Democracia em Vertigem revisita nossa triste história recente

por Marcelo Seabra

O Brasil passou por tantos percalços políticos nos últimos tempos que era comum ver brincadeiras em redes sociais lamentando a árdua tarefa de professores de História, que teriam que explicar tudo isso para seus alunos. A diretora Petra Costa deu uma grande ajuda nesse sentido, recapitulando os fatos mais importantes e montando o quadro geral. Democracia em Vertigem (2019) é uma obra pessoal, sob o ponto de vista de Petra, e por isso não pode ser descrita como isenta. Mas é extremamente emocional e vai ecoar fundo em parte da população.

O documentário, já disponível na Netflix, começa durante o governo de Dilma Roussef, mostrando um Brasil próspero, herdado de Luís Inácio Lula da Silva. Algumas decisões questionáveis fazem a economia dar algumas derrapadas e a popularidade da primeira presidenta do país cai. É a oportunidade que a oposição precisava para buscar algum elemento e alegar irregularidades. Mas era preciso alguém para articular um golpe a prova de falhas. Um deputado aliado que vira a casaca é a figura ideal – quando Eduardo Cunha entra em cena.

Todos os momentos inacreditáveis que vivemos, com seus personagens e falas marcantes, estão lá. E o melhor: sem nenhuma deturpação canalha, como acontece na série “ficcional” O Mecanismo (2018). O que Temer, Aécio e Jucá disseram saiu de fato das bocas deles. A importância de Sérgio Moro para a atual situação política também fica muito clara, sendo o juiz parcial que os vazamentos do site The Intercept mais do que confirmaram, caso alguém ainda tivesse alguma dúvida. E, correndo por fora, aparece um coadjuvante que mais parece um alívio cômico, se o roteirista tivesse uma mente muito deturpada. Infelizmente, trata-se da realidade e o personagem viria a se eleger o presidente da nação.

É ao mesmo tempo estranho ver retratado nas telas um momento tão recente e público da nossa história, já que vemos muitos documentários tratando de fatos antigos ou distantes, e triste, com a nossa jovem democracia se esvaindo entre nossos dedos. Por se tratar de uma obra com alto teor político, muitos vão se desagradar. Mas em momento algum ela é tendenciosa: o que vemos nas telas são fatos. Inclusive, com críticas aos dois lados, direita e esquerda. As interpretações que vão de cada um. O material cedido por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, enriquece bastante o longa, somando-se às filmagens de Petra.

Como contou em entrevista à revista Carta Capital, Petra buscava de seus entrevistados uma autocrítica, como ela mesma faz. Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus projetos geralmente são bem pessoais, como seu filme mais famoso, Elena (2012), em que Petra mergulha nas memórias da irmã que viu pela última vez aos sete anos. Em Democracia em Vertigem não foi diferente: a narração da própria diretora e roteirista entrega seus questionamentos e suas verdades, que caem por terra. Concordando-se ou não com ela, acompanhá-la durante esse processo é muito válido.

Petra Costa viu seu filme ser considerado um dos mais importantes de 2019 pelo New York Times

Sobre Marcelo Seabra

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM | Instagram - @opipoqueiroseabra
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