PT Anderson nos apresenta a O Mestre

por Marcelo Seabra

The MasterFreddie Quell (Joaquin Phoenix) é um soldado voltando para casa sem saber exatamente o que fazer. O problema físico, de postura, é o menor deles. Freddie não tem rumo quanto à profissão ou futuro e nem uma família a quem recorrer. Talvez essa necessidade de uma figura paterna faça com que ele fique tão próximo do líder carismático Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), que está no processo de criar uma religião, ou culto, ou seita. Qualquer que seja o nome, o que importa é que ele é chefe, o que parece alimentar bem o ego do sujeito.

O Mestre (The Master, 2012) é o novo longa de Paul Thomas Anderson, diretor que está ainda em seu sexto longa (como Magnólia, de 1999, e Sangue Negro, de 2007), mas há muito é incensado como gênio, melhor de sua geração e outros exageros. De fato, PTA demonstra grande preciosismo técnico, usando ótimas peças, como a fotografia de Mihai Malaimare Jr. (dos dois últimos trabalhos de Coppola, Twixt e Tetro) e a trilha de Jonny Greenwood, para construir uma bela obra. O problema é o conteúdo, que fica um tanto vago e não escolhe uma direção a seguir. O longa é vendido como uma crítica à Cientologia, e de fato usa alguns elementos ligados à seita dos famosos de Hollywood. Mas em momento algum ele toma uma posição de criticar o movimento ou os membros, se limitando a mostrar traços negativos da personalidade do criador, Dodd.

The Master Seymour Hoffman

Disputando o foco, Phoenix e Seymour Hoffman dão o melhor nos papéis principais e foram indicados a vários prêmios não por acidente. Phoenix, já indicado ao Oscar por Johnny & June (Walk the Line, 2005) e por Gladiador (Gladiator, 2000), este como coadjuvante, assume a frente e vive um Freddie animalesco, um homem que dá vazão a seus instintos básicos, buscando sexo e álcool com frequência – o que não é raro de se ver por aí. Seymour Hoffman (de Tudo Pelo Poder, 2011) é a possibilidade de luz nessas trevas, alguém que trará direção à vida de Freddie. A apresentação de Dodd já começa com uma grande amostra de sua vaidade, quando ele cita as várias profissões que teria, de filósofo a físico. Ele parece se aproveitar de pessoas sem rumo, convocando-as para a sua “Causa”, e ficamos sem saber exatamente o quão genuína é a sua afeição por Freddie. Sua inexistente disposição para argumentar sobre a Causa só reforça a hipocrisia dele, que espera que as pessoas o sigam cegamente, ignorando o seu passado e a sua vida conturbada. Seria ele apenas um picareta com uma grande necessidade de reconhecimento ou um picareta que realmente acredita no que faz?

Completando o núcleo do elenco, Amy Adams (de Curvas da Vida, 2012) vive a esposa de Dodd, uma mulher calma e apoiadora que esconde uma personalidade forte. Sua participação não é grande, mas o suficiente para conhecermos Dodd um pouco melhor, apesar de o personagem ficar sempre cercado por uma aura de mistério. Seu passado e como ele entrou nessa de líder de seita nunca é explicado, temos apenas migalhas. O roteiro, também de PTA, se prende à relação entre os dois, deixando a Causa de lado. Como no próprio cartaz nacional de O Mestre há uma afirmação sobre abordar a polêmica sobre a Cientologia, numa manobra desnecessária e cretina para promovê-lo, cria-se uma expectativa ainda maior sobre os bastidores da tal igreja, que tem seguidores famosos como Tom Cruise e John Travolta. Mas este é um problema do cartaz nacional, e não do filme.

The Master duo

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“A Maior Busca da História” chega aos cinemas

por Marcelo Seabra

Zero Dark Thirty

Quase uma década de investigações e esforços empregados na captura do homem tido como “o mais procurado do mundo” resultou em um longa de 150 minutos que certamente é um dos melhores do ano. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012) é o novo trabalho de Kathryn Bigelow, diretora do premiado Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008). Ela conta novamente com roteiro de Mark Boal e ambos repetem a parceria na produção, e mais uma vez foram indicados a diversos prêmios.

OsamaQuando o projeto começou a ser desenvolvido, Osama bin Laden (ao lado) ainda era procurado, e tudo teve que ser repensado quando ele foi pego. Boal teve que colocar de lado dois anos de trabalho, o roteiro sobre a busca, e não descarta a possibilidade de filmá-lo também. Como um bom jornalista investigativo, ele recolheu todas as informações às quais teve acesso, chegando a levantar suspeitas entre políticos republicanos de que ele teria lido documentos confidenciais. Tudo isso foi colocado no papel, sem uma preocupação em ser muito detalhado ou explicar demais, o que seria muito cansativo. Pelas relações entre os personagens, percebe-se quem é um mero agente e quem é autoridade. Na segunda ou terceira aparição, já se tem mais informações, ou ao menos as que importam.

Tecnicamente perfeito, A Hora Mais Escura tem a árdua tarefa de levar um pouco de luz a eventos reais cujo fim todos conhecemos. O resultado de tanta paixão é um filme sobre obsessão, a exemplo de Zodíaco (Zodiac, 2007), mostrando a verdadeira espionagem, sem o glamour de um James Bond ou a pancadaria de um Jason Bourne. São apenas funcionários, que prestam contas a burocratas atrás de mesas, e que, após algum tempo em uma missão, começam a se dedicar como se suas vidas dependessem disso. No caso da caça a bin Laden, as vidas de muitas pessoas poderiam depender, já que as células controladas por ele causariam muitas mortes e destruição. Como a história é longa, saltos temporais são necessários, dividindo a obra em capítulos. Apesar do estilo documental, o longa é um filme de ficção e não pode ser levado ao pé da letra. Muitos personagens devem ter sido criados com características de pessoas reais, mas misturando aqui e ali, até para simplificar um pouco o que foi feito nestes muitos anos retratados.

Jessica ChastainJessica Chastain (de Os Infratores, 2012) fica com o papel principal, a agente que, em 2003, passa a acompanhar o colega (vivido por Jason Clarke, também de Os Infratores) que interroga os prisioneiros ligados aos terroristas islâmicos. Como há muita tortura envolvida, ela parece constrangida, ou com medo, mas logo entra no esquema e fica cada vez mais obcecada pelo caso. Ela não tem vida pessoal alguma, fazendo um contraponto interessante aos terroristas, tão devotados quanto ela, sendo dois lados da mesma moeda. Maya entra em uma cruzada, movimentando todos à sua volta e cobrando posturas de seus superiores, o que faz o caso andar e chegar à resolução que tomou a mídia em maio de 2011 (cujo horário o título original faz referência). O elenco ainda é reforçado por Kyle Chandler, Mark Strong, James Gandolfini, Jennifer Ehle, Joel Edgerton e Chris Pratt.

Tortura é um assunto extremamente polêmico, ainda mais por se tratar de uma situação tão recente. Muitos criticaram a posição do filme, dizendo que se trata de uma apologia a métodos que são oficialmente negados, mas comprovados por evidências. O principal problema não seria nem admitir o uso de tortura, mas mostrar que informações imprescindíveis foram conseguidas dessa forma, e não por interrogatórios dentro do padrão. Fora das telas, a tortura empregada pela CIA em prisioneiros teria sido repetida à exaustão e se mostrado pouco eficaz, deixando o sucesso para as técnicas tradicionais. Quem assiste ao filme pode ser levado a uma interpretação errada, de que tortura funciona – ou teria funcionado, nesse caso específico – e é válida, com os fins justificando os meios. Não é bem o que se vê, mas as conclusões vão depender do público.

Boal, Clarke, a diretora Bigelow, Chastain e Chandler em Nova York

Boal, Clarke, a diretora Bigelow, Chastain e Chandler em Nova York

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As Sessões comprova o talento de John Hawkes

por Marcelo Seabra

The Sessions PosterApesar de acumular trabalhos na TV e no Cinema desde meados da década de 80, John Hawkes só ganhou a devida atenção quando sua interpretação em Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010) foi bastante premiada. Parecendo uma versão mais nova de Sean Penn e pulando entre papéis coadjuvantes, ele mostra que tem cacife para encabeçar um longa como o protagonista de As Sessões (The Sessions, 2012), um ótimo e bem atuado drama baseado em fatos. Foram doze anos de pausa na carreira cinematográfica do diretor e roteirista Ben Lewin (Um Golpe de Sorte é de 1994), e a volta valeu a pena.

Hawkes interpreta Mark O’Brien, um jornalista e poeta vitimado pela poliomielite, que danificou seus músculos e fez com que ele dependesse de um respirador artificial. Ele mexe apenas o pescoço e a cabeça, o que o deixa dependente de cuidados o tempo todo. Uma simples coceira torna-se um grande tormento. Criado dentro do catolicismo, ele brinca que gosta de ter quem culpar por sua condição. Apesar das dificuldades, Mark não perde o bom humor, e Hawkes acerta no tom. O ator se dá tão bem que parece realmente ser deficiente, como os outros atores que disputaram com ele o papel. Para se preparar, Hawkes leu os artigos e poemas de O’Brien e assistiu ao premiado documentário Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien (1996).

William H. Macy (de O Poder e a Lei, 2011) vive o Padre Brendan, novo responsável pela paróquia frequentada por Mark. Brendan tem posturas modernas (ele bebe e fuma, por exemplo) e é bem compreensivo, e os dois logo se tornam bons amigos. Quando é contratado para escrever uma matéria sobre a relação entre sexo e deficientes físicos, Mark começa a pensar sobre si mesmo: aos 38 anos, ainda é virgem. Após uma ótima conversa com o amigo e conselheiro, ele decide buscar uma terapeuta sexual, onde entra a personagem de Helen Hunt (de Náufrago, 2000), que concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho.

The Sessions scene

Cheryl vai ajudar Mark a resolver seu “problema”, praticando exercícios corporais até chegar às vias de fato. Hunt encara de frente uma tarefa não muito confortável, que inclui cenas muito naturais de nudez, e mostra seu talento no que deve ser um dos papéis mais difíceis do ano. Mark é aterrorizado pela ideia de proximidade, e intimidade, como um adolescente, e terá a primeira experiência sexual como um rito de passagem à idade adulta. Mesmo correndo o risco de ser confundida com uma prostituta, Cheryl se dedica a ajudar pessoas nesse tipo de situação. Ao tirarem suas roupas, Mark e Cheryl parecem estar revelando seu interior, e a química entre os atores é fantástica.

Com um roteiro bem enxuto, baseado no artigo de O’Brien publicado em 1990, Lewin foca nos personagens, evitando um peso desnecessário ao drama e passando longe do sentimentalismo barato. O próprio Lewin sobreviveu à poliomielite quando criança, ainda tendo as muletas como lembrança. Tratando um assunto delicado com leveza, ele desvia de armadilhas e mostra um deficiente físico como um cidadão inteligente, obstinado e capaz.

Atores, diretor e produtora prestigiam As Sessões

Atores, diretor e produtora prestigiam As Sessões

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Para assistir no Carnaval – ou não!

por Marcelo Seabra

Para quem quer aproveitar o Carnaval para pegar um cinema, há boas dicas. Mas é bom tomar cuidado para evitar armadilhas. Seguem, abaixo, exemplos dos dois extremos.

Warm Bodies

Os zumbis estão novamente em alta, vide o sucesso da série The Walking Dead, e o diretor e roteirista Jonathan Levine (de 50%, de 2011) teve uma boa ideia: adaptar o livro Warm Bodies, de Isaac Marion, conhecido como a história de um amor zumbi. Com muito bom humor, o longa homônimo, que no Brasil ganhou o título ridículo Meu Namorado É um Zumbi (2013), brinca com a sua premissa e com clichês tanto de zumbis quanto de comédias românticas. O resultado pode ser visto como uma fábula sobre aceitar as diferenças do próximo, ou apenas como um filme divertido e bem feito.

Só se sabe o necessário sobre a história e os personagens, não é preciso ir muito longe. Através da narração do protagonista, descobrimos que algo aconteceu (uma doença, vírus, qualquer coisa) e boa parte da população virou zumbi – inclusive ele. Os humanos que sobraram cercaram a cidade com muros e se armaram, com o militar vivido por John Malkovich (de RED, 2010) à frente. Em uma investida para buscar remédios, um grupo de sobreviventes encontra uma horda de zumbis, dos quais já conhecemos um, identificado apenas como R (Nicholas Hoult, de X-Men: Primeira Classe, 2011), já que ele não se lembra do próprio nome. Depois da confusão, R acaba salvando uma garota (Teresa Palmer, de O Aprendiz de Feiticeiro, 2010), e ela começa a despertar nele algo há muito esquecido.

Warm Bodies sceneA narração de R é recheada de pérolas e poderia muito bem ter saído de um adolescente, se complicando ao conversar com uma bela garota. As comparações entre zumbis e humanos são constantes, inclusive mostrando que não há grandes diferenças entre eles. Principalmente quando em frente a um celular, computador ou derivados. Nem R sabe como conseguiu manter o pensamento lógico e coerente, já que seus “amigos” se resumem a buscar comida – entenda seres vivos. Ele é até consumista, com mania de pegar e guardar coisas que acha interessante. E sua sensibilidade aparece até nas músicas que escolhe, como Hungry Heart (de Bruce Springsteen) e Shelter from the Storm (de Bob Dylan). Aos trancos, como é possível, a relação entre R e Julie é bem desenvolvida, fazendo com que o público torça pelo casal.

É interessante perceber que, mesmo entre os zumbis, há diferenciação e há tipos que assumem o papel de vilões, como acontece em qualquer sociedade. Levine aproveita essas figuras para homenagear outros longas, com menções óbvias a Eu, Robô (I, Robot, 2004) e Alien (1979). Claros que há alguns furos, como o fato de a energia elétrica e o combustível dos carros não ter acabado, mesmo tanto tempo depois de iniciada a evacuação do aeroporto. Mas a atuação de Hoult, o pequeno Marcus de Um Grande Garoto (About a Boy, 2002), é assustadora e doce na medida certa, e a mocinha de Teresa Palmer é o par perfeito para ele.

Fire with Fire

Sabe aquele filme que te deixa revoltado, de tão ruim? Quando nem o dinheiro do ingresso de volta te daria menos raiva, já que a hora e meia perdida nunca voltará? A melhor forma de definir esse Fogo Contra Fogo (Fire With Fire, 2012) é dizer que se trata de um filme do Nicolas Cage sem o Nicolas Cage. Um longa de ação genérico, com uma premissa absurda e um desenvolvimento ainda pior. O mais surpreendente é saber que, nos Estados Unidos, ele foi direto para homevideo, mas mereceu uma estreia nos cinemas brasileiros.

Olhando para o elenco, podemos pensar que o diretor deve ser um cara bem relacionado, com quem todos querem trabalhar. Mas David Barrett tem experiência apenas na TV, tendo comandado diversos episódios de séries, entre elas The Mentalist, Castle e Blue Bloods. Mesmo assim, conseguiu trazer a bordo Bruce Wilis (que em breve lança um novo Duro de Matar), Josh Duhamel (da franquia Transformers), Rosario Dawson (de Incontrolável, de 2010), Vincent D’Onofrio (de O Mafioso, 2011), Julian McMahon (o Doutor Destino do Quarteto Fantástico) e Vinnie Jones (também de O Mafioso, 2011), além dos rappers 50 Cent e Quinton “Rampage” Jackson. É, parando para analisar, não temos aqui nenhum grande talento. E o roteirista, Tom O’Connor, assina seu primeiro trabalho, e esperamos que seja o último, a não ser que melhore muito.

Fire with Fire scene

A história começa com um bombeiro (Duhamel) saindo para comemorar uma ação bem sucedida com os amigos, quando ele testemunha um assassinato e consegue fugir. Após concordar em servir como testemunha, ele passa a ser ameaçado pelo perigoso traficante (D’Onofrio – ao lado, com Willis) que ele vai ajudar a condenar. Mesmo no programa de proteção a testemunhas, Jeremy corre perigo e precisa contar com a ajuda do FBI (Rosario Dawson e Kevin Dunn) e do policial que está empenhado no caso, o Detetive Cella (Willis). Personagem incompetente e ator canastrão se fundem em McMahon, o assassino contratado, e o capanga da vez, de Vinnie Jones, tem uma das participações mais constrangedoras já vistas.

Duhamel não tem carisma ou condições de segurar um longa, e Willis aparece pouco, sempre no piloto automático, já que o papel não exige nada dele. O comportamento dos personagens, de uma forma geral, indica que eles acabaram de cair na Terra, ou então eles leram o roteiro e estão seguindo direitinho o que precisam fazer para que o filme chegue ao final. Só assim para explicar tantos chutes, conveniências e inconsistências. Poucos filmes recentes têm tanto potencial para arrancar comentários de incredulidade do público, tamanha é a ruindade deste Fogo Contra Fogo. E nem vale a pena gastar mais palavras com ele.

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Washington aproveita bom roteiro e alça voo

por Marcelo Seabra

Flight

A interpretação certeira de Denzel Washington é o principal atrativo de O Voo (Flight, 2012), mas não é o único. O ator está muito bem, e é ainda mais privilegiado por um roteiro bem amarrado e a direção competente de Robert Zemeckis, em seu primeiro projeto sem animação desde Náufrago (Cast Away, 2000). O filme começa com ação, com uma quase catástrofe, mas segue como um drama com um rico estudo de personagem, mostrando um homem que pensa estar no controle de sua vida, e não poderia estar mais longe disso.

Flight DenzelWashington (de Protegendo o Inimigo, 2012) vive o piloto Whip Whitaker, um veterano dos ares acostumado com vôos comerciais que sempre foi muito competente, apesar de um problema grave que ele consegue esconder de todos: sua dependência de álcool e drogas. Nas primeiras cenas, já presenciamos esse abuso, enquanto Whip e uma aeromoça (Nadine Velazquez, de My Name Is Earl) se divertem com bebida e cocaína. Logo, descobrimos que eles têm um vôo para comandar dali a pouco. Whip já parece, nessas alturas, ser um sujeito arrogante, talentoso e extremamente irresponsável.

A partir do momento em que é obrigado a fazer uma manobra quase impossível e salva a vida dos passageiros e tripulantes, ele ganha uma atenção indesejada que pode acabar revelando também o que não deve. A partir daí, começamos a conhecer melhor o personagem, e Washington cresce. Era necessário um ator como ele para trazer algumas características indispensáveis a Whip, que é um líder nato, bastante autoconfiante. Mesmo percebendo algo estranho, seus colegas não ousam acusá-lo ou levantar suspeitas. Recuperando-se do susto, Whip evita a mídia e conhece, no caminho, uma viciada em recuperação (Kelly Reilly, dos dois Sherlock Holmes).

Flight KellyCom o início de uma investigação do acidente, entram em cena os personagens de Bruce Greenwood (de Star Trek, 2009) e Don Cheadle (de O Guarda, 2011), que não têm muito destaque. Os intérpretes fazem o que podem, deixando a vaga de “coadjuvante-que-rouba-a-cena” para John Goodman (de Argo, 2012), que faz o amigo e fornecedor de Whip. Melissa Leo (de O Vencedor, 2011) aparece nos finalmentes e é outra presença forte. Mas Washington, em cena, pega todo o holofote para ele e até a bela Kelly Reilly (acima) fica apagada. Não é a toa que ele foi lembrado pela Academia como um dos melhores atores do ano, além do roteirista John Gatins.

Falando do roteiro, muita gente deve sair do cinema imaginando ser tratar de uma história real, que seria baseado no livro do sujeito. A credibilidade que Gatins passa é tanta que não parece ser um roteiro original. Na verdade, muito saiu das experiências do próprio roteirista, que já completa 20 anos de sobriedade. E ele ainda misturou outro medo seu (além de uma recaída): voar. E as cenas de voo são tão realistas (não necessariamente fisicamente possíveis)! Ele era um aspirante a ator que controlava sua ansiedade e falta de sucesso com abusos químicos. Foram 12 anos escrevendo o roteiro e exorcizando o passado. Tirando uma pequena derrapada no final, valeu a pena.

Parece milagre!

Parece milagre!

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Obra de Victor Hugo ganha vida novamente

por Marcelo Seabra

Les Miserables

Já adaptada diversas vezes para o teatro e o cinema, Os Miseráveis (Les Misérables), peça do francês Victor Hugo, foi publicada em 1862 e ainda hoje é considerada uma das grandes histórias de todos os tempos. Os temas abordados são universais e atemporais, como perdão, obsessão, honra e redenção, e a obra sempre volta à mídia. A mais nova adaptação, já em cartaz no Brasil, é um longo musical que traz um elenco de estrelas e arrebatou oito indicações a Oscars, incluindo Melhor Filme. Curiosamente, o diretor tem sido deixado de lado em quase todas as menções feitas, provando que o longa conseguiu ficar acima da média apesar dele.

À frente dos atores, Hugh Jackman (o eterno Wolverine dos X-Men) mostra ser um artista completo, cantando de forma satisfatória e colocando bastante emoção na voz. Seu antagonista, vivido por Russell Crowe (Robin Hood, 2010), não consegue o mesmo resultado, soando falso cada vez que abre a boca. Enquanto Jackman demonstra estar em um momento intimista e sofrido, Crowe parece cantar para uma plateia, e a voz dá a impressão de sair de outra pessoa, como se ele fosse dublado. O outro grande destaque é Anne Hathaway (de Batman Ressurge, 2012), que tem uma participação pequena, mas significativa. Jackman e Anne têm os papéis mais trágicos e, também pela competência deles, acabam tendo mais relevância que os demais. Ela, inclusive, é tida como favorita à estatueta careca como Melhor Atriz Coadjuvante, mesmo sem cenas de nudez, como ela brincou na edição que apresentou do Oscar (ela disse que achava que seria indicada sempre que tirasse a roupa, mas não aconteceu com Amor e Outras Drogas, de 2011).

Les Miserables cast

A história se inicia na Paris de 1815, quando Jean Valjean (Jackman) chega ao final de 19 anos de cadeia, condenado por roubar pão para alimentar os sobrinhos famintos. Pelas tentativas de fuga, os cinco anos iniciais aumentaram e, ao sair, ele leva um documento que relata sua condição de criminoso em condicional, o que dificulta sua vida e o obriga a se apresentar com frequência às autoridades. Ao roubar uma igreja, ele é acobertado pelo padre local e é tocado pela bondade, decidindo assumir uma nova identidade e recomeçar longe dali, onde pudesse ajudar os outros. Mas Javert, o inspetor de polícia (Crowe), não vai descansar enquanto não recuperar o prisioneiro que não mais se apresentou. Aí, começa uma perseguição que durará a vida toda, marcada por dramáticos encontros e fugas.

A base direta para o texto não é exatamente o livro de Hugo, mas o musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, e os dois contribuíram com o roteirista William Nicholson (de Gladiador, 2000) e o compositor Herbert Kretzmer. Juntos, os quatro criaram uma obra que é toda cantada, e não apenas traz momentos de cantoria, e o áudio é captado em cena, e não inserido depois. Assim, é bem estranho acompanhar cenas que deveriam trazer tensão e apreensão, com conversas murmuradas, que acabam chamando a atenção para o fato de estarem todos cantando. Há dois tipos de canções: aquelas que simplesmente se adequam às falas; e as mais grandiosas, que externam sentimentos e não raro contam com diversos intérpretes. Nos dois casos, são bem expositivas, muitas vezes se tornando repetitivas, o que torna a sessão cansativa, com intermináveis 158 minutos. E sem direito a Susan Boyle cantando I Dreamed a Dream, que ficou com Anne.

Les Miserables coupleO roteiro não é dos mais claros, e a passagem do tempo é questionável. E, para piorar, alguns eventos da história não ficam claros, como a razão da revolução nas ruas que mobiliza os jovens da cidade. Qual seria o motivo? E o objetivo? Não se sabe. A confiança de Cosette (Amanda Seyfried, de O Preço do Amanhã, 2011) em Valjean é imediata, e o amor dela por Marius (Eddie Redmayne, de Sete Dias com Marilyn, 2011 – ambos ao lado) é ainda mais atropelado. A participação de Sacha Baron Cohen (de O Ditador, 2012) e Helena Bonham Carter (de Sombras da Noite, 2012) é engraçada, mas inverossímil e completamente fora do tom da produção inteira. Apesar dos problemas apontados, deve-se ressaltar que a qualidade técnica do longa é impecável. Cenários e figurinos ajudam muito na caracterização e no trabalho dos atores.

E chegamos à questão mais delicada de Os Miseráveis: Tom Hooper. Vindo de diversas séries de TV, o diretor ganhou notoriedade ao levar diversos prêmios por seu trabalho em O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010). Muitos ficaram contra essa premiação por várias opções feitas por Hooper, que parecem mostrar um profissional inexperiente e maravilhado com o poder que tem em mãos ao conduzir uma produção dessa grandeza. Cada cena parece ter sua assinatura, ao invés de permitir que as filmagens corram de modo a inserir o público na história. Pelo contrário, ele parece chamar atenção para seu imenso talento, como ele deve pensar. E os enquadramentos são tão inusitados, por assim dizer, que quase deixam o personagem de fora. Em algumas cenas, é possível brincar de “Onde está o Wally?”, já que a composição é bem confusa, além de referências bestas de tão óbvias, como os caixões em frente às barricadas.

Rebeldes com causa, mas qual?

Rebeldes com causa, mas qual?

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Aberta a temporada de Caça aos Gângsteres

por Marcelo Seabra

Gangster Squad

O que esperar de um filme sobre mafiosos americanos do fim dos anos 40? Jazz, policiais corruptos, preconceito racial, tiros e muita violência. Tudo isso compõe Caça aos Gângsteres (Gangster Squad, 2013), longa inspirado pelo livro do jornalista Paul Lieberman. Ele relatou os fatos ligados ao combate ao reinado criminoso de Mickey Cohen em sete textos para o jornal Los Angeles Times, que acabaram reunidos em um volume. Muitos dos personagens realmente existiram, mas os acontecimentos não podem ser tão levados ao pé da letra, apenas dramatizando o que pode ter acontecido. Ou não.

Cohen cresceu em meio ao crime e se tornou um boxeador em Los Angeles. Depois de uma curta e mal sucedida carreira no circuito ilegal de lutas, ele começou a trabalhar para nomes mais famosos entre a criminalidade, entre eles Al Capone, e terminou auxiliando o gângster Bugsy Siegel, um dos construtores de Las Vegas. Quando seu mentor foi assassinado, Cohen assumiu os negócios e se tornou cada vez mais violento. Segundo as informações levantadas por Lieberman, foi formado um grupo de policiais que teria que agir fora da lei para conseguir desestabilizar os esquemas de Cohen, já que apenas matá-lo não resolveria – outro tomaria o lugar.

Police Squad

O longa começa quando o Sargento John O’Mara (Josh Brolin, de Homens de Preto III, 2012) é convocado pelo chefe de polícia (Nick Nolte, de Guerreiro, 2011) a reunir o tal esquadrão antigângsteres. Ele chamou a atenção por bater de frente contra colegas corruptos, todos no bolso de Cohen (vivido por Sean Penn, de A Árvore da Vida, 2011). Ele chama outros policiais honestos e durões e forma um grupo que, num primeiro momento, não surte efeito algum. Com o tempo, eles pegam o jeito e começam a atacar de forma mais organizada. O cínico Sargento Jerry Wooters (Ryan Gosling, de Drive, 2011) acaba entrando para o grupo, completando a formação.

Nos anos seguintes à Segunda Guerra, os combatentes que voltavam para casa ou estavam traumatizados, como vemos frequentemente em filmes, ou não sabiam bem o que fazer, como viver. Mais ou menos o que acontece com o protagonista de Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2008), e é exatamente como se sente o Sgt. O’Mara. Josh Brolin acaba um pouco engessado pelo papel, já que o policial é bem quadrado, e deixa o foco para Gosling e Gangster Squad couplePenn. Gosling repete a parceria com Emma Stone (de Amor a Toda Prova, 2011 – ao lado), que vive a garota de Cohen, e mostra um lado mulherengo e relaxado, de quem já acreditou no sistema. Penn, como um ex-boxeador, tem uma maquiagem pesada que o desfigura e ele aproveita para exercitar seu lado mau, abusando de frases de efeito (“Um policial honesto é como um cão raivoso – deve ser abatido”) e caretas. Ele acredita ser um tipo de deus, tamanho é o poder que alcançou.

Vindo de comédias como Zumbilândia (Zombieland, 2009, também com Emma), o diretor Ruben Fleischer mudou de gênero, mas seu estilo continua aparecendo – e lembra Zack Snyder também, com muitos usos de câmera lenta. Como é ambientado em décadas passadas, a estética remete a Watchmen (2009), e o diretor privilegia o estilo em detrimento de realismo. Um tiroteio com metralhadoras, por exemplo, está mais para uma dança do que para uma matança. E o roteiro de Will Beall (da série Castle) também não está preocupado em ser fiel aos fatos, inserindo personagens, mudando a função e a importância de outros e dando até um novo final à história. Os enquadramentos elegantes bebem na fonte dos clássicos de Hollywood, e ajuda ter uma reconstituição de época primorosa e a bela fotografia de Dion Bebe (de Miami Vice, 2009), que faz Los Angeles parecer o paraíso.

Para aficionados pelo gênero policial, é difícil não se lembrar das histórias de James Ellroy, autor que sempre fica nesse mundo corrupto da antiga LA. O clima se assemelha ao universo de LA – Cidade Proibida (LA Confidential, 1997), mas a recepção tem sido bem diferente. As críticas duras que Caça aos Gângsteres tem recebido mundo afora não se justificam, a maioria muito dura. A duração é apropriada, o filme é bem movimentado, alterna momentos engraçados e sangrentos e conta com uma produção detalhista e bem feita. O final é previsível, claro, mas a jornada é interessante o suficiente para valer o ingresso.

Parece que Sean Penn saiu de Dick Tracy de tão deformado

Parece que Sean Penn saiu de Dick Tracy, de tão deformado

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O Lado Bom da Vida podia ser melhor

por Marcelo Seabra

Silver Linings Playbook

Em todas as edições do Oscar, há pelo menos um filme deslocado, que não deveria estar entre os indicados. Não que seja necessariamente ruim, mas não é bom o suficiente para estar entre os destaques do período.  No ano passado, o caso mais gritante foi o choroso Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close, 2011), que trazia vários nomes importantes envolvidos, mas era insípido e friamente calculado para emocionar. Este ano, temos O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), mais um exemplar com bom diretor (David O. Russell) e ótimo elenco (que inclui ninguém menos que Robert De Niro), mas que não passa de bonitinho.

Russell, diretor e roteirista, ganhou bastante visibilidade com a aventura Três Reis (Three Kings, 1999), e apareceu mais ainda com O Vencedor (The Fighter, 2010), que deu Oscars aos coadjuvantes Christian Bale e Melissa Leo, além de emplacar outras cinco indicações. Agora, ele adaptou o livro de Matthew Quick e, mais uma vez, convocou bons atores para ajudá-lo. O protagonista, Bradley Cooper, explodiu para o mundo na comédia Se Beber, Não Case! (The Hangover, 2009) e vem emendando um trabalho no outro. Jennifer Lawrence, que foi indicada pela Academia em seu primeiro papel relevante (Inverno da Alma, 2010), também não anda tendo descanso, com uma grande franquia entre seus trabalhos: Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012). Como os pais de Cooper, temos dois ótimos veteranos: Jacki Weaver (de Reino Animal, 2010) e Robert De Niro (Poder Paranormal, 2012). O resultado desse grande encontro é nada menos que quatro indicações ao Oscar.

Silver Linings Playbook coupleCooper vive Pat Solitano, um sujeito que era pacato até pegar a mulher no banho com um colega de trabalho e espancá-lo até perto da morte. O longa começa com Pat saindo da clínica psiquiátrica depois de oito meses de internação e voltando à casa dos pais, que se veem obrigados a aceitá-lo de volta, já que ele não tem mais outra casa para ir. Com ideia fixa de voltar para a esposa, Pat ignora todos os sinais e avisos de que ela já seguiu adiante e planeja uma forma de se aproximar, já que há uma restrição judicial. No meio do caminho, amigos o apresentam à aparentemente instável Tiffany (Jennifer), uma jovem e atraente viúva meio doida que poderá ajudá-lo com a ex-mulher.

Silver Linings Playbook parentsPersonagens fora dos eixos sempre foram o forte de Russell. O problema é a formulinha que o roteiro segue, facilmente previsível e, às vezes, até irritante. É ótimo ver De Niro novamente sendo indicado a prêmios, já que ele passou anos no piloto automático, mesmo que seja em um personagem muito próximo de outros muitos já vividos. Jacki Weaver não tem tanto destaque que justifique a indicação, mas é sempre uma presença forte. E os protagonistas estão realmente muito bem. Jennifer se firma como uma intérprete afiada e versátil, mostrando talento para a comédia – e até para a dança, mesmo que desajeitada. Cooper também diversifica bastante suas escolhas, indo com facilidade da ação para o suspense para o drama, sem falar na comédia, que o tornou um rosto conhecido. Russell, inclusive, já o convidou para um novo projeto, algo sobre uma investigação do FBI na década de 70.

O Lado Bom da Vida é um filme alegre (em sua maior parte) e traz à frente um cara que tenta ser positivo, afastando os pensamentos ruins da cabeça. A mudança de tom é estranha, as coisas não fluem e, de repente, estamos assistindo a um drama, e volta à comédia novamente – a presença de Chris Tucker, por exemplo, cria momentos nonsense. As relações entre os novos conhecidos são apressadas, enquanto as interações familiares correm de acordo com o que o roteiro precisa. Parece que o livro devia ter um conteúdo ótimo e extenso, e tudo foi reduzido para caber em um filme. Mesmo que tenha ficado longo, faltou muita coisa para dar liga. O resultado poderia ter ficado bem acima da média, mas se contentou em ficar em cima da linha.

Até as brigas são clichê

Até as brigas são clichê

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João e Maria viraram caçadores de bruxas

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Hansel and Gretel Witch Hunters

O mundo do entretenimento vive de fases. Sempre que algo faz um relativo sucesso, a ideia é que aquele filão seja sugado ao ponto de esgotamento até que a nova tendência apareça. Isso é algo que se reflete em todos os campos do entretenimento e, obviamente, Hollywood não ficaria de fora. João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel & Gretel: Witch Hunters, 2012) é o mais recente derivado da nova onda hollywoodiana, aquela de produzir filmes recontando clássicos da literatura mundial – especialmente as popularizadas pelos irmãos Grimm – em uma roupagem mais moldada para agradar à audiência atual, especialmente os adolescentes fãs de obras na linha de Crepúsculo.

Foram repaginadas, nessa moda, Chapeuzinho Vermelho (A Garota da Capa Vermelha, 2011) e Branca de Neve (Branca de Neve e o Caçador, 2012). Poderíamos adicionar aí Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror, 2012), que traz outra versão para a mesma história de Branca de Neve e o Caçador. A diferença entre Espelho, Espelho Meu e os demais é o enfoque: enquanto este é mais uma comédia romântica, os demais tentam trazer uma profundidade e um clima sombrio inexistentes aos contos originais – ainda que o termo “originais” aqui seja mal colocado. Afinal, é fato que os contos da tradição alemã eram originalmente muito mais sombrios do que aqueles popularizados pelos Grimm.

Hansel and Gretel storyDivagações à parte, o diretor e roteirista Tommy Wirkola (de Zumbis na Neve, 2009) usa quase a totalidade da história dos Grimm como premissa. Abandonados na floresta por seu pai lenhador, os irmãos João e Maria se deparam com uma casa feita de doces. Ao entrar na casa, são vítimas de uma bruxa que os escraviza. Maria é posta para trabalhar, enquanto João é preso em uma jaula e alimentado à força. A bruxa, canibal, visa assar e devorar o menino. Assim como no conto original, os irmãos conseguem se aproveitar de um descuido da bruxa – ainda que no filme haja um elemento importante para a trama que é aqui adicionado para que sua história tenha mais consistência – e prendê-la no mesmo forno no qual ela assaria João. A bruxa morre carbonizada e os irmãos saem impunes.

Quinze anos depois, João (Jeremy Renner, de Os Vingadores, 2012) e Maria (Gemma Arterton, de O Príncipe da Pérsia, 2010) são dois famosos caçadores de bruxas que vendem seus serviços a vilarejos e cidades que tenham problemas dessa natureza. Contratados, eles vão parar em uma pequena vila na qual 11 crianças haviam desaparecido recentemente. O xerife do local (Peter Stormare, de O Último Desafio, 2012) diz ter prendido a bruxa, uma habitante local chamada Mina (a modelo Pihla Viitala). Quando se prepara para queimá-la, é impedido pelos irmãos, que ensinam à população local como identificar bruxas de verdade.  Mina é libertada e os irmãos ganham um inimigo na figura do xerife.

Hansel and Gretel FamkeA partir daí, os irmãos partem em busca da verdadeira culpada pelos sequestros e acabam descobrindo-a na figura de Muriel (Famke Janssen, das franquias X-Men e Busca Implacável), uma grande bruxa com um plano ambicioso. Dali a três dias haverá um eclipse lunar, que acontece apenas uma vez por geração. Com o sacrifício de 12 crianças – uma nascida em cada mês – e o coração de uma grande bruxa branca, ela poderá produzir uma poção que tornará as bruxas imunes ao fogo. Se levarmos em conta que na Idade Média milhares – se não milhões – de mulheres foram queimadas pela Inquisição por serem consideradas bruxas, até que a ambição de Muriel faz sentido.

João & Maria: Caçadores de Bruxas é um filme divertido. Ele segue a mesma linha de Van Helsing (2004), ou seja, os figurinos e armas dos caçadores estão bem à frente da tecnologia do período histórico ali retratado. Mas, ao contrário do filme protagonizado por Hugh Jackman, não se leva nem um pouco a sério. Prova disso é o fato de um dos habitantes do vilarejo ter um álbum de recortes dos feitos dos irmãos e atuar como um fã abobado perto deles. A história segue o padrão pra esse tipo de produção, mas há uma preocupação saudável em encher o roteiro com sequências de ação e fica para depois qualquer aprofundamento no passado dos personagens. Há explicações sobre porque todos eles fazem o que fazem e como o fazem que são bastante satisfatórias dentro do contexto desse tipo de filme. As atuações de Renner, Arterton e Janssen são corretas, de forma que, se não impressionam, também não decepcionam.

Se há alguma surpresa no filme, ela está apenas na opção dos diretores por mostrar bastante sangue e um pouco de nudez (na sequência em que Mina e João estão se banhando em um lago), coisas que não estamos habituados a ver nesse tipo de filme, direcionados ao público adolescente.  Outro ponto positivo é o 3D, que se justifica mais do que na grande maioria dos filmes que utiliza esse recurso. No fim das contas, João & Maria é mais do mesmo. Um pouco de diversão, sem muitas surpresas, com uma história cujos buracos no roteiro não incomodam e que tem potencial – já que foi planejado pra isso – para gerar mais uma franquia, dependendo do quanto faturar nas bilheterias. Não é nada que vai mudar a vida de ninguém, mas cumpre seu papel como entretenimento puro e simples. E curto, já são apenas 88 minutos de duração.

Renner entre suas belas colegas, Famke e Gemma

Renner entre suas belas colegas, Famke e Gemma

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Nicolas Cage segue rumo à obscuridade

por Marcelo Seabra

StolenJá vai virar tradição que Nicolas Cage dispute com Adam Sandler o título de pior filme do ano. O que, para fãs do talentoso Cage, é uma tristeza. Isso, se alguém ainda resistir se assumindo fã dele. Com os últimos trabalhos do ator, torna-se uma tarefa bem sádica acompanhar essa carreira. Seria bem possível, por exemplo, pegar o texto sobre O Pacto (Seeking Justice, 2012) e, mudando algumas linhas sobre o fiapo de história, republicá-lo para falar sobre o novo O Resgate (Stolen, 2012). O resultado é o mesmo: jogar uma hora e meia pela janela.

O diretor Simon West volta a trabalhar com Cage, que estrelou seu primeiro longa, Con Air – A Rota de Fuga (1997), logo após coordenar os astros da ação em Os Mercenários 2 (The Expendables 2, 2012). Este, por sua vez, seguiu a interessante refilmagem Assassino a Preço Fixo (The Mechanic, 2011). Dois filmes divertidos que são exceção em uma filmografia bem irregular, marcada por muitos filmes para a televisão e séries. Na maioria, obras feitas sob encomenda, que não exigem muita competência ou imaginação. E o roteiro de David Guggenheim (de Protegendo o Inimigo, 2012) não ajuda em nada: se resume a pegar elementos de várias produções e amarrá-los de qualquer jeito, não se preocupando nada em dar veracidade ou profundidade. Até um filme que se propõe a ser “apenas” um passatempo despretensioso precisa respeitar a inteligência de seu público.

Cage vive um gênio dos roubos que é muito bonzinho, feito sob medida para o público poder torcer por ele, apesar de seus defeitos. Seu parceiro, no entanto, é um maníaco que não pensa duas vezes antes de despachar uma possível testemunha. Pronto: já sabemos o que vai ocorrer daí em diante, estabelecido o antagonismo entre eles. Will e Vincent vão se reencontrar após oito anos e, mesmo vigiado pelo FBI após sair da cadeia, Will vai tentar resolver seu problema com Vincent para que a filha não seja morta pelo outrora amigo. A garota é raptada e presa no porta-malas de um táxi e só será libertada se Will conseguir pagar a Vincent o que era a parte dele no roubo do início, que deu errado e colocou Will atrás das grades. Dividindo-se 10 milhões por quatro, ficaria 2,5 milhões para cada, mas Will enfia na cabeça que deve 10 milhões ao psicopata.

Stolen LucasCage está mais contido que o usual, apenas reagindo, correndo e bolando planos fantásticos. A facilidade e rapidez com que ele coloca em prática um grande roubo a um banco é ridícula, e ele se justifica dizendo que teve oito anos para pensar a respeito. Se Cage não é a pior coisa em cena, o prêmio fica com Josh Lucas. O ator, que já fez coisas constrangedoras, como Instinto de Vingança (Tell-Tale, 2009), bate o recorde como um sujeito que, após perder a perna, se torna frio e não tem mais nada a perder, como descrevem os personagens. Por isso, ele aparece sem dedos, com um cabelão de maluco e várias cicatrizes no rosto, além da perna substituta. Ele é, de longe, um dos piores vilões do cinema, e seu castigo é ter que agüentar a irritante Sami Gayle (da série Blue Bloods), que vive a refém Alison. Completam o elenco principal a bela Malin Åkerman (de Rock of Ages, 2012), que só faz ser bela, e Danny Huston (de Conspiração Americana, 2010), que vive o admirador número um de Will, e curiosamente é o chefe da divisão do FBI que investiga o ladrão.

Com o fracasso de O Resgate nas bilheterias, espera-se que Nicolas Cage comece a peneirar mais os roteiros que chegam a ele. Foram gastos 35 milhões de dólares na produção e arrecadou-se, pelo mundo, pouco mais de 2 milhões em duas semanas de exibição. No Brasil, inexplicavelmente, o longa ganha um destaque inédito em outros países, mas não deve se sustentar por muito tempo. E, a esta altura, Cage já deve ter pago muitas contas, tendo participado de oito filmes em três anos. Esperemos que o futuro não reserve a ele apenas uma participação saudosista em Os Mercenários 3.

Dá para deduzir o que vai acontecer aqui?

Dá para deduzir o que vai acontecer aqui?

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