por Marcelo Seabra
Como é humanamente impossível para uma pessoa apenas ver todos os filmes indicados ao Oscar e ainda escrever sobre eles – tendo outras atribuições -, alguns ficaram para a repescagem. Nem por isso, têm menor valor artístico, ou algo assim. Foi mesmo uma questão de sobrecarga e definição de prioridades: no caso, aos indicados a Melhor Filme. Ainda não foi possível conferir tudo, mas segue uma rápida adição às diversas críticas já publicadas.
Viva: A Vida É uma Festa (Coco, 2017)
Uma belíssima animação, que trata de temas pesados de forma leve. Coco (no título original) faz uma homenagem aos antepassados e ressalta como a história é importante para entendermos o presente e sabermos que rumo tomar em nossas vidas. Ou, às vezes, até sabemos, mas precisamos de algo que nos empurre, que nos encoraje. É exatamente isso que ocorre com o jovem Miguel: a necessidade de conhecer as raízes de sua família se torna cada vez maior, e para isso ele embarca numa grande aventura.
Como acontece com as melhores animações, muitas delas da Pixar, como esta, Coco encanta as crianças e faz os adultos refletirem. Enquanto as cores e desenhos distraem uns, outros se atraem por discussões interessantes, como a importância da música em nossas vidas. Ou a necessidade de se seguir seus sonhos, mesmo que muitos o julguem um louco. Não à toa, o longa levou dois Oscars, sendo reconhecido também pela canção, além de Melhor Animação. Prêmios mais do que merecidos.
Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World, 2017)
Ridley Scott é um mestre na arte de contar histórias, mas mesmo ele já cometeu alguns deslizes impensáveis. Todo o Dinheiro do Mundo fica no meio do caminho: tem uma história interessante e ótimas atuações, mas falha em engajar seu público. Por algum motivo, não nos importamos com aquele jovem sequestrado, e muito menos com o avô, um sujeito calculista que busca sempre a melhor forma de lucrar, mesmo que em meio à tragédia.
O filme acabou chamando a atenção pela substituição aos 47 do segundo tempo. Kevin Spacey terminou sua participação, com um Oscar em vista, e quem ganhou a indicação foi Christopher Plummer (de Memórias Secretas, 2015), após o colega ser apagado do longa e ele entrar para a substituição. Plummer, a primeira opção do diretor, de fato entrega um trabalho forte, mas a melhor interpretação é a de Michelle Williams (de Manchester à Beira-Mar, 2016), que rouba todas as cenas em que participa. A montagem é correta, assim como a fotografia e a trilha sonora. Tudo se encaixa, mas Scott esquece de conquistar o espectador, que chega ao final da projeção distante daquela ação, com no máximo curiosidade a respeito dos fatos.
Projeto Flórida (The Florida Project, 2017)
Uma menina excepcional, Brooklynn Kimberly Prince, salva o longa de ser uma chatice com boas intenções. Nada acontece por uns bons minutos, e começamos a nos perguntar o que Willem Dafoe estaria fazendo ali, desperdiçando seu talento. Nas férias de verão, crianças à toa azucrinam os adultos e causam pequenos problemas – ou médios, pelo tamanho do incêndio. Quando os adultos começam a aparecer, as coisas ficam mais claras. Como o objetivo do filme, por exemplo.
Em plena Flórida, perto da Disney, parece que tudo é perfeito. Ao menos, é isso que estrangeiros em férias devem pensar ao escolherem a cidade para seu passeio. Mas uma mãe solteira precisa dar seus pulos para prover para ela e a filha. De pequenos golpes, a situação piora. O final é bem satisfatório, mas mal compensa mais de uma hora e meia de mesmices cotidianas e malcriações das crianças, essas sim o grande achado do diretor e roteirista Sean Baker.
Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi (2017)
Baseado no livro de Hillary Jordan, o roteiro de Mudbound nos leva à área rural do Mississipi, onde duas famílias vivem em meio à lama e às plantações da fazenda. Não bastasse a dureza daquela vida, o racismo ainda imperava (até hoje, talvez), batendo forte em uma das famílias. E o pai da família branca (o ótimo Jonathan Banks, de Breaking Bad) é aquela figura que adoramos odiar.
Enquanto um lado é dividido pelos irmãos vividos por Garrett Hedlund (de Peter Pan, 2015) e Jason Clarke (do mais recente Exterminador do Futuro, de 2015), além da esposa desse (Carey Mulligan (da série Collateral), o outro é marcado pelo casal de Mary J. Blige (cantora que volta e meia dá show em frente às câmeras) e Rob Morgan (de Jessica Jones), além do filho deles, interpretado por Jason Mitchell (de Detroit em Rebelião, 2017).
Todos os atores estão em forma e defendem bem seus papéis, o que nos leva para dentro daquele cenário sofrido. A ótima trilha (de Tamar-kali) e a fotografia fantástica (de Rachel Morrison, indicada ao Oscar) só contribuem com o cuidadoso trabalho da diretora Dee Rees, que merecia mais atenção do que teve. Tomara que esse reconhecimento chegue logo.
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Vc só resenha o cinema americano.
Amanda, eu realmente não tenho tanto tempo quanto gostaria para assistir a filmes do mundo todo e escrever sobre eles. Mas há bastante variedade no blog, basta procurar. Nessa época, próxima ao Oscar, eles acabam sendo maioria mesmo. Abraço!