
Bugonia – Indicado a 4 Oscars (Filme, Trilha Sonora Original, Atriz Principal e Roteiro Adaptado)
A nova parceria entre o diretor Yorgos Lanthimos e sua musa Emma Stone é mais estranha que a média, com uma pitada de comentário social. Há, não só nos Estados Unidos, muitas pessoas que acreditam em teorias malucas e vivem como se elas fossem influenciar suas vidas. Uma dessas sandices é de que há uma raça alienígena entre nós, em cargos e posições importantes, e é nisso que aposta o personagem do ótimo Jesse Plemons (de Tipos de Gentileza, 2024, de Lanthimos). Ele sequestra uma CEO (Stone) de uma empresa rica para evitar que a raça dela destrua a Terra.
Os diálogos são afiados e os duelos travados entre Stone e Plemons são divertidos, deixando de fundo a crítica a esses malucos que acreditam que estrelas de Hollywood bebem sangue para se manterem jovens, Elvis está vivo numa fazenda e assim por diante. Todo um cenário interessante montado ao longo do filme é jogado fora por um roteiro preguiçoso, que escolhe uma saída fácil e burra. Na busca por mostrar o quanto é diferentão, Lanthimos passou da conta e errou o alvo.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You) – Indicado a 1 Oscar (Atriz Principal)
Linda tem uma filha cuja doença nunca fica clara, mas sabemos que demanda muito da mãe. O apartamento da família teve uma infiltração, abriu-se um buraco e ela não consegue resolver as coisas com o senhorio. O marido tem um emprego que o mantém longe por longos períodos, o que o impede de ajudar. E a relação com seu psicólogo é complicada, já que os dois trabalham juntos, o que os faz participar da vida um do outro mais do que deveriam.
O filme busca colocar o público no mesmo ponto de vista da protagonista, o que dá um nervoso danado. E a ótima atuação de Rose Byrne, vencedora em Berlim, é a cereja do bolo, mostrando Linda como uma pessoa normal, crível, por quem logo criamos empatia. A diretora e roteirista Mary Bronstein levou 17 anos para ocupar as funções novamente, desde seu promissor Yeast (2008), e devemos torcer para que não demore tanto a atacar novamente.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet – Indicado a 8 Oscars (incluindo Filme, Direção, Atriz e Roteiro Adaptado)
Em março de 2020, quando o mundo parava frente à pandemia de COVID-19, chegava às livrarias o livro de Maggie O’Farrell que requentava um mito antigo: o de que Shakespeare teria escrito seu Hamlet inspirado pela morte de seu filho, Hamnet, vitimado pela peste bubônica. É bom esclarecer que trata-se de uma ficção, a começar da suposição de que o bardo inglês escreveria histórias com bases autobiográficas – sem mencionar os aspectos espirituais/fantasiosos da trama. Mas deve-se reforçar que o filme que adapta esse livro é de fato muito bem realizado e conta com duas atuações grandiosas, com Jesse Buckley e Paul Mescal vivendo o casal Shakespeare.
Quando o longa começa, conhecemos as duas famílias e acompanhamos os filhos, Agnes e William, se apaixonarem e constituírem seu próprio núcleo. Enquanto Agnes, retratada quase como uma bruxa (boa), prefere viver na natureza do campo, Shakespeare sabe que sua vida está onde o público está, e se divide entre sua casa e a cidade. O filme não é bem sobre o que acontece, mas o como. Muitos fatos já são conhecidos, outros são supostos ou deliberadamente inventados pelo roteiro, assinado por O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, mas tudo se encaixa de forma satisfatória e deve arrancar umas boas lágrimas.

Valor Sentimental (Affeksjonsverdi) – Indicado a 9 Oscars (incluindo Filme, Filme Internacional, Direção e Atriz Principal)
Um pai idoso, desses gênios difíceis que a arte tanto conhece e representa, reencontra as filhas no velório da ex-mulher e tem a chance de se reaproximar pela arte. Vencedor do Grande Prêmio em Cannes e ovacionado por espantosos 15 minutos, o longa de Joachim Trier o revela um diretor e roteirista (com Eskil Vogt) maduro, que sabe como tratar de temas espinhosos sem melodrama e sem apontar dedos. Evitando excessos para os dois lados, Trier conseguiu um raro equilíbrio, e não a toa vem sendo lembrado em festivais mundo afora.
A ótima Renate Reinsve, descoberta por todos no fantástico agridoce A Pior Pessoa do Mundo (2021, também de Trier), faz a filha atriz do famoso diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgard). Enquanto ela segue fazendo peças prestigiadas de teatro, ele busca seu novo trabalho, que poderia reerguer sua carreira. As várias camadas vão sendo reveladas e descobrimos que relações familiares não são preto no branco: as zonas cinzas ocupam muitos espaços. Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning também estão muito bem, completando as quatro atuações indicadas pela Academia.

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois – Indicado a 1 Oscar (Atriz Principal)
É muito interessante visitar o submundo americano dos imitadores de cantores, aqueles que ganham a vida em circuitos de restaurantes e cassinos homenageando seus ídolos, vestindo-se e cantando como eles. Michael Imperioli, por exemplo, faz um Buddy Holly excelente. É nesse cenário que conhecemos Mike “Lightning” Sardina (Hugh Jackman), um sujeito que sabe que não é compositor, muito menos um sex symbol, mas gosta de entreter as pessoas cantando. Cansado de atender demandas como astros com os quais ele não se identifica, ele parte para um projeto novo, um tributo a Neil Diamond, cantor tão castigado no cinema que milagrosamente liberou o uso de suas músicas. O acompanha a também cantora e tecladista Claire “Thunder” Sardina (Kate Hudson), uma fã antiga com quem ele recentemente se casou.
Sempre uma figura simpática, Jackman convence como o artista de segunda linha (ou terceira) que busca seus sonhos, de preferência sem ter que abaixar a cabeça para ninguém. Por alguma razão, todos gostavam dele e davam novas chances, mesmo quando ele tinha seus estrelismos. Hudson rouba a cena como a outra metade do casal, mostrando ainda ter suas fichas fora das comédias românticas bobinhas. Craig Brewer, diretor e roteirista (ao lado de Greg Khos), era a pessoa certa para o projeto, tendo trabalhado em diversos videoclipes e outros filmes com temática musical, como Ritmo de Um Sonho (2005).


