mãe!: uma reflexão (sem spoilers)

por Marcelo Seabra

Se Darren Aronofsky fosse um chef de cozinha, ele teria feito um prato vistoso e extremamente saboroso. Mas, mesmo depois de comer, você não saberia dizer o que tem entre os ingredientes. E mesmo ele explicando a receita, você ainda discordaria, dizendo ter porco onde ele alega ter colocado frango. Ou algo assim. E ele chamaria o prato de mãe! (mother!, 2017). E teria gente pelo mundo considerando-o o pior prato já feito no mundo da gastronomia.

Essa metáfora representa bem o que tem acontecido com o público ao sair de uma sessão de mãe!, E o filme fica na sua cabeça por bastante tempo. Quando você pensa ter entendido uma parte, outra não faz sentido e você volta ao início. O diretor, em entrevistas, contou o que o levou a escrever esse roteiro e o que ele tinha em mente, quais as referências. Não necessariamente você vai concordar, bolando outra possível explicação. E essa é uma das máximas da arte: ela te permite interpretar, independente do que o autor planejou. O que Carlos Drummond de Andrade tinha em mente quando escreveu determinado poema não importa quando tenho suas palavras e a minha capacidade de leitura.

O elenco do filme está muito adequado e cumpre bem sua função. Jennifer Lawrence (Oscar por O Lado Bom da Vida, 2012) é a jovem esposa de um poeta (Javier Bardem, Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez, 2007) que se esforça para deixar tudo facilitado para o marido, que passa por um bloqueio criativo e se isola para tentar escrever. A chegada de um senhor desconhecido (Ed Harris, de Westworld, indicado a quatro Oscars) traz um pouco de ar fresco, com suas histórias. Mas a esposa não entende de onde ele veio ou quem ele é. E a situação só piora quando aparece a folgada da mulher dele (Michelle Pfeiffer, de O Mago das Mentiras e indicada a três Oscars). Como pode-se perceber, são todos atores prestigiados na indústria, com carreiras bem estabelecidas.

Se Aronofsky escolheu a dedo seus atores, isso fica mais óbvio com Lawrence. Namorados do lado de cá da tela, o diretor parece fixado na atriz. A câmera custa a deixá-la de lado, mesmo que por alguns segundos. Ela é a atração principal do filme e ele parece confiar muito na beleza dela, que deve hipnotizar também o público. Num primeiro olhar, ela e Bardem podem formar um casal um pouco estranho, mas isso é rapidamente assimilado, já que era mesmo para ser assim, com uma diferença de idade grande. O que acontece, inclusive, na realidade.

Outros autores, como um David Lynch, fazem questão de entregar obras fechadas, que mal permitem alguma interpretação. E não faltam defensores para dizer que a arte não precisa de lógica ou explicação. Talvez, seja essa a razão de tantas pessoas terem reclamado de mãe!: a falta de uma saída clara. Mas Aronofsky não complica tanto. Ele apenas não facilita. Se houver elementos comprobatórios em cena, a teoria do espectador é válida. E várias já apareceram. O que é certo é que trata-se de uma alegoria, tudo representa outra coisa. E, se você não conseguir uma explicação para o pó amarelo, não se preocupe. Não se prenda aos detalhes.

O outro casal, formado por Harris e Pfeiffer

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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