Repescagem 2025: Springsteen: Salve-me do Desconhecido

Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me From Nowhere, 2025) é um filme que se recusa a funcionar no ritmo que se espera de uma cinebiografia musical. Em vez da ascensão fulminante, dos conflitos espetacularizados e do desfile de sucessos, o longa aposta num ritmo lento, na repetição e em uma sensação constante de deslocamento. É um filme sobre um artista famoso, mas pouco interessado na fama e no distanciamento que ele julga que virá. O centro aqui é o processo e, sobretudo, o desconforto que ele produz.

A narrativa, baseada no livro de Warren Zanes, acompanha um recorte específico da carreira de Bruce Springsteen, mas evita transformá-lo em mito. O que vemos é um sujeito assustado com a proporção que seu trabalho tomou. Seus primeiros dois discos não atingiram grande sucesso comercial, o que começou no terceiro e atingiu um pico no quinto, The River. O longa parte do final da turnê de promoção desse disco, quando ele volta para casa e começa a trabalhar no que seria seu próximo disco. Os executivos da gravadora esperam aproveitar aquele momento de alta para faturar, mas Bruce pensa diferente. Em suas reflexões, relembra a infância e o relacionamento complicado com o pai (Stephen Graham), o que impacta as novas composições.

O ritmo deliberadamente arrastado não é um defeito, mas uma estratégia: o filme cria um tempo morto que espelha o estado mental do personagem, preso entre a necessidade de seguir em frente e a incapacidade de se reconhecer onde está. O estranhamento nasce justamente dessa recusa em acelerar. Springsteen compra um gravador e produz em casa, sozinho, o que seriam esboços de suas novas canções, apenas para mostrar para a banda e acelerar as sessões no estúdio. Ele conhece e se interessa por uma mulher (Odessa Young), mas sempre a mantém à distância. É curioso apontar que a mulher, Faye, foi inventada pelo (geralmente fraco) roteirista e diretor Scott Cooper, reforçando a visão depressiva que temos do protagonista. 

É nesse espaço de suspensão que a relação entre Springsteen e seu empresário e produtor, Jon Landau (acima), ganha peso dramático. O filme trata esse vínculo menos como parceria profissional e mais como um pacto ambíguo, marcado por uma confiança que beira a fé. As conversas entre os dois raramente são diretas; o que importa está sempre no subtexto, nas concessões silenciosas e nos limites que não sabemos bem onde começam ou terminam. O empresário não surge como vilão nem como mentor iluminado, mas como alguém que também opera no escuro, tentando administrar um talento que não se deixa organizar com facilidade. Tanto Springsteen quanto Landau tiveram papel ativo como consultores na obra, mas afirmam não terem mexido em nada.

Jeremy Allen White, o astro da série The Bear, sustenta o filme com uma atuação que evita a caricatura e a imitação. Até porque ele não se parece fisicamente com o cantor. Ele não tenta “virar” Springsteen, e sim captar uma postura, um modo de ocupar o espaço, uma inquietação permanente. Seu Bruce é fechado, pouco comunicativo, muitas vezes opaco. Aí mora uma armadilha: pode-se julgar o personagem chato, cansativo, características que facilmente se transferem ao filme. White trabalha com contenção, deixando que o desconforto se manifeste no corpo e no silêncio, sem precisar verbalizá-lo o tempo todo. O perfeccionismo que ele passa a empregar nas demos o torna um sujeito complicado de lidar, quando Jeremy Strong, vivendo Landau, tem a chance de brilhar.

Springsteen: Salve-me do Desconhecido exige paciência e entrega. Ele não oferece respostas claras nem grandes momentos catárticos. O que propõe é uma experiência de aproximação lenta, quase desconfortável, com um artista em conflito com a própria imagem e com as engrenagens que o cercam. Ao escolher o estranhamento como motor narrativo, o filme se afasta da lógica celebratória e toma um caminho que pode não agradar a todos. Bem como as opções de carreira de Springsteen.

Springsteen afirmou publicamente que já pensa em uma sequência

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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