Netflix volta a Stephen King com O Telefone do Sr. Harrigan

Um dos escritores mais adaptados para o Cinema e TV, Stephen King nem sempre é garantia de qualidade. Muitos elementos bem utilizados na literatura podem se perder na transposição, indo do tosco ao insosso. É nesse último caso que se encaixa O Telefone do Sr. Harrigan (Mr. Harrigan’s Phone, 2022), que parte de um conto do livro Com Sangue e traz dois bons nomes à frente do elenco. O roteiro, no entanto, não se decide entre o drama e o suspense sobrenatural e não chega a lugar algum.

Quando assistimos a um filme como Conta Comigo (Stand By Me, 1986), entendemos logo se tratar de um drama de amadurecimento e acompanhamos com prazer aqueles jovens se aventurando pela cidade. Já em It – A Coisa (2017), temos um palhaço monstruoso e milenar matando crianças, não deixando nenhuma dúvida quanto ao gênero. Ao final da sessão de O Telefone do Sr. Harrigan, não sabemos onde encaixá-lo, e não por ser uma obra complexa, de difícil definição. Por ser de uma total indefinição, lançando temas que não pretende tratar, deixando a certeza de um potencial nunca atingido. Nem arranhado.

No papel principal, temos Jaeden Martell (de It) vivendo Craig, um adolescente que já há cinco anos vai três vezes por semana à casa do Sr. Harrigan (Donald Sutherland (de Ad Astra, 2019) para ler para ele. Passando por vários clássicos da literatura, eles forjam uma amizade na qual cada um contribui de uma forma. Enquanto o milionário aposentado oferece conselhos a Craig, o garoto apresenta modernidades ao amigo. Uma delas é um telefone celular, que permite consultas rápidas e em tempo real a índices financeiros, o que interessa muito a Harrigan.

Se, num primeiro momento, o sujeito não dá valor ao presente, Harrigan logo se rende, ficando grato a Craig. A impressão que temos até aí é de que uma boa atmosfera de terror está sendo construída e teremos uma amizade sobrenatural com consequências assustadoras, algo como em Christine – O Carro Assassino (1983). No entanto, o diretor e roteirista John Lee Hancock passa longe de um John Carpenter. A exemplos de seus trabalhos mais recentes, Os Pequenos Vestígios (The Little Things, 2021) e Estrada Sem Lei (The Highwaymen, 2019), Hancock nunca consegue entregar o que parece estar planejando.

Se a relação entre os protagonistas é crível, deve-se ao bom trabalho dos atores. Sutherland dificilmente fica abaixo do ótimo e leva o jovem colega consigo. Vários outros personagens entram na história, criando ganchos estranhos que se tornam pontas soltas. A relação de Craig com a professora (Kirby Howell-Baptiste, de Sandman), por exemplo, sempre deixa algo no ar, parecendo que ela teria atração pelo aluno. Enquanto isso, Craig tem uma situação mal resolvida com duas colegas, uma que gosta dele e outra que o sentimento parece ser mútuo. Nada é resolvido e as duas logo são deixadas de lado, assim como outros coadjuvantes. Quando sentimos que vai acontecer alguma coisa, as luzes se apagam. A Netflix já acertou em adaptações de Stephen King, mas não foi dessa vez.

O bully parece uma versão endemoniada de Joey Ramone

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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  • Poxa estava interessada, gosto de conferir todas as adaptações dos livros do Rei.

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