O Agente Secreto leva o Brasil ao Oscar falando de memória

A ditadura é um assunto caro ao Brasil e ao brasileiro. Se, por um lado, a justiça esqueceu de julgar os envolvidos no regime entre 1965 e 1985, a história não. E O Agente Secreto (2025), mais recente filme de Kleber Mendonça Filho, ajuda contando de um outro modo esse período sombrio.

O longa se passa em um Recife de 1977 mergulhado no carnaval, que alegra sua população e é usado pelos agentes repressores para ocultar as barbáries que cometiam. É nesse contexto e embrenhado nele que Marcelo (Wagner Moura) retorna, mas ainda aparentemente fugindo de algo.

Instalado na pensão de Dona Sebastiana (Tânia Maria), Marcelo se encontra com outras pessoas que precisam fugir ou ao menos se esconder de algo que, no começo do filme, não fica exatamente claro o que é. Em algum momento dos mais de 2h40min de duração, descobrimos que Marcelo, na verdade, é Armando. Um professor com um atrito do passado com alguém de influência no regime que, por conta disso, é perseguido por dois matadores enviados de São Paulo.

É com essa breve sinopse que o filme acontece e onde Kleber Mendonça pode distribuir suas já características marcas. Uma delas é a ótima caracterização da Recife dos anos 70, um trabalho minucioso que nesse ponto lembra seu trabalho anterior, o documentário Retratos Fantasmas (2023).

O cinema, bem como na obra antecessora, é uma espécie de personagem do próprio filme e, a la Tarantino, Kleber sopra cinefilia, enchendo a tela de referências da sétima arte, como o filme Tubarão que de um modo engenhoso se mistura ao imaginário do animal fortemente presente na costa pernambucana. Imaginário que também é trabalhado por Kleber com a Perna Cabeluda. A lenda recifense aqui se mistura com a denúncia dos ocorridos naquela época que, de certo modo, eram omitidos dos jornais locais.

Essa miscelânea de Kleber cria um roteiro que, mesmo com tantas abas abertas, não parece pesar o navegador do filme. Pelo contrário, tudo é construído com calma. Tanto que é possível entender quem reclame dos longos minutos que o filme demora a acontecer e a desenvolver suas tramas. A principal delas é a recuperação da memória de um tempo difícil de recuperar. Armando/Marcelo é uma pessoa que ficou no passado e que pouco se sabe sobre o seu fim, bem como o de sua mãe – algo que ele procura saber melhor no filme – ou mesmo de sua esposa, vivida por Alice Carvalho.

Kleber mostra essa dificuldade em recontar e entender essas histórias “desaparecidas” pela ditadura na figura de duas pesquisadoras que surgem em cenas com cortes bruscos, jogando o filme em um presente opaco e sem a mesma textura do período do filme. Essa quebra e o final mais uma vez trazem justificativas para quem não gostou do filme. Propositalmente Kleber interrompe a narrativa e nos lembra que o final de Armando/Marcelo não é conhecido. E talvez, nunca será mesmo.

Com uma ótima campanha nos Estados Unidos e muita pirraça, O Agente Secreto colocou o Brasil mais uma vez no Oscar. Dessa vez, em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator com Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco, para Gabriel Domingues.

O personagem central, que parece feito sob medida para ele, é vivido por Wagner Moura com muita competência, de modo a justificar sua indicação ao Oscar. Outra que ocupa a tela de carisma e personalidade é Tânia Maria (acima), que não teve campanha para Oscar, mas ganhou o imaginário brasileiro.

A seu modo, Kleber coloca toda textura nacional, em especial a do Recife, na roda de conversa da indústria cinematográfica. E o Brasil conhece outras teias da ditadura, que não agiu apenas no porão do DOI-CODI, mas também no cotidiano pelo país todo. Seja pela burocracia, pela omissão ou mesmo em “pernas cabeludas” que aterrorizaram pessoas então marginalizadas.

Kleber dirige Wagner em cena de O Agente Secreto

Sobre Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.
Esta entrada foi publicada em Estréias, Filmes, Indicações, Nacional, Premiações e marcada com a tag , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *