Steven Soderbergh encara a Presença de um fantasma

 

Sempre apontado como referência quando se fala sobre cinema americano independente, o diretor Steven Soderbergh não para quieto, inventando formas de inovar. Seu último trabalho, no entanto, é novidade apenas em sua carreira: um filme de fantasma, o que o título já entrega. Presença (Presence, 2024) inclusive não é um título muito original, já que há vários que usam essa mesma palavra, e passa longe do terror, como poderia se supor, ficando mais no drama sobrenatural.

O longa começa com uma corretora imobiliária mostrando uma casa vazia para um casal e eles logo se animam. No momento seguinte, já acompanhamos a mudança e logo temos uma casa devidamente mobiliada e uma família se acostumando ao novo lar. Lucy Liu (uma das Panteras dos anos 2000) é a mãe e Chris Sullivan (o Toby de This Is Us) é o pai, com um casal de filhos. Callina Liang (de Foundation) faz a filha sensível e triste, enquanto o novato Eddy Maday interpreta um tipo atleta canalha, e os irmãos dificilmente se entendem.

Montado o cenário inicial, começamos a perceber algo de diferente ocorrendo. Ou estaria apenas na cabeça da jovem Chloe? Soderbergh brinca com a “presença da presença”, insinuando sem mostrar, apenas passeando com a câmera por onde o suposto fantasma estaria. Nada muito gráfico, nem perto de assustador, explorando as partes da casa e criando um clima de apreensão. Sem fantasmas, o diretor já conseguiu criar mais suspense em filmes como Traffic (2000) e Kimi (2022), este também com roteiro de David Koepp.

Falando no roteirista, Koepp escreveu Ecos do Além (Stir of Echoes, 1999), adaptação de uma história de Richard Matheson que rapidamente vem à cabeça ao final da sessão de Presença. A influência de um no outro é clara e terem o mesmo roteirista não é mera coincidência. Soderbergh, no entanto, prefere focar nos personagens, e não nas descobertas do passado, como no outro filme, e nos conduz calmamente a um final interessante e bem construído.

Os pais, bem diferentes um do outro, são bem interpretados por Liu e Sullivan, cada um com um filho preferido e tentando não dar na cara. Cabe a Liang a maior parte do trabalho e ela segura a peteca, fazendo uma adolescente bastante crível. Maday, em seu primeiro papel, é convincente e completa um quadro interessante, que conta ainda com a boa adição de West Mulholland (de Pequenos Incêndios Por Toda Parte).

Sullivan e Liu são os rostos reconhecíveis do elenco

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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