Liam Neeson é um assassino sem rastro e sem memória

Em 2008, Liam Neeson estrelou Busca Implacável (Taken) e entrou em um caminho perigoso. Ele passou a alternar produções variadas e cuidadosamente escolhidas com longas de ação descerebrados que fazem com que muitos hoje desmereçam o seu trabalho. Nem tudo está perdido, há coisas boas que merecem a nossa atenção, como A Perseguição (The Grey, 2011) ou Caçada Mortal (A Walk Among the Tombstones, 2014). Só que aí surge um Assassino Sem Rastro (Memory, 2022) e novamente começamos a duvidar de nossa fé no ator.

Nessa nova produção, atualmente em cartaz nos cinemas, Neeson vive um assassino particular contratado por um velho conhecido para eliminar dois alvos. No primeiro, tudo corre bem, mas ele logo descobre que o segundo é uma criança. Ao se recusar a finalizar o trabalho, ele se torna o alvo de uma grande organização de tráfico de mulheres e prostituição. E há um fator complicador: o tal assassino começa a ter sintomas do mal de Alzheimer e já não pode confiar nem na própria memória.

Essa trama aparentemente interessante resultou em um filme divertido, que não é o de Neeson. O livro De Zaak Alzheimer, de Jef Geeraerts, havia sido adaptado em 2003 e originou The Memory of a Killer (ou The Alzheimer Case), do diretor belga Erik Van Looy. A Open Road Films contratou o competente Martin Campbell para dirigir a refilmagem, ninguém menos que o sujeito que comandou dois reboots de James Bond: GoldenEye (1995) e Cassino Royale (2006). Ao mesmo tempo, é o responsável por Lanterna Verde (2011), o que causa certo receio. O roteirista, Dario Scardapane, não tem créditos muito relevantes, sendo a série do Justiceiro o que chama a atenção.

Um elenco liderado por Neeson e que ainda conta com Guy Pearce (de Mare of Easttown – acima) e Monica Bellucci (de 007 Contra Spectre, 2015) certamente chamará público. Pena que são todos mal aproveitados, sem quase nenhuma história pregressa e um desenvolvimento raso de dar dó. A doença do assassino só aparece quando o roteiro precisa, com várias conveniências que começam a se tornar irritantes. Até do título nacional ela foi limada, já que preferiram o genérico Assassino Sem Rastro do que algo que girasse em torno do Memória original.

Assim como acontece frequentemente com Nicolas Cage, ver Neeson em longas como esse é uma tristeza e um desperdício de talento. Com blockbusters como Doutor Estranho no Multiverso da Loucura e Top Gun: Maverick ocupando quase todas as salas de cinema, é complicado que as poucas que sobrem sejam ocupadas por tragédias como Assassino Sem Rastro. Mas uma coisa é certa: é um filme para se assistir no cinema. Em casa, você vai pausar diversas vezes para fazer outras coisas mais atrativas.

A ótima Bellucci é desperdiçada por um roteiro capenga e previsível

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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