Terapia de Risco seria uma boa despedida

por Marcelo Seabra

Em seu possível último filme para o cinema (será mesmo?), Steven Soderbergh resolveu focar na indústria farmacêutica. Mas ao invés de fazer um longa político, com ataques filosóficos, ele partiu para uma trama engenhosa de suspense, sem tentar enganar o público. O resultado é Terapia de Risco (Side Effects, 2013), terceira parceria do diretor com o roteirista Scottt Z. Burns (de O Desinformante e Contágio) que traz bons nomes no elenco e um resultado bem interessante.

Com uma carreira bem movimentada nos últimos anos, Soderbergh anunciou em 2010 que já tinha planos de parar, e seria bem agora. Ao menos, com Cinema, já que parece ter se cansado de lidar com os orçamentos gigantescos necessários atualmente e com a expectativa de lucro que eles geram. Seu projeto seguinte, Behind the Candelabra (2013), estreia este mês na HBO americana e já foi bem recebido em Cannes. Parece que o diretor vai passar a trabalhar na TV, comandando uma série, talvez. Em entrevistas, ele diz que pretende comandar uma temporada inteira, só não se sabe do que.

Em Terapia de Risco, ele traz como protagonista Rooney Mara, a bonitinha que convenceu a todos como a hacker esquisita de Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011). Ela vive Emily, a jovem esposa de um executivo do mercado financeiro que amargou quatro anos de cadeia por lidar com informação privilegiada. Quando Martin (Channing Tatum, de Magic Mike, 2012) volta para casa, parece que tudo vai ficar bem, mas é aí que a depressão bate mais forte e Emily precisa de um acompanhamento com o Dr. Banks (Jude Law, também de Contágio). Entre as várias atividades de sua rotina corrida, Banks decide tratar de Emily e usa uma droga nova, apesar dos efeitos colaterais que ela possa ter.

No elenco, Mara é realmente o grande destaque. Ela convence como uma vítima do “mal do século” e as coisas vão tomando um rumo que nos faz nos preocupar com ela, que realmente parece estar em risco. À medida que a ação vai se desenrolando, novos e inesperados conflitos se apresentam. Em determinados momentos, não parece mais o mesmo filme que passava há minutos. Law, como o psiquiatra obcecado pelo caso da paciente, usa sua habitual fleuma britânica, que geralmente funciona e aqui não é diferente. Tatum, o muso atual de Soderbergh, não tem muito o que fazer, se resignando ao papel de marido. Completando o quadro, há uma Catherine Zeta-Jones (de Rock of Ages, 2012) no piloto automático que não fede nem cheira.

Ninguém realmente acredita que Soderbergh vai deixar o Cinema de vez e se dedicar exclusivamente à pintura e à TV. Mas ele pretende mesmo dar uma pausa, já que concluiu o último de seus projetos pendentes. Se Terapia de Risco for o derradeiro, terá sido uma boa hora para parar: por cima. E o público só terá a lamentar.

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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  • Gostei bastante do resultado também. Mas, como voce bem comentou, parece mesmo que vemos dois filmes diferentes.

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