Longa nos leva de volta a Downton Abbey

por Marcelo Seabra

Poucas pessoas no meio artístico falam do estilo de vida britânico com tanta propriedade quanto Julian Fellowes, o oscarizado roteirista de Gosford Park (2001). Em 2010, ele criou uma série para a televisão que segue por um caminho parecido com o do longa que escreveu. Downton Abbey, em suas seis temporadas e cinco especiais de Natal, acompanhou o dia a dia de uma família de nobres e dos serviçais da enorme casa. No Natal de 2015, os fãs ficaram órfãos, sendo recompensados em 2019 por mais um episódio da saga, agora em longa-metragem e na tela grande.

O novo filme, chamado simplesmente Downton Abbey, nos leva de volta àquele universo com o mesmo clima da televisão. A diferença é o escopo: uma história mais longa, de maior fôlego, com a oportunidade de jogar luz em vários personagens, dando continuidade às jornadas deles. Não se trata de apenas empurrá-los adiante, mas de presentear o público com algumas conclusões. O diretor, Michael Engler, se mostra à vontade, o que se deve a também ter trabalhado na série. O resultado, mais do que satisfatório, atende também os não iniciados, já que é possível acompanhar sem experiência prévia.

Na TV, os Crawleys nos são apresentados a partir de 1912, ano do naufrágio do Titanic. A série segue até o fim de 1925, mostrando os percalços da família e a dificuldade para manter o casarão que dá nome à atração. O filme se passa em 1927, quando uma visita real vai movimentar os habitantes de Downton Abbey. O Conde de Grantham, Robert Crawley (Hugh Bonneville), recebe uma carta do Palácio de Buckingham e os preparativos começam, mobilizando os personagens, cada um dentro de suas atribuições.

Para os fãs mais antigos, é a oportunidade de rever vários rostos conhecidos. Para quem caiu de paraquedas, é a chance de conferir uma obra bem amarrada, com um roteiro muito interessante que explora magnificamente os costumes dos ingleses do entreguerras. Cenários idílicos, figurinos perfeitos e até toques de suspense são bônus para o espectador. Isso tudo além de um elenco fantástico, com nomes como Maggie Smith, Imelda Staunton, Elizabeth McGovern, Michelle Dockery, Jim Carter, Mark Addy e vários outros. E Matthew Goode, que anda muito ocupado, conseguiu apenas fazer uma ponta.

Os diálogos afiados confeccionados por Fellowes trazem, além de tiradas espirituosas distribuídas por toda a sessão, uma discussão muito rica a respeito de expectativas. O tempo todo aparecem situações em que alguém espera algo de alguém, e é criada uma sinuca em que o envolvido fica sem saber o que fazer. Tudo isso, com um sotaque irresistível e pontuado por uma trilha grandiosa. Personagens inteligentes, tridimensionais, nos conduzem por intrigas palacianas entre as várias classes envolvidas. Os ciúmes entre as duas equipes de empregados são impagáveis! Mal podemos esperar por um novo episódio da saga de Downton Abbey.

Nobres e empregados ganham o mesmo destaque

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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