O Cidadão Ilustre é o terceiro acerto da Cineart

por Marcelo Seabra

A Cineart Filmes parece ser muito criteriosa ao escolher as produções que tem trazido ao Brasil. Agora é a vez do argentino O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre, 2016), premiado em diversos festivais, inclusive o de Veneza e o Goya. Mistura de drama e suspense com toques cômicos, o filme destrincha as relações entre moradores de uma cidadezinha e as consequências da chegada de uma celebridade que saiu de lá há quase 40 anos.

Melhor ator no Festival de Veneza, Oscar Martínez (de Relatos Selvagens, 2014) faz um personagem que se alterna bem entre a humildade e a arrogância, mostrando traços dos dois extremos quando necessário. Daniel Mantovani é um escritor laureado em vários países que ainda conseguiu a proeza de levar o Prêmio Nobel de literatura. Após se recusar a aparecer em diversas premiações, jantares, congressos e eventos mil pelo mundo, nos quais seria homenageado, ele decide aceitar o convite de sua cidade natal, a pequena Salas, a sete horas de distância de Buenos Aires.

Pouco depois de chegar à cidade, Mantovani já se recorda do porquê de ter partido. Ele morou na Europa desde seus vinte anos, quando saiu da cidade e nem olhou para trás, em busca de sua carreira. Ressentimento, situações mal resolvidas e inveja são alguns dos problemas que ele terá que enfrentar. Muitos de seus personagens refletem cidadãos salenses, e eles não costumam ser retratados de forma muito lisonjeira. Pelo contrário: Mantovani escreve sobre o pior no ser humano. E há ainda a politicagem que envolve o prefeito da cidade e os muitos compromissos previamente marcados que o escritor precisará comparecer.

O roteiro, escrito pelo igualmente premiado Andrés Duprat, não exime ninguém, nem o próprio Mantovani. Todos têm seus defeitos, suas hipocrisias, e isso vai acabar aparecendo. Duprat volta a trabalhar com a dupla de diretores e produtores Mariano Cohn e Gastón Duprat, seu irmão. Juntos, os três fizeram, por exemplo, O Homem ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (2011) e o documentário Living Stars (2014), todos projetos interessantes que provam que o Cinema argentino não vive apenas de Ricardo Darín.

Entre situações previsíveis, outras não tanto e algumas surpreendentes, O Cidadão Ilustre consegue um ótimo resultado. O drama é o gênero que impera, mas há momentos muito engraçados que dão uma quebrada bem-vinda. É no mínimo estranho ver as pessoas da cidade seguindo o escritor, e até filmando-o com celulares, como se ele fosse de outro mundo. E a tensão, quando surge, vai deixar muita gente apreensiva. O elenco, bem equilibrado, também ajuda muito, fazendo o espectador ter pena de certos moradores, mais patéticos que maus, e receio quanto a outros, que parecem à beira de fazerem algo drástico. Com mais uma obra admirável, depois de Insubstituível (2016) e Além das Palavras (2016), ficamos no aguardo dos próximos filmes da Cineart.

A equipe recebeu o Goya de Melhor Filme Ibero-americano

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Deuses Americanos adapta obra de Neil Gaiman

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Seria o homem uma criação dos deuses ou seriam os deuses uma criação do homem? Essa pergunta, que atormenta filósofos há séculos, tem uma resposta bem simples na visão do escritor Neil Gaiman. Não só os deuses são produtos da imaginação – e, principalmente, da fé – humana, como tendemos a carregá-los conosco onde quer que vamos. Em pouquíssimas palavras, essa é a premissa básica de Deuses Americanos (American Gods), adaptação do livro homônimo de Gaiman lançado em 2001 que estreou no último domingo nos EUA no canal Starz e, no dia seguinte, no Brasil, através do serviço de streaming da Amazon, o Amazon Prime Video.

Adaptado para a telinha por Bryan Fuller (de Hannibal) e Michael Green (de Heroes), Deuses Americanos começa com uma sequência pra lá de violenta para mostrar, de cara, que os Estados Unidos são um país que foi construído em cima de bastante sangue derramado. Não só isso, estabelece de início que aquele também é um país de imigrantes, tanto humanos quanto divinos, algo que diversos comentaristas já consideram como uma cutucada ao atual presidente e sua política com relação aos imigrantes. Politicagens à parte, nesse universo, sim, deuses não só existem como caminham entre nós. Não só isso, como novos deuses são criados a cada dia, na medida em que as pessoas colocam sua fé em coisas como a tecnologia e a mídia, o que deixa os antigos deuses cada vez mais fracos.

A série começa quando Shadow Moon (Ricky Whittle, de séries como The 100 e Mistresses – acima), condenado a seis anos de prisão, está prestes a conseguir sua condicional. Em três dias, Shadow estará livre. Sua liberdade, no entanto, acaba sendo antecipada já que sua esposa, Laura (Emily Browning, de Lendas do Crime, 2015), é morta em um acidente de carro. O mesmo acidente acaba por vitimar Robbie (Dane Cook), melhor amigo de Shadow, que lhe havia prometido um emprego.

No voo para casa, Shadow é abordado pelo fanfarrão Sr. Wednesday (Ian McShane, de Hércules, 2014), que lhe oferece um emprego de assistente pessoal. Wednesday parece saber mais sobre a vida de Shadow do que poderia e isso deixa o sujeito bastante irritado, de forma a recusar repetidamente a proposta do velho. Shadow acaba mudando de ideia e rapidamente sua vida se torna uma sucessão de situações surreais, que só tendem a se suceder mais rapidamente enquanto fica mais tempo na companhia de Wednesday.

O primeiro episódio de Deuses Americanos traz a assinatura tanto do Starz, canal que sabe como poucos estilizar cenas de violência (Spartacus era uma produção do canal), quanto de Fuller, que retrata essas situações com uma fotografia e composição de cena que as tornam quase singelas. Já o elenco traz boas performances, especialmente McShane, que interpreta Wednesday de maneira que retrata com perfeição a essência do personagem, e não deixa dúvidas para aqueles que conhecem um pouco de mitologia que ele representa. O resto do elenco de apoio cumpre seus papéis de maneira competente, com destaque para Pablo Schreiber (de 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi, 2016), que traz a dose certa de afetação para seu Mad Sweeney.

Deuses Americanos teve um começo promissor e, adaptações necessárias à parte, fez jus ao livro do qual foi adaptado. É, no entanto, uma série que pode causar estranheza aos mais desavisados e esperamos que isso não leve a um cancelamento precoce já que, segundo uma declaração recente de Gaiman, há planos de que ela dure cinco temporadas. A primeira, com 8 episódios, cobre apenas as 100 primeiras páginas da publicação.

McShane é sempre uma figura interessante

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Depois do Casamento fala de sociedade e família

por Caio Lírio

Para muitos, filmes como Depois do Casamento (Efter Brylluppet, 2006) podem soar como um verdadeiro dramalhão. Analisando com mais afinco, vemos que o projeto é mote para discussões múltiplas de cunho político e sócio-cultural. A trama, por exemplo, apresenta uma Índia de pobreza em contraste com uma Dinamarca de ricos e poderosos, frisando, mesmo que de maneira explícita, ou pouco sutil em alguns momentos, que dinheiro e poder não são tudo.

Para trazer à tona seus anseios, Susanne Bier conta uma história de erros da juventude que acabam se refletindo em dilemas na maturidade. Provenientes do Dogma 95 – movimento cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto publicado em Copenhague, na Dinamarca – os longas da diretora (que venceu o Emmy 2016 na categoria Melhor direção de minissérie ou telefilme por The Night Manager) trazem uma variedade cultural provocativa para apresentar ao público uma espécie de passe livre aos temas e tramas de fundo emocional da própria realizadora.

A trama gira em trono de uma família que se desmorona e, através da temática do casamento, aborda e questiona problemas éticos agravados pela fragilidade humana. Inicialmente, o protagonista, vivido pelo ator Mads Mikklesen (de A Caça, 2012 – acima), surge como um idealista que comanda um orfanato na região da Índia. A instituição está prestes a fechar por falta de recursos quando um filantropo dinamarquês lhe oferece capital suficiente para reerguer as obras sociais, mas faz uma exigência: ele terá de voltar à Dinamarca para o casamento da filha do milionário.

Ao fazê-lo, ele descobre que a mulher com quem seu benfeitor está casado é sua ex. Isso, claro, é só o começo para uma série de situações e revelações drásticas que levanta ainda mais o real valor da família hoje. Perceba, por exemplo, como existe uma quebra de paradigma que acontece no meio da narrativa, quando o personagem Jorgen (Rolf Lassgård, de Um Homem Chamado Ove, 2015), que até então aparentava ser um rico e arrogante explorador, se revela um homem exemplar ao colocar todos que ama acima de qualquer tipo de vaidade.

O filme de Susanne tem muito a ver com Festa de Família (Festen, 1998), de Thomas Vinterberg – também representante importante do Dogma 95. Ele coloca seus personagens em aparente comunhão, em decorrência de um evento, mas na verdade aquilo tudo é apenas pano de fundo para o desenrolar de situações perturbadoras e mal resolvidas dentro do ceio familiar. Bier, então, parte desta premissa para mostrar que nem toda família é tão perfeita assim e que, em determinado instante, esses enfrentamentos entre seus membros vão acontecer, máscaras irão cair, verdades e mentiras vão vir à tona.

Outro contraste que alimenta bastante o projeto é aquele apresentado como crítica social e política ao mostrar a pobreza do Terceiro Mundo. Vemos a dedicação de um homem abnegado e o ego exacerbado de um elitista selvagem, que parece mais interessado em amenizar a culpa de sua consciência burguesa com meros trocados para crianças em estado de quase miséria, como uma espécie de falsa redenção. A disparidade fica ainda mais escancarada (e muitas vezes óbvia) quando a diretora apresenta os espaços amplos e suntuosos de Copenhague em grande contraste com os apertados cortiços e vielas de Bombaim.

O longa foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

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Guardiões da Galáxia voltam a atacar!

por Marcelo Seabra

No final de Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014), Peter Quill (Chris Pratt) abre seu presente, uma segunda fita com músicas que a mãe gostava. É essa trilha que dá seguimento à história dos anti-heróis que surpreenderam o mundo há três anos e agora voltam para salvar a galáxia novamente. O Vol. 2 (2017) não tem o frescor e a costura do primeiro, parecendo um pouco disperso. E as músicas não são tão marcantes. Mas é tão divertido quanto se pode esperar, garantia do diretor e roteirista James Gunn.

Para sacudir um pouco as coisas, Gunn incluiu diversos novos personagens, o que aumenta também o número de referências aos quadrinhos. Para os aficionados, é um prato cheio de quem é quem. Para os recém iniciados, as informações básicas são dadas, o que permite total compreensão de tudo. Só as cenas adicionais ao final, nada menos que cinco, deixam umas pontas soltas que demandam experiência prévia. É nesse momento, olhando para a plateia, que é possível separar os fãs dos novatos. E os mais desavisados saíram logo que a tela ficou preta, não sabendo até hoje que todo filme da Marvel guarda surprezinhas para o final.

A trilha sonora original, novamente composta por Tyler Bates, casa muito bem com as cenas em que aparecem. Mas disputa lugar com os clássicos da música popular da língua inglesa, como já era sabido. A diferença é que, se no primeiro tínhamos Redbone, Jackson 5, David Bowie e Blue Swede, entre outros, agora as faixas não são tão reconhecíveis. Com exceções, claro, já que temos George Harrison, Cheap Trick e Cat Stevens. Mas as escolhidas de Electric Light Orchestra e Fleetwood Mac, por exemplo, não estão entre as mais famosas dessas bandas. Isso vai da experiência de cada um, mas afirmar que Brandy (de Looking Glass) é talvez a melhor canção de todos os tempos é forçar a barra demais.

Seguindo pelo espaço, sob a liderança de Quill, os Guardiões da Galáxia, agora já conhecidos por esse nome, trabalham como mercenários. Aceitam uma missão mediante pagamento, mas as coisas nunca saem como previstas. A tarefa aqui é encomendada pelos Soberanos e, no meio do caminho, Quill se depara com ninguém menos que seu pai, o deus Ego (Kurt Russell, de Os Oito Odiados, 2015). A trama segue dando bastante atenção aos personagens e à dinâmica entre eles, assumindo um tom bem mais pessoal que o primeiro filme. Só a fofurice do Baby Groot (voz de Vin Diesel – abaixo) irrita um pouco. Mas não faltam explosões, perseguições e piadas. E participações especiais, como Sylvester Stallone, que pode vir a ser aproveitado no futuro. E muitas pontas de gente bacana. Stan Lee está lá, claro!

Ao contrário do milionário arrogante Tony Stark (o Homem de Ferro) ou do soldado certinho Steve Rogers (o Capitão América), os Guardiões são indivíduos problemáticos com os quais o público pode se identificar. Os conflitos que eles vivem, guardadas as devidas proporções, podem ser encontrados dentro da sua própria casa. Uma briga entre irmãs, por exemplo, serve como uma das espinhas do longa. A relação difícil entre Gamorra (Zoe Saldana) e Nebula (Karen Gillan) é bastante explorada, e foi basicamente causada pela forma como ambas eram tratadas pelo pai adotivo, o megalomaníaco Thanos.

A outra base para o roteiro é a descoberta de Peter, que finalmente conhece o pai – um papel fantástico para Russell, que está muito à vontade. O encontro começa às mil maravilhas, mas as coisas se complicam e geram mais desafios. O excesso de subtramas e o fato de a equipe se dividir dá a impressão em algum momento de que falta uma unidade ao roteiro, os fatos vão acontecendo seguindo um rumo acelerado. É coerente, já que a vida anda assim, mas não deixa de causar estranheza. A surpresa que o anterior causou obviamente não pode ser replicada. O que este Vol. 2 pode fazer, e faz, é dar prosseguimento aos dramas dos personagens, além de sedimentar o caminho para os demais episódios do Universo Marvel, como a Guerra Infinita que vem aí.

Kurt Russell é uma ótima adição para qualquer filme

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Feud leva para a TV famosa briga de Hollywood

por Marcelo Seabra

Batendo recorde de audiência em sua estreia norte-americana, com mais de 5 milhões de espectadores, Feud chegou ao Brasil em 12 de março, na Fox, e já se encaminha para a conclusão. A série, em oito episódios, é construída em torno da eterna disputa entre duas grandes atrizes do Cinema. Bette Davis (Susan Sarandon) era tida como um grande talento, com seus dois Oscars e várias indicações, mas se ressentia de não se achar bonita. Já Joan Crawford (Jessica Lange) tinha sido a “garota mais bonita da América”, mas não se via respeitada como atriz. E ambas, por serem mulheres, se sentiam diminuídas numa Hollywood extremamente machista.

A série nos apresenta às duas quando elas já estavam mais velhas e, por isso, com dificuldade para encontrar papéis. Até que Crawford descobre um livro que imediatamente chama a sua atenção, e procura o amigo cineasta Robert Aldrich (Alfred Molina) para fazerem a adaptação. Para viver as irmãs de O Que Aconteceu com Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962), seria necessário contar com duas estrelas, e começa a luta entre Crawford e Davis (abaixo, o original e a reconstituição). E a história do filme é propícia para as desavenças: duas irmãs que foram famosas, vivendo juntas no ocaso de suas vidas, enquanto uma delas ainda busca uma volta por cima. O tom noir da atração nos deixa apreensivos, esperando que a qualquer momento exploda uma guerra.

O elenco de apoio, que conta com Molina (de O Amor É Estranho, 2014), Judy Davis (de A Vingança Está na Moda, 2015), Stanley Tucci (da franquia Jogos Vorazes) e Catherine Zeta-Jones (de Terapia de Risco, 2013), com pontas de Kathy Bates e Sarah Paulson, é ótimo. Mas o show é de Sarandon (de O Acordo, 2013) e Lange (de American Horror Story), duas atrizes fantásticas que entram muito bem em seus papéis e retratam as nuances de Davis e Crawford, sem atenuar nada. Enquanto Davis era mais transparente e até cruel em suas provocações, nunca fingindo gostar de alguém, Crawford tentava jogar o jogo de Hollywood, sendo amável pela frente e tramando pelas costas.

Depois dos sucessos de Popular, Nip/Tuck, Glee, American Horror Story, Scream Queens e American Crime Story, Ryan Murphy pode se considerar o maior produtor da TV em atividade, e Feud foi mais um grande acerto. Além de uma reconstituição de época impecável, incluindo aí os sets retratados, uma trilha sonora discreta e acertada (que inclui até The End, dos Doors) e roteiros bem amarrados, que situam bem o espectador, a série ainda proporciona discussões importantes. Se a sociedade, de forma geral, já trata mal os mais velhos, o que dizer do mundo do Cinema? “Você tem avó? Ligue para ela”, recomenda uma personagem, apontando a solidão na qual os idosos são deixados. Enquanto homens eram tidos como maduros, mulheres eram esquecidas, relegadas a produções menores quando encontravam trabalho.

Como acontece com Crime e Horror, Feud também é uma antologia, contando histórias diferentes a cada temporada. Por isso, traz o subtítulo Bette and Joan. Para a próxima, Murphy já anunciou que vai acompanhar a família real britânica, mais especificamente o Príncipe Charles e Lady Diana. Sem dúvida, será outro sucesso na carreira do produtor, roteirista e diretor. E Lange e Sarandon devem disputar todos os prêmios que vierem pela frente, com uma diferença fundamental: são amigas.

Davis e Crawford, na Era de Ouro do Cinema

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Paterson é poesia em movimento

por Marcelo Seabra

A poesia presente em nossas vidas fica mais aparente em Paterson (2016), novo trabalho de Jim Jarmusch (de Amantes Eternos, 2013). Fugindo de fórmulas e de grandes emoções, o diretor e roteirista se foca em uma pessoa simples para mostrar como a sensibilidade pode transformar o dia a dia. E como até aquele seu vizinho aparentemente comum pode guardar um grande talento, que vai permanecer oculto se não houver ambição. Talvez por isso, alguns artistas só ganham fama após a morte.

Paterson (Adam Driver, de Star Wars – O Despertar da Força, 2015) divide seu nome com a cidade onde mora, em Nova Jersey. Vai todo dia trabalhar na companhia de trânsito, para a qual dirige o ônibus municipal, e volta no fim do dia para a bela e criativa esposa (Golshifteh Farahani, de Êxodo: Deuses e Reis, 2014). Sai com o cachorro para caminhar, para no bar para um chopp, joga conversa fora e segue para a cama. Mesmo aos finais de semana, acorda cedo e inventa algo para fazer.

Essa rotina aparentemente maçante satisfaz o sujeito, que vive feliz com Laura. A poesia é a válvula de escape que traz mais satisfação à vida dele. É no papel que ele coloca sua emoção, suas observações sobre o mundo. Os poemas transitam entre assuntos, dos mais mundanos aos mais essenciais, e nascem nos lugares mais inusitados, de inspirações corriqueiras, mostrando que não é preciso algo extraordinário acontecer para que o poeta se expresse – algo também visto em Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016). Emily Dickinson, não por coincidência, é das poetisas favoritas de Paterson.

Se pararmos para pensar, a vida do protagonista é uma fantasia. Ele tem uma casa boa, confortável. Não falta nada quanto a alimentação, lazer. Até um cachorro ele tem. A esposa tem condições de se dedicar às paixões dela, como música e cozinhar, e apoia a escrita do marido. Com apenas uma fonte de renda fixa na família, e sendo ela de um emprego não muito valorizado, como o próprio Paterson afirma em determinado momento, é de se estranhar a tranquilidade com que eles vivem. Longe da violência, poluição e correria do mundo real.

Na fotografia do veterano Frederick Elmes (de Amaldiçoado, 2013), a cidade de Paterson passa uma paz inacreditável para os padrões de hoje. Lugares vazios, muito verde e água corrente, de onde Paterson – o homem – tira ideias simples para poemas bem construídos. Driver está no tom exato que o filme demanda, com um olhar sereno e uma postura paciente e compreensiva. Quem ficar à espera de algo grande, espetacular, vai se decepcionar. Paterson – o filme – é sobre as pequenezas da vida, a poesia que se esconde na rotina e só as pessoas de sensibilidade aguçada conseguem ver.

Driver fez até curso para virar motorista licenciado

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Paixão Obsessiva é ruim até no título

por Marcelo Seabra

Depois de uma longa e bem sucedida carreira como produtora, Denise Di Novi resolveu atacar de diretora e sua estreia chega aos cinemas brasileiros essa semana. Só nos resta saber por que raios ela, tão experiente, dirigiria uma bobagem como Paixão Obsessiva (Unforgettable, 2017). A mais batida história da ex que não supera a perda e avacalha os pombinhos ganha nova roupagem e já garante desde já um lugar entre os piores do ano.

Lembrada por um sem número de comediazinhas bobocas, Katherine Heigl (da série Grey’s Anatomy) foi atacar no suspense para dar uma virada na carreira, e só conseguiu provar que não tem outra expressão que não aquele olhar parado de psicopata de butique. Rosario Dawson, ocupada como a enfermeira Claire do Universo Marvel da TV, foi parar nessa furada e é outra que precisamos entender. O triângulo é completo por Geoff Stults (de J. Edgar, 2011), galã genérico que se daria melhor em novelas americanas.

O roteiro de Paixão Obsessiva, escrito por Christina Hodson (de Refém do Medo, 2016) e David Johnson (de Invocação do Mal 2, 2016), consegue ser tão ridículo quanto o título nacional. Julia (Dawson) se muda de cidade para ficar com o noivo (Stults), e vai conviver muito com a filha pequena dele. A ex-mulher (Heigl) do sujeito parece ser perfeita, mas não demora a se mostrar o cão. Julia, recém-saída de uma relação abusiva, sonha em ser feliz para sempre com o bonitão, e por isso sai fazendo uma coisa errada atrás da outra.

Um caso à parte é a maquiagem do longa. Ou não exatamente a maquiagem, que é até boa, mas as consequências das pancadas desferidas. Um ferro batendo na nuca gera tanto hematoma que a pessoa se torna o Duas-Caras do Batman. Uma queda deixa um olho roxo que só um soco bem dado faria. E a marca some em dois tempos, o que é impressionante até para o Wolverine.

Para que um roteiro fraco como esse funcione, precisamos esquecer todos os filmes parecidos que vêm à mente durante a sessão (como Obsessiva, 2009) e aceitar que os personagens vão mudar de atitude – e até de inteligência – conforme a necessidade. Várias situações forçam a barra para que as coisas cheguem onde precisam chegar, como o casal que se senta separado num jantar para permitir que a mulher pense bobagem, a endemoniada aparecer na festa de inauguração de um negócio do ex e por aí vai.

Não se sabe, ao final, o que é pior em Paixão Obsessiva: o roteiro batido e sem suspense algum; a cara de constrangida de Dawson; a expressão congelada de Heigl; ou o resultado das plásticas de Cheryl Ladd, que consegue atuar pior que Heigl, que faz sua filha. A mãe é mais travada que a filha, o que realmente nos faz crer se tratar de uma família. A conclusão não será discutida para não estragar o filme, ou não estragar mais do que a própria equipe já o estragou. Torçamos para que Di Novi tenha melhor sorte na próxima.

Seria um cover da Britney Spears?

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Ficção científica acha Vida em Marte

por Marcelo Seabra

Depois da estreia de duas ficções científicas que ocuparam os extremos quanto à qualidade, chegou a vez de um longa ficar no meio do caminho. Nem tão bom quanto A Chegada (Arrival, 2016), nem ruim como Passageiros (Passengers, 2016), Vida (Life, 2017) tem seus pontos positivos, mas não consegue empolgar como parece tentar. O elenco é bem encaixado e a direção é segura. O roteiro até dá seus pulos, só não chega muito longe.

Repetindo a parceria de Protegendo o Inimigo (Safe House, 2012), o diretor Daniel Espinosa convocou Ryan Reynolds para o elenco. E os roteiristas são ninguém menos que a dupla responsável por Deadpool (2016), sucesso estrelado por Reynolds. Dessa vez, Rhett Reese e Paul Wernick buscaram um tom mais formal, menos descolado. Foram muito felizes ao criar seis personagens com importâncias distintas para o sucesso da missão e com igual peso para a trama. Não conseguiram manter o conteúdo do terceiro ato interessante como o dos dois primeiros, mas não deixa de ser bacana acompanhar essa jornada.

Vida nos apresenta a uma equipe dentro da caríssima Estação Espacial Internacional que examina amostras retiradas do terreno de Marte. No meio de pedras e areia, eles encontram uma forma de vida. Passados a excitação e o alvoroço causados, eles começam a estudar a célula, que cresce numa velocidade assustadora e certamente trará problemas aos astronautas. Os efeitos especiais são exatamente os necessários para fazerem o público acreditar no que está vendo, e tornam certas cenas ainda mais bonitas. E outras, mais aterrorizantes, apesar da trilha sonora insistente e invasiva.

Além de Reynolds, temos no grupo outro nome de peso: Jake Gyllenhaal (de Animais Noturnos, 2016). E há ainda a sueca Rebecca Ferguson, que vem chamando a atenção desde que roubou os holofotes em Missão: Impossível – Nação Secreta (2015). Completam o time a russa Olga Dihovichnaya, o inglês Ariyon Bakare (de Rogue One, 2016) e o japonês Hiroyuki Sanada, que volta ao espaço dez anos depois do superior Sunshine – Alerta Solar (2007). Conhecemos pouco de cada um, mas os atores conseguem dar mais dimensões a eles, além de simpatia e inteligência.

Durante a sessão, é difícil não se lembrar de clássicos do gênero, como a referência óbvia Alien – O Oitavo Passageiro (1979). Ainda mais com um novo episódio da franquia vindo aí (Alien: Covenant, 2017). Por incrível que pareça, Vida ganharia de Alien numa disputa quanto aos personagens. O fato de o roteiro da dupla dividir bem o peso entre eles torna seus futuros imprevisíveis – ao contrário de Ripley (Sigourney Weaver), que é a heroína da série e sempre segue adiante. Mas não chega perto nos quesitos tensão, suspense, nervoso e o que mais sirva para nomear a sensação masoquista que o ícone de Ridley Scott causa em seu público.

Não confundir com esses homônimos

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Five Came Back mostra a importância do Cinema como arma de guerra

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos assistiam aos últimos anos da década de 1930 com apreensão, mas mantinham-se neutros ao conflito na Europa. “Não queremos nos envolver em guerras que não são nossas” era o sentimento geral da nação. Isso, no entanto, mudou em 07 de dezembro de 1941, quando caças japoneses atacaram a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, que praticamente obrigou os americanos a entrarem na Segunda Guerra Mundial. Como convencer o povo americano de que a guerra era justa e deveria ser lutada? A resposta: combater fogo com fogo.

Se o Eixo (o grupo de países formado por Alemanha, Itália, Japão e nações menores) tinha Goebbels e toda a indústria cinematográfica nazista a seu favor, os Aliados, e, especialmente, os Estados Unidos, tinham alguns diretores dispostos a colaborar com o esforço de guerra da única forma que poderiam: fazendo filmes que mostrassem todo o seu horror e criassem uma mobilização da população americana para o conflito, aumentasse o moral das tropas e outras funções. O impacto que esse trabalho teve na vida dos diretores que se dispuseram a fazê-lo é o tema de Five Came Back, minissérie original do Netflix, baseada num livro de Mark Harris, que é uma pérola para qualquer um interessado tanto em Cinema quanto no maior conflito do século XX.

A definição clássica de propaganda diz que é “uma forma intencional e sistemática de persuasão com fins ideológicos, políticos ou comerciais, com a intenção de influenciar as emoções, atitudes, opiniões e ações de grupos de destinatários específicos, através da transmissão controlada de informação parcial (que pode ou não pode ser baseada em fatos), através de meios de comunicação de massas e diretos” (Fonte: Richard Alan Nelson, Glossário de Propaganda nos Estados Unidos, 1996). Na década de 1930, Joseph Goebbels, ministro de propaganda do partido nazista, fez uso, como poucos na História, da propaganda como um instrumento de guerra, na medida em que Hitler moldava seu sonho louco de transformar todo o planeta em um feudo alemão.

A então pungente indústria cinematográfica alemã (acima, O Triunfo da Vontade, de 1935) forneceu ao ministro todos os instrumentos para convencer a população do país da justeza da causa de seu führer e que a concretização de seu sonho poderia fazer a Alemanha retomar o status de potência mundial perdido graças à sua derrota na Primeira Guerra Mundial. Pode parecer pouco, mas a manipulação de Goebbels através do Cinema e do rádio (a televisão ainda não existia) desempenhou um grande papel no que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.

Five Came Back acompanha a trajetória de cinco diretores, então consagrados em Hollywood, que se dispuseram a colocar suas carreiras em pausa para prestarem serviços a seu país. Frank Capra, John Ford, William Wyler, John Huston e George Stevens passaram boa parte da guerra (a partir de 1941) fazendo filmes – curta-metragens, em sua maioria, para serem exibidos antes das atrações principais do cinema da época – e seu trabalho causou um grande impacto tanto dentro das forças armadas como no público americano em geral, quando era liberado (pelo menos dois de seus filmes acabaram sendo censurados pelo exército americano. There Be Light, de Stevens, veio a público apenas em 1981). A série explora tanto o trabalho do quinteto no front como também o impacto que isso teve em suas carreiras, especialmente após o fim da guerra. Stevens (abaixo), por exemplo, pode ser considerado um dos principais responsáveis pela condenação de diversos oficiais nazistas por crimes de guerra graças ao seu trabalho em Dachau, campo de concentração perto de Munique onde esteve e passou diversos dias fotografando e filmando tudo o que via.

Um aspecto interessante de Five Came Back é ver como as forças armadas americanas se preocupavam com o conteúdo dos filmes (documentários, ainda que alguns tenham utilizado trechos encenados) e como ele poderia direcionar a percepção do público americano em relação ao inimigo. Ao mesmo tempo em que havia um cuidado em mostrar que Hitler – e não os alemães em geral – era o inimigo a ser odiado, com os japoneses, a princípio, não havia esse cuidado. Outra coisa que chama a atenção na minissérie é a exibição de trechos desses documentários. As imagens colhidas por Stevens em Dachau podem ser particularmente chocantes para aqueles que nunca viram fotos ou documentários da época.

Também é legal ver como a guerra mudou esses homens e fez com que eles produzissem seus melhores trabalhos justamente no pós-guerra. Frank Capra lançou A Felicidade Não Se Compra (ao lado) em 1946 e o filme foi um fracasso na época, mas estourou na época da televisão e hoje é reprisado anualmente na época de Natal nos EUA; William Wyler ganhou dois Oscars durante a guerra, foi ferido em combate, perdeu grande parte de sua audição e fez sua obra-prima, Ben-Hur, em 1959; John Huston ganhou seu primeiro Oscar em 1949 por O Tesouro de Sierra Madre (1948); John Ford, também ferido em combate, fez diversos filmes marcantes pós 1945, tendo Rastros de Ódio (1956) entre eles. Mas nenhum deles foi tão impactado pela guerra como Stevens. Antes um diretor de comédias e filmes leves, George se tornou um excelente diretor dramático no pós-guerra. Um de seus principais filmes, Os Brutos Também Amam, teve trechos mostrados no recente Logan (2017), fazendo bons paralelos com a história do último longa do mutante canadense.

Além de trazer trechos dos filmes produzidos por cada um deles, entrevistas e depoimentos, Five Came Back tem narração de Meryl Streep (de A Dama de Ferro, 2011) e apresentação de cinco grandes diretores do cinema atual: Francis Ford Coppola (da trilogia O Poderoso Chefão), Guillermo del Toro (A Colina Escarlate, 2015), Paul Greengrass (Jason Bourne, 2016), Lawrence Kasdan (roteirista de O Despertar da Força, 2015) e Steven Spielberg (Cavalo de Guerra, 2011). A minissérie é dividida em três episódios, cada um com duração aproximada de 60 minutos. Como bônus, o Netflix também disponibilizou todos os filmes realizados por Capra & cia.

A narração é da inconfundível Meryl Streep

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Netflix levanta polêmica com 13 Reasons Why

por Marcelo Seabra

Ninguém é obrigado a gostar de determinada obra apenas devido à importância do assunto tratado. Pode-se ter essa percepção quando, ao criticar negativamente, você é apedrejado e demonizado por, teoricamente, estar diminuindo o assunto, quando é a obra o alvo das críticas. Esse fenômeno moderno pode ser observado atualmente quanto à série 13 Reasons Why, nova produção da Netflix, já disponível para apreciação. Após uma longa maratona, é possível reafirmar a impressão inicial: de que a série tem problemas em várias instâncias. Sem definir uma ordem de importância, vamos elencar quais seriam essas questões – sem entrar muito em detalhes para não estragar a experiência de quem ainda pretende se aventurar pelos episódios.

Para quem não sabe do que se trata, a série é baseada em um livro bem vendido, de Jay Asher, e nos apresenta a Hannah Baker (Katherine Langford – abaixo), uma estudante colegial que cometeu suicídio. De cara, sabemos que ela morreu, mas, antes, gravou fitas narrando os fatos que a teriam levado àquele ato extremo. Cada lado das sete fitas cassete se refere a uma pessoa que teria contribuído nos infortúnios de Hannah. Vamos ouvindo as gravações junto com Clay Jensen (Dylan Minnette) quando ele recebe a caixa com as fitas.

Há um clichê relacionado ao suicídio que o caracteriza como a solução definitiva para um problema passageiro. É batido, mas não deixa de ser verdadeiro. No caso de Hannah, ganha ainda a conotação de vingança, já que as fitas descrevem – sob o ponto de vista dela, claro – como cada uma das 13 pessoas seria um dos porquês dela ter se matado. Ou foram maus com ela, ou apenas não se importaram o tanto que ela julgava que deveriam. E eis o primeiro problema: glamourizar o suicídio. Ao mostrar Hannah como uma menina inteligente e bonita, mas ligeiramente impopular, a solução à qual ela chega passa automaticamente a ser algo normal, corriqueiro, que pode sim influenciar jovens por aí. E ela passa a reger os movimentos de todos, mesmo morta.

A adolescência é um período complicado para qualquer um e pelo qual todos passamos, ou estamos passando, ou passaremos. Para Hannah, no entanto, as coisas parecem ser um pouco mais difíceis, ou assim a série nos leva a crer. Mais complicado é aceitar que, passando por todos esses percalços, graves o suficiente para levarem a garota a tirar sua própria vida, ela calcularia todo o esquema de gravação e organização das fitas, com mapa e tudo, para só depois chegar às vias de fato. Com uma voz doce e até um senso de humor esporádico, ela vai narrando tudo, já sabendo qual será a conclusão daquele “projeto”.

No mundo todo, 800 mil pessoas morrem anualmente por suicídio, uma média de uma pessoa a cada 40 segundos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (no documento Prevenção do Suicídio – Um Recurso para Conselheiros), problemas domésticos e financeiros podem ser o estopim, mas quase 90% dos casos envolvem indivíduos com perturbações mentais. A impulsividade, que geralmente leva à tentativa, passou longe, o que torna a premissa da série bem difícil de comprar. Hannah não se encaixa em nenhum desses casos, sendo a exceção da exceção.

Em 1774, foi publicado o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther (representado acima), de Goethe, no qual o protagonista envia cartas a um amigo narrando suas desventuras amorosas para, ao final, se suicidar com um tiro. A publicação do livro teria dado início a uma onda de suicídios na Europa usando o mesmo meio que Werther. O personagem deu nome ao Efeito Werther, fenômeno observado quando um indivíduo comete suicídio imitando outro, e essa situação já apareceu em outros casos posteriores. A preocupação com esse efeito é tão grave que a OMS produziu um documento específico de orientação chamado Prevenção do Suicídio: Um Manual para Profissionais da Mídia.

Observando-se o documento da OMS, outra constatação óbvia é que 13 Reasons não segue as orientações de especialistas ao tratar desse assunto tão delicado. Há uma observação especificamente sobre “Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso”. E também “Não informar detalhes específicos do método utilizado”. A série não mostra um beijo entre namorados homens, mas detalha com uma riqueza gráfica como Hannah conseguiu consumar o ato. Um mero aviso no início dos episódios finais não vai evitar que ninguém assista às cenas derradeiras, e não vai evitar um mal exemplo para um público teoricamente mais influenciável. E, infelizmente, já começaram a ser noticiados casos no Brasil de possíveis suicídios influenciados pela série.

Uma vez constatados os problemas éticos (digamos assim), podemos passar à questão da dramaturgia. 13 Reasons Why se desenrola por 13 episódios, sendo que o livro que serviu como base (no Brasil, Os 13 Porquês) tem menos de 300 páginas. Obviamente, isso resulta em muita enrolação e subtramas que não acrescentam nada à trama principal. E, por incrível que pareça, fica a sensação de que vários pontos são melhor desenvolvidos no livro, já que soam um tanto apressados na TV.

Os diálogos são extremamente expositivos, e frequentemente algum personagem pergunta: “Sério?”. Nem eles acreditam na burocracia do roteiro. Outro erro grave é trazer luz a certas questões levantadas nas fitas apenas quando Clay as ouve, sendo que vários alunos já haviam escutado tudo quando as fitas chegam até ele. Se era para escandalizar os colegas, por que isso não aconteceu desde o início? E por que os primeiros alvos não deram um jeito de destruir o material? No penúltimo episódio, vemos que essa é uma preocupação de Clay, mas, a essa altura, por que se preocupar? Se não aconteceu até então…

Sem voltar nas questões éticas envolvidas, cada lado de cada fita narra o envolvimento de Hannah com uma pessoa e a relação desse contato com o suicídio. É óbvio que há, entre essas tais razões, acontecimentos mais sérios e outros quase irrelevantes. E a narrativa coloca todos no mesmo patamar de importância, o que é, no mínimo, cretino, e tira o peso dos piores. É como se cada envolvido tivesse 1/13 avos de culpa. Hannah, que tirou a própria vida, não tem responsabilidade nenhuma.

Outra coisa que dá raiva de pensar: ela traça um plano bem amarrado para culpar todos que considera responsáveis. Os pais dela, que aparentemente não dividem essa culpa, não ganham uma notinha de pé de página. A garota está tão ocupada com seu maligno plano de vingança que não se atenta para o sofrimento que causará nas pessoas que provavelmente são as mais importantes em sua vida. Os pais (abaixo) são mostrados como amorosos e atenciosos, e suas vidas compreensivelmente são muito abaladas pela tragédia.

E, falando em tragédia, há outras, apenas para darem mais motivo a Hannah. E a tentativa do roteiro de trazer algum suspense à trama é pífia e dispensável. Se a proposta era discutir o suicídio juvenil, não era necessário misturar tanta coisa ao caldo, perdendo o foco e causando um sensacionalismo apenas na vã tentativa de prender a atenção do público. E há situações impensáveis, como uma certa escalada, que entram apenas para gastar alguns minutos, o que enfraquece ainda mais o todo.

Alguns pontos poderiam ser positivos, como a hoje tão buscada diversidade cultural entre o elenco, por exemplo. Mas isso não faz diferença alguma para a trama, já que os atores poderiam ter seus personagens trocados sem afetar em nada o andamento da ação. A tentativa de desenvolver melhor alguns personagens acaba irritando, ao invés de ser um bônus, porque sabemos que eles não terão papel algum na resolução da história.

Clay, o protagonista, é amigo de Hannah, e logo entendemos que o sentimento não fica apenas na amizade. Por isso, é importante que acompanhemos as fitas por ele. O problema é ele ter que jogar os fones longe a cada poucos minutos, e dizer que não consegue ouvir, para logo depois continuar a escutar. E as providências que ele acredita serem responsabilidade dele tomar, ele toma antes de ouvir tudo. Ao invés de fazer o que qualquer pessoa provavelmente faria – ouvir tudo o mais rápido possível – ele vai pouquinho por pouquinho. Afinal, a série tem que durar. O jovem Minnette é competente, como vemos em O Homem nas Trevas (Don’t Breathe, 2016), mas a ruindade do roteiro é mais forte.

O elenco, inclusive, é um ponto positivo para a série. A estreante Katherine Langford consegue trazer simpatia para Hannah, mesmo quando suas ações são antipáticas. Os demais nomes entre os mais novos, ninguém muito conhecido, seguram as pontas com tranquilidade. Entre os mais velhos, destaque para Brian d’Arcy James (de Spotlight, cujo diretor, Tom McCarthy, comanda os primeiros episódios) e Kate Walsh (de Private Practice) como os sofridos Bakers, além de Steven Weber (de NCIS: New Orleans) e Derek Luke (de Empire), como o diretor e o conselheiro da escola, respectivamente.

Walsh, curiosamente, foi a mãe de um adolescente muito mais interessante no sensível As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012). Tratando assuntos parecidos, do mesmo universo, este longa consegue chegar muito mais longe e, o mais importante, sem desrespeitar seu público. Ele consegue provar que filmes sobre adolescentes não precisam se focar apenas no público adolescente – e poderiam ser citados aqui outros vários, como Conta Comigo (Stand By Me, 1986) e Goonies (1985). Mesmo porque quando se fala em fazer algo para adolescentes, já há o preconceito de que eles não teriam capacidade de entender ou apreciar uma obra bem feita. É mais uma justificativa porca para a falta de qualidade de 13 Reasons Why.

A Netflix promoveu uma discussão com a equipe da série

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