A Garota traz versão monstruosa de Hitchcock

por Marcelo Seabra

Do lado de cá da tela, todos se assustaram com Os Pássaros (The Birds, 1963), clássico do mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899-1980). Do lado de lá, as coisas pareciam ser ainda mais horripilantes devido ao comportamento do famoso cineasta, que não se cansava de se insinuar sexualmente para a atriz do longa, Tippi Hedren. Esta é a história defendida por A Garota (The Girl, 2012), longa produzido pela HBO Films, em associação com a BBC, que se baseia em um livro polêmico, The Dark Side of Genius, de Donald Spoto.

O filme, em constante exibição nos canais HBO, começa com Tippi (à direita), vivida por Sienna Miller (de G.I. Joe, 2009 – à esquerda), sendo contratada por Hitchcock (Toby Jones, de Jogos Vorazes, 2012) para estrelar o primeiro longa de sua carreira, que até então era só de modelo. Hitch vinha do sucesso de Psicose (Psycho, 1960) e procurava uma nova loira, já que Grace Kelly havia se tornado princesa e não trabalharia mais no Cinema. Tippi seria a socialite que vai para a pequena Bodega Bay atrás de um namorado em potencial e acaba sendo atacada por diversos pássaros. As aves, inicialmente, seriam mecânicas, mas as verdadeiras acabam entrando em cena, no momento mais tenso do filme (de ambos, na verdade). Os tempos eram outros e um diretor do peso de Hitchcock realmente tinha muito poder, e é retratado como quase o dono da atriz. Julian Jarrold, da primeira parte da ótima trilogia Red Riding (2009), dirige.

Depois de uma série de entrevistas com Jim Brown, assistente de Hitchcock por muitos anos, a experiente Gwyneth Hughes escreveu o roteiro, mas Brown morreu antes do lançamento do longa. A viúva, Nora, foi a público dizer que as palavras do falecido foram distorcidas. Ela disse ao jornal The Daily Telegraph que o marido tinha total admiração e respeito por Hitch (como o diretor era conhecido), que ele tinha um senso de humor inteligente e que, resumindo, era um gênio. Tony Lee, autor de um livro sobre a produção de Os Pássaros, reforça o coro, dizendo que é errado sujar o nome de um homem que não está mais aqui para se defender. Kim Novak, outra loira do diretor, disse que nunca viu nada de errado no comportamento de Hitch e ficou muito triste com as alegações feitas contra ele.

Spoto, consultor do filme, afirma que Hitch (ao lado) era de fato um sujeito sexualmente frustrado e obcecado por suas loiras. E a própria Tippi Hedren deu apoio à produção. Ainda segundo o Telegraph, ela disse, na pré-estreia em Londres: “Não sei se alguma de vocês teve a horrível experiência de ser o objeto da obsessão de alguém. É opressivo e assustador, você descobre que está sendo seguida e espionada. Você é exigida de coisas que nunca concordaria, em nenhuma circunstância”. Com alegações dos dois lados, não se sabe exatamente a verdade, mas é fato que Tippi passou maus bocados com os pássaros das filmagens e que sua carreira acabou quando quebrou o contrato, que ainda duraria mais dois anos. Nesse período, o diretor manteve o passe da atriz e teria recusado todos os convites feitos a ela. Histórias sobre a vida sexual praticamente inexistente de Hitch são conhecidas: ele seria impotente e teria concebido a filha na única relação que teve com a esposa, Alma, que estaria mais para irmã e colaboradora que para amante.

Jones (ao lado), com uma maquiagem pesada, repete o acontecido de alguns anos atrás: em 2005, sairiam duas cinebiografias sobre Truman Capote, e Jones estrelou a menor, que acabou na geladeira para não bater de frente com o ganhador do Oscar Philip Seymour Hoffman. Dessa vez, ele interpreta Hitch no mesmo ano em que Sir Anthony Hopkins faz o mesmo numa obra para o cinema, em mais um desses mistérios de filmes gêmeos. De qualquer forma, mesmo pendendo mais do que deveria para o vilanesco, Jones faz um bom trabalho. Assim como ele, a colega Sienna Miller também foi indicada ao Globo de Ouro por seu trabalho, como uma mulher vitimizada, mas nunca fraca ou frágil.

É impressionante pensar que um gênio do Cinema da grandeza de Hitchcock pudesse ser este monstro desprezível, como foi retratado. Mas, por outro lado, é perfeitamente possível que todos fizessem vista grossa a este comportamento anormal tendo em mente o poder que ele detinha. Mais estranho ainda é perceber que, mesmo tendo passado por diversos abusos durante as filmagens de Os Pássaros, Tippi Hedren ainda filmaria Marnie, Confissões de uma Ladra (1964) com o diretor. O contrato, inicialmente celebrado com a grande oportunidade, se tornaria uma prisão para ela. Como o próprio Hitch diz no filme, ele conseguiu ótimas interpretações da “Garota”, como se referia a Tippi. Mas a que preço?

Jones, como Hitch, orienta a “garota”

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é atualmente mestrando em Design na UEMG. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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  • pra mim ele sempre foi um gênio do cinema um dos únicos que conseguia prender minha atenção do começo ao final do filme..

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