson Capri, é o bacana que só aparece nos fins de semana para levar os rebentos ao clube, ao lado da nova esposa, a nojenta vivida por Ingrid Guimarães. Um desentendimento faz Dona Hermínia deixar os dois em casa, por conta própria, e vai pra casa de uma tia (Suely Franco), onde se refugia, mas não deixa de ter vontade de ligar para os pimpolhos. Eles, a esta altura, já estão esfomeados.

Paulo Gustavo, que roteiriza o filme ao lado de Felipe “Fil” Braz, segura as pontas muito bem. Ele consegue manter o nível na maior parte das vezes e cria ótimos diálogos para Dona Hermínia, que usa uma ironia ferina para criticar tudo e todos, não vendo – claro – seus próprios exageros. A proximidade com a tia é a oportunidade que ela procurava para desabafar, e os casos contados reproduzem o esquema de esquetes usado no teatro, amarrando diversas situações sem ligação alguma, a não ser por envolverem os mesmos personagens e terem graça. A maior parte, pelo menos. Muitas das alfinetadas são do tipo que as pessoas têm vontade de falar, mas as amarras sociais (ou o bom senso) impedem. Dona Hermínia, como a Madea do americano Tyler Perry, parece ser uma força da natureza, que passa revolucionando tudo pelo caminho. Um pouco como a minha mãe, e talvez como a sua.

Família reunida!

Família reunida!

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Colin Firth arma Um Golpe Perfeito

por Marcelo Seabra

Gambit

Os anos 60 e 70 se mostram uma fonte inesgotável para refilmagens. Infelizmente, desnecessárias, já que os originais geralmente se mostram superiores – às vezes, por uma diferença pequena, já que não são muita coisa também. Michael Caine, por exemplo, trocou de papéis em Um Jogo de Vida e Morte (Sleuth, 2007), já que em Jogo Mortal (Sleuth, 1972) vivia o jovem amante, e não o esposo mais velho. Jude Law, que fez par com ele, já pegou a atualização de outro de seus papéis, o famoso Alfie de Como Conquistar as Mulheres (1966).  Um Golpe à Italiana (The Italian Job, 1969) e Carter – O Vingador (1971) são mais produções da carreira de Caine que voltaram à vida, e agora é a vez de Como Possuir Lissu (Gambit, 1966), que virou o recente Um Golpe Perfeito (Gambit, 2012), em cartaz nos cinemas. Os títulos originais costumam se repetir, mas o pessoal no Brasil é criativo.

A história original, de Sidney Carroll, foi mudada o suficiente para os produtores não considerarem o produto uma refilmagem. No entanto, nomes e algumas falas inteiras são mantidos, e o esquema é o mesmo: enganar um milionário para conseguir uma bolada de dólares envolvendo arte. A dinâmica dos personagens é a mesma: um sujeito bolou o golpe, com a ajuda de um mentor; há um milionário colecionador de obras para ser enganado, mas ele não é tão bobo quanto parece; e uma mulher perspicaz se envolve para colocar tudo em prática. A grande diferença é que os novos roteiristas, ninguém menos que os irmãos Ethan e Joel Coen, resolveram fazer uma comédia de ação, e se esqueceram que o material tinha que ter graça. Mais ou menos o que fizeram com outra refilmagem, Matadores de Velhinha (The Ladykillers, 2004), que também fracassou feio.

Gambit couple

No papel principal, Colin Firth, que atualmente se prepara para mais um Bridget Jones, consegue manter sua dignidade até andando de cuecas. No entanto, faltam-lhe o charme e a frieza de Caine, que fazia um Harry Dean ameaçador, e não um fracassado certificado. Sua pobreza poderia ser engraçada, mas as situações são repetitivas e pouco inspiradas. Completando o elenco, Cameron Diaz (O Que Esperar Quando Você Está Esperando, 2012) e Alan Rickman (o Professor Snape de Harry Potter) fazem o que podem, e é pouco, já que o roteiro não permite nada além de exagero e piadinhas infames. Stanley Tucci (de Sem Proteção, 2012) está bastante caricato e Cloris Leachman (de Espanglês, 2004) nem precisava ter saído de casa, tão rápida é a participação dela.

Um Golpe Perfeito nunca define seu tom e fica devendo algum momento brilhante, por menor que seja. Trata-se de uma ideia que deveria funcionar muito bem no papel, para vender o projeto e atrair bons nomes, mas a execução é falha. O bissexto Michael Hoffman (de Um Dia Especial, 1996) se mostra um diretor genérico, que não contribui com elemento algum com o filme. Nada chama a atenção ou deixa qualquer tipo de impressão. Com tantos roteiros rodando por Hollywood, tantos bons livros lançados, por que essa fixação em buscar inspiração no passado? O próprio Michael Caine já afirmou ser uma bobagem essa mania de refilmagens, pouco antes de aparecer em Um Jogo de Vida e Morte e comprovar uma contradição. Vamos aguardar com palpites para qual será o próximo trabalho do ator a ganhar nova roupagem.

Michael Caine, em 1966, queria roubar Lissu

Michael Caine, em 1966, queria roubar Lissu

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Leonardo Da Vinci é o mais novo detetive da TV

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Da Vincis DemonsNascido em Vinci, Toscana, Itália, em 15 de maio de 1452, Leonardo di ser Piero da Vinci, ou, simplesmente, Leonardo da Vinci foi um dos maiores gênios da humanidade. Uma das mentes responsáveis por liderar a revolução progressista – especialmente no ramo das artes – que viria a ser conhecida como “Renascimento”, Leonardo se destacou em praticamente todas as áreas do conhecimento. Foi um célebre pintor, escultor, arquiteto, músico, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, geólogo, cartógrafo, botânico e escritor. E, agora, na nova série do Starz – mesmo canal responsável por produções como Spartacus e Pilares da Terra – Leonardo revela-se um grande adepto da lógica ao ser apresentado como uma espécie de detetive medieval, ainda que seus talentos sejam, em sua maioria, usados em prol de si mesmo.

Da Vinci’s Demons se passa em Florença, Itália, no último quarto do século XVI, período conturbado na história italiana, na medida em que a cidade-estado se encontra em uma guerra fria com o Vaticano que, logo, se torna um conflito aberto. Inicialmente alheio a esse Da Vincis Demons Rileyconflito, Leonardo (Tom Riley, de Loucos por Ela, 2007 – ao lado) se preocupa em tornar suas invenções – como uma geringonça que faria o homem voar auxiliado por uma carroça (imagine uma pipa gigante e um homem amarrado a ela) – realidade. Para isso, conta com o auxílio de Nico (Eros Vlahos, de Game of Thrones) e Zoroastro (Gregg Chillin). Ao mesmo tempo, ele prepara uma pomba voadora mecânica para o governante da cidade, Giluino Medici (Tom Bateman), para que alce vôo durante as comemorações da páscoa, uma festa que mais se assemelha ao carnaval do que qualquer coisa. Ao tomar ciência do clima político na cidade, Da Vinci passa a usar seu contato direto com os Médici, família que controla Florença, para tentar lhes vender armas – ainda a serem construídas por ele – que lhes dêem vantagens no conflito inevitável que se avizinha.

Paralelamente, uma história mais pessoal se desenvolve. Inquieto a ponto de ter que usar ópio e vinho para desacelerar seu cérebro e conseguir pensar claramente, Leonardo acaba trombando com um turco em uma taverna. Essa pessoa é procurada pela Inquisição, o que desperta sua curiosidade. Logo, o turco revela a ele que a mãe de Leonardo – que o abandonara quando criança – faz parte de uma sociedade secreta que busca o lendário “Livro das Folhas”, um compêndio que conteria toda a história secreta do mundo, provando que muito do que era tido como fatos seriam, na realidade, mentiras para enganar o povo. O tal livro também é procurado pelo Papa Sexto IV (James Faulkner, de X-Men: Primeira Classe, 2011), que designa para tal o chefe dos Arquivos Secretos do Vaticano, Girolamo Riario (Blake Ritson, de Rock ‘n’ Rolla, 2008). Desnecessário dizer que conspirações dentro de conspirações, como na maioria das produções do gênero, permeiam a série, que tem até mesmo sua femme-fatale na figura de Lucrezia Donati (Laura Haddock, de Capitão América: O Primeiro Vingador, 2011 – abaixo). Leonardo, obviamente, vai se emaranhar nela em sua busca pelo que considera ser a verdade do mundo.

Da Vincis Demons Haddock

Da Vinci’s Demons é criação de David S. Goyer, um dos produtores e escritores com o currículo mais instável de Hollywood. Afinal, ao mesmo tempo em que escreveu filmes sensacionais como a trilogia Batman ao lado de Cristopher Nolan, (e reutiliza algumas das ideias apresentadas ali para construir o passado de Leonardo), ele também foi o responsável por cometer Motoqueiro Fantasma: O Espírito da Vingança. Após uma temporada de apenas oito episódios, sua nova empreitada ainda não se decidiu se é uma série mais leve ou se algo mais sombrio e intrincado, no estilo de Arquivo X. Uma coisa, no entanto, fica clara desde o começo e é mais explorada nos últimos capítulos da temporada, que é a introdução de elementos místicos e mesmo sobrenaturais, propiciando encontros inusitados entre Da Vinci e figuras importantes que lhe eram contemporâneas e, até onde se sabe, nunca interagiram com Leonardo. Essa influência do sobrenatural traz atrativos a mais para a trama, que adiciona um pouco ao tema recorrente de “conspirações dentro de conspirações”.

Um outro atrativo da série é o protagonista, que Riley interpreta como uma espécie de Tony Stark medieval, ora exibindo traços de sua genialidade, ora comportando-se como uma criança petulante. Se Goyer vai conseguir definir uma direção para a sua série – que, é bom enfatizar, é totalmente fantasiosa no que diz respeito à História – só o tempo dirá. Tempo que ele terá, pois Da Vinci’s Demons já teve sua segunda temporada confirmada. A série foi exibida no Brasil às terças-feiras às 23h no canal a cabo Fox. A primeira temporada começará a ser reprisada no mesmo canal e horário a partir do dia 18. Já a segunda temporada deve ir ao ar em 2014, sem data definida até agora.

David S. Goyer apresenta seu elenco

David S. Goyer apresenta seu elenco

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Bom elenco é a atração de filme morno

por Marcelo Seabra

The Oranges

Um elenco de atores normalmente relegados a segundo plano, todos muito competentes, ganha pelo fato de não ter uma estrela buscando mais atenção que os colegas. É isto o que acontece em A Filha do Meu Melhor Amigo (The Oranges, 2011), título nacional ordinário para a dramédia que finalmente chega ao Brasil, depois de dois anos na geladeira. O diretor Julian Farino vem de séries de TV como Entourage e Como Vencer na América e reuniu atores atualmente mais lembrados por séries também, mas que estão sempre lá e cá.

Os personagens principais são dois casais de velhos amigos, daqueles que passam juntos todos os feriados. Hugh Laurie (o Dr. House) e Catherine Keener (de Confiar, 2010) são os Wallings; Oliver Platt (de X-Men: Primeira Classe, 2011) e Allison Janney (de Histórias Cruzadas, 2011), que trabalharam em The Big C e The West Wing, são os Ostroffs. Tudo corre bem na vida dos casais até que a filha sumida dos Ostroffs (Leighton Meester, de Gossip Girl) resolve aparecer em casa. A volta de Nina é o catalizador da separação dos Wallings, que já não estavam muito bem, e David se vê caído pela menina.

Como ninguém é apresentado como vítima ou como vilão, há um equilíbrio interessante. Todos têm uma parcela de culpa ou responsabilidade no que está acontecendo, nos relacionamentos ameaçados. Os filhos dos Wallings não ajudam em nada: Vanessa (Alia Shawkat, de Arrested Development) tem medo de correr atrás de seus sonhos e vive em seu mundinho, enquanto Toby (Adam Brody, de The O.C.) mora fora e é sempre o último a saber de tudo. Para complicar, Toby e Nina têm um caso adolescente mal resolvido e Vanessa nutre um ressentimento por Nina, que era sua amiga e a deixou para andar com as garotas populares.

The Oranges couple

Lembrando um pouco (de relance) o ótimo Beleza Americana (American Beauty, 1999), The Oranges traz personagens problemáticos, em crise ou os dois. Hugh Laurie volta a encontrar Leighton Meester, com quem fez dois episódios de House em 2006, e um dos problemas do longa é a falta de química entre eles, que deveriam ser um casal ardente e não convencem (acima). Os problemas mostrados são situações corriqueiras que todos enfrentam (ou podem enfrentar) no dia a dia, nada muito digno de nota. O relacionamento entre duas pessoas tão diferentes vem para sacudir aquela rotina, que realmente precisava ser balançada, mas sabemos que logo voltará à normalidade.

Os roteiristas de primeira viagem, Jay Reiss e Ian Helfer, deixam tudo muito certinho, com as soluções a dois minutos à frente na projeção. Tudo se encaixa, o final é óbvio e morno, como todo o resto. Os atores envolvidos, único fator digno de nota, mereciam mais que apenas “o filme bonitinho da semana”. A graça é vê-los trabalharem e não esperar muito além disso.

E, para piorar, as meninas não se entendem

E, para piorar, as meninas não se entendem

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Ator e diretor afundam juntos com Depois da Terra

por Marcelo Seabra

After Earth

Juntar dois egos inflados em um mesmo filme facilmente daria algo bem ruim. Ainda mais quando se trata de M. Night Shyamalan, um diretor que misteriosamente ainda consegue trabalho em Hollywood depois das bombas que andou entregando, e Will Smith, astro que passou anos se dedicando a outros assuntos, não faz nada de relevante no Cinema há algum tempo e parece mais dedicado à carreira dos filhos. Não à toa, carregou o jovem Jaden Smith para Depois da Terra (After Earth, 2013), projeto claramente desenvolvido para garantir a Jaden um status similar ao que o pai atingiu. Ao menos, esse parece ter sido o plano.

Shyamalan já foi aquele cineasta promissor que todos iriam acompanhar, que ganhou fama com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) e seguiu com o igualmente ótimo Corpo Fechado (Unbreakable, 2000). Seus trabalhos seguintes, Sinais (Signs, 2002) e A Vila (The Village, 2004), dividiram opiniões, mas têm qualidades óbvias. A carreira começou a descer o barranco com o descabido A Dama na Água (Lady in the Water, 2006), uma fábula ridícula que colocou Paul Giamatti em uma enrascada. Fim dos Tempos (The Happening, 2008) e O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010) não merecem mais palavras, e o caminho parecia claro para Shyamalan: aposentar as chuteiras. Mesmo com estes fracassos, ele ainda era visto como um autor, alguém com uma visão própria, ímpar. Agora, a impressão é de que ele se tornou um mero executor que vai onde o dinheiro está.

After Earth Japanese PremiereO outro grande nome envolvido é o de Will Smith, que um belo dia teve a ideia de fazer um filme sobre pai e filho que passam por um acidente de carro e o filho precisar salvar os dois. Depois de pensar mais a respeito, Smith avançou a trama mil anos no futuro, mas o foco era o mesmo: a relação entre as gerações e o amadurecimento do adolescente. Ele contratou Gary Whitta (de O Livro de Eli, 2010) para escrever a primeira versão do roteiro e foi atrás de Shyamalan, com quem ele planejava trabalhar há anos. Seria a oportunidade de repetir o feito de À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, 2006), que uniu os dois Smiths. Estava armada a cilada, como pode-se comprovar agora nos cinemas. O que acaba repetindo é o feito de John Travolta, que levou sua amada cientologia aos cinemas em 2000 com A Reconquista (Battlefield Earth) e virou piada.

Quando a projeção começa, conhecemos Kitai Raige (Jaden), um jovem militar que busca crescer na hierarquia para impressionar o pai, o General Cypher Raige (Will), o herói que fez os humanos ganharem a guerra contra uma raça alienígena que pretendia dizimá-los. Cypher volta para a casa depois de uma longa missão, apenas para emendar outra em seguida, mais curta. A esposa (Sophie Okonedo, de A Vida Secreta das Abelhas, 2008) sugere que ele leve o filho na missão, para passarem um tempo juntos. Acontece um problema incompreensível qualquer e a nave faz um pouso de emergência em terreno hostil, nada menos que a Terra, imprópria para humanos respirarem e infestada por plantas e animais predatórios. Curiosamente, o pai fica ferido e todos os demais morrem, deixando o filho responsável por salvá-los. Ele deve achar a parte traseira da nave, que contém um dispositivo que chamará socorro.

After Earth scene

Independente da época em que se passa, trata-se da velha história de sobrevivência, somando-se aí a urgência de Kitai se tornar o guerreiro que existe apenas em sua imaginação. O general não tem muita fé no garoto, mas não tem opção e envia-o, fornecendo uma lança poderosa e suprimento de oxigênio, e os dois mantêm contato por um comunicador que tem até câmera. Tudo sob medida para que Smith e Shyamalan atinjam o resultado que buscam. O roteiro traz saídas tão convenientes que até beira o absurdo. Um exemplo é a tal criatura chamada de ursa, uma besta enorme e violenta que trucida humanos, mas é cega e encontra suas vítimas farejando o medo delas. Não tinha como ser pior.

Com um argumento mal feito e nada de emoção, a obra não consegue criar um mínimo de empatia com o público. Will segue sempre no mesmo tom de voz e completamente sem expressão, confundindo autoridade com tédio. Jaden faz o que mandam, já que seu personagem irritante e imaturo tem uma trajetória pré-fabricada a percorrer, praticamente como em um videogame. Um fiapo de trama que acredita se sustentar por 100 minutos, Depois da Terra não chega a ser ruim como os últimos trabalhos de Shyamalan, mas está longe de ser minimamente razoável.

Gasta-se uma fortuna para nada

Gasta-se uma fortuna para nada

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