Spencer vai fundo na mente de Lady Diana de Gales

Logo de cara, entendemos duas coisas sobre a família real inglesa: a vida deles é regida por uma série de regras e costumes; para quem já nasceu nesse meio, pode até ser mais fácil aceitar isso tudo, mas para quem chega é bem difícil. E o mundo inteiro deve achar um sonho conseguir a façanha de entrar nesse universo. Dito isso, Spencer (2021) mostra um outro lado, diferente do que estamos acostumados a ver. A protagonista, Diana Spencer, não está exatamente vivendo um conto de fadas sendo a Princesa de Gales.

Já vimos fatos relacionados à vida de Lady Di em diversos documentários e até no oscarizado A Rainha (The Queen, 2006). Com ela no centro de uma produção ficcional, é a primeira vez. O roteirista Steven Knight, criador da série Peaky Blinders, parece gostar de imaginar o que se passava no entorno de fatos tornados públicos. No que diz respeito a Diana, sabemos que ela estava insatisfeita com seu casamento e acabou chegando ao divórcio. Mas não conhecemos os detalhes dos últimos dias dela como uma mulher casada, e é o que Knight nos proporciona.

Para filmar um texto tão intimista e elaborado, só um cineasta igualmente sensível daria conta. A missão coube ao chileno Pablo Larraín, que já havia se debruçado sobre a vida de outra esposa célebre em Jackie (2016), mais uma vez investigando o que se passaria na cabeça de uma pessoa passando por um período difícil e, ainda assim, sob o escrutínio público. Larraín e Knight devem ter ideias em comum e esta parceria deu muito certo. O diretor dá vida às palavras do roteirista com uma produção rica, cenários e figurinos que não só funcionam muito bem, mas também lembram os reais, que apareciam frequentemente na televisão.

Para interpretar Diana, era preciso alguém extremamente competente. Afinal, o longa está mais preocupado com os pensamentos dela, com seu estado mental, o que é complicado mostrar em frente às câmeras. A tarefa foi muito bem executada por Kristen Stewart, que há muito deixou para trás a fama adquirida pela franquia Crepúsculo (Twilight) e já mostrou seu valor em filmes como Seberg Contra Todos (2019) e Personal Shopper (2016). Com uma notável semelhança física, a atriz procura interpretar a princesa, e não imitá-la. É nos movimentos mais delicados, como uma inclinação da cabeça, que ela se aproxima mais de sua biografada.

Mesmo com um bom elenco de apoio, do qual se destacam os sempre competentes Sean Harris (da franquia Missão: Impossível) e Timothy Spall (de Negação, 2016), o foco está todo em Stewart, que carrega o longa sem esforço. Para Diana, perseguida pela mídia e vivendo num casamento fracassado, o fardo era mais pesado. Larraín e Knight nos dão uma boa ideia de como deveria ser. Nesse sentido, Spencer é um filme pesado, que acompanha a protagonista em um momento terrível. Se existisse, uma sequência a ele talvez fosse mais leve, mostrando o peso do qual Diana se livrou ao se divorciar. No entanto, quem conhece a história sabe que mesmo essa felicidade não duraria.

Larraín e Stewart foram ao Festival de Veneza lançar o longa

Sobre Marcelo Seabra

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM | Instagram - @opipoqueiroseabra
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