Ainda Estou Aqui (2024) – indicado em três categorias: Filme, Filme Internacional e Atriz Principal (Fernanda Torres).

No Brasil dos anos 70, em plena ditadura militar, uma família de classe média alta vive uma vida aparentemente tranquila até que agentes não identificados entram na casa e levam o pai (Selton Mello) para interrogatório, deixando a mãe (Fernanda Torres) sem notícias do marido e tendo que criar sozinha os filhos.

A história foi escrita e Ainda Estou Aqui tem três indicações ao Oscar. Fernanda Torres, indicada como Melhor Atriz Principal, já levou o Globo de Ouro, outro feito inédito para o país. Independentemente do que se queira dizer sobre a validade ou idoneidade dos prêmios, o reconhecimento já é um marco inédito. E quem acompanha as intrigas nas campanhas pelo Oscar sabe que as chances de vitória, ao menos em duas categorias, são reais. Ufanismo à parte, o filme realmente é extremamente bem feito, passa uma mensagem forte e necessária e todos os prêmios são merecidos.

Por mais que se conheça a história de Rubens Paiva (já famosa há décadas e tornada ainda mais conhecida pelo livro de seu filho, Marcelo Rubens Paiva, que serviu de base para o filme), é chocante vê-la representada na tela. E com todos os detalhes que a família lembra. Pensar que ela é apenas uma das milhares que o país registrou é ainda mais revoltante. Pessoas entram na sua casa, se julgam acima do bem e do mal e sequer oferecem alguma identificação, lhe resta apenas acreditar que são agentes do governo. O que não diz muita coisa, levando-se em conta que o governo era regido por um ditador escolhido por sua patota, guiado por interesses próprios, tão corrupto e canalha quanto qualquer outro cidadão. Ódio e nojo definem bem!

À frente de um ótimo elenco, Fernanda Torres assume a liderança e dá grande força e dignidade a Eunice Paiva, tentando transmitir todo o desespero que a verdadeira deve ter sentido. Isso, ao mesmo tempo em que tenta passar tranquilidade aos filhos, em idades variadas, nem todos aptos ainda a entenderem o que estava acontecendo. E no cenário extremamente machista dos anos 70, no qual a esposa precisava de permissão do marido para movimentar uma conta bancária.

Até quando faz filme chatíssimo (Na Estrada, 2012) ou sem propósito (Água Negra, 2005), Walter Salles se mostra um diretor de mão cheia. Em Ainda Estou Aqui, ele está em ótima forma, o que justificaria também uma indicação, que infelizmente não aconteceu. O filme cobre o roteiro muito bem e nos situa não só no tempo, com uma reconstituição de época impecável, mas na situação da família, passando mesmo que en passant por todos os envolvidos. É duro ver um amigo de Rubens sofrendo, provavelmente se castigando: poderia ter sido comigo.

Toda a parte técnica de Ainda Estou Aqui cumpre magistralmente a tarefa dada. Tudo se costura, da nostálgica fotografia de Adrian Teijido (de Sergio, 2020) à montagem ágil de Affonso Gonçalves (de Segredos de um Escândalo, 2023), passando por figurino, design de produção, decoração e demais quesitos. E não podemos nos esquecer da trilha sonora, cirurgicamente escolhida para trazer todo o espírito da época. Não é para qualquer um contar com Tim Maia, Tom Zé, Caetano, Mutantes, Erasmo, Roberto… É mais um dos muitos acertos de um dos melhores filmes lançados nos últimos anos.

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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