Repescagem 2025: Blue Moon

Ambientado em um recorte histórico bem delimitado, Blue Moon (2025) aposta na reconstrução de personalidades e ambientes de época com grande apuro técnico, como se estivesse interessado em preservar uma certa memória cultural, mostrando exatamente como as coisas aconteceram. O problema é que essa fidelidade formal, enquanto os minutos passam, cobra seu preço, fazendo parecer um cansativo teatro filmado.

Blue Moon é um drama centrado em um encontro entre figuras do meio cultural norte-americano dos anos 1930. O protagonista é o compositor e letrista Lorenz Hart, habitual parceiro de Richard Rodgers, que foi seu protegido. O filme acompanha uma noite específica, a do lançamento da peça Oklahoma!, marcada por conversas, tensões e acertos de contas. Hart se vê confrontado pelo avanço do tempo, pela transformação da indústria do entretenimento e pela percepção de que seu espaço está se estreitando, já que ninguém mais aguenta seus excessos. Oklahoma! foi escrita por Rodgers e Oscar Hammerstein e Hart se ressente de ter sido deixado de lado.

Ethan Hawke surpreende fazendo esse papel no mesmo ano em que lançou O Telefone Preto 2 (The Black Phone 2, 2025), mostrando sua versatilidade. Ele sustenta o filme com uma interpretação segura, consciente do tom que a obra exige. Seu personagem é construído menos por grandes arcos dramáticos e mais por inflexões de voz, pausas calculadas e uma presença que domina a cena. Hawke entende que Blue Moon depende de ritmo interno e domínio da fala, e entrega exatamente isso: um trabalho técnico, preciso, que nunca descamba para o excesso. É uma atuação que mantém o filme em pé mesmo quando ele ameaça se repetir. Ajuda estar em sua oitava parceria com o diretor Richard Linklater, da “trilogia do Antes”.

A narrativa se constrói quase toda a partir do embate verbal entre os personagens, sendo os principais, além de Hart: Richard Rodgers (Andrew Scott, de Vivo ou Morto, 2025), Elizabeth Weiland (Margaret Qualley, de A Substância, 2024) e o barman Eddie (Bobby Cannavale, de MaXXXine, 2024), que sabe que não deve, mas continua servindo o alcóolatra Hart. Os diálogos, criados a partir de cartas entre Hart e Weiland, exploram as relações profissionais desgastadas, vaidades, dependências emocionais e a dificuldade de lidar com a própria obsolescência. Mais do que contar uma história de ascensão ou queda, o filme observa um artista em crise, preso entre o passado que o consagrou e um futuro que já não parece lhe pertencer. É menos um retrato biográfico tradicional e mais um estudo de caráter sobre ego, criação e esgotamento.

O problema é que o filme parece confiar demais nessas trocas entre os atores. A ausência de variação visual e rítmica transforma a agilidade dos diálogos em um exercício de resistência. O que no início soa estimulante, aos poucos se torna cansativo, não por falta de qualidade, mas por saturação. Falta ar, falta deslocamento, falta uma dinâmica que vá além da palavra.

Blue Moon termina como um filme correto, bem interpretado e formalmente coerente, mas também exaustivo. É um trabalho que se contenta em permanecer num único registro até o fim. Em seu trabalho anterior, Assassino por Acaso (2023), Linklater conseguiu um ótimo equilíbrio entre comédia, ação e romance, o que não repetiu aqui. Ao optar por filmar o teatro sem traduzi-lo plenamente para o cinema, o diretor entrega bons momentos isolados, mas deixa a sensação de que poderia ter ido além se tivesse ousado sair um pouco do palco.

Linklater levou seu elenco a Berlim para o lançamento

Sobre Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.
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