por Marcelo Seabra
Algumas experiências no Cinema aparecem de vez em quando e, por mais interessantes que possam parecer, nem sempre dão muito certo. Richard Linklater, diretor de longas populares como Escola de Rock (School of Rock, 2003) e a trilogia de Jesse e Celine, propôs algo inovador: acompanhar um protagonista e seus coadjuvantes por 12 anos, filmando um total de 39 dias. Há projetos que dividem algumas similaridades, como os encabeçados por Lars von Trier (Dimension, já abandonado) e Michael Winterbottom (Todos os Dias, 2012), mas nenhum chamou tanta atenção quanto Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), em cartaz atualmente.
Quando tinha seis anos de idade, Ellar Coltrane se tornou o ocasional filho de Ethan Hawke e Patricia Arquette, além de irmão de Lorelei Linklater (filha do diretor), e esse núcleo passou a ser acompanhado pela câmera cúmplice de Richard, que capta aquelas vidas de modo muito natural e dá a impressão de ter sido um processo muito simples. Ao invés de parecer um reality show, Boyhood segue um roteiro bem determinado, com falas que só parecem ser improvisadas, e coloca o espectador ao lado de Ellar e companhia, ao invés de olhando de fora. Hawke, parceiro constante do diretor, envelhece claramente durante a projeção, ganhando muitas linhas de expressão, enquanto Arquette (mais lembrada pela série Medium) tenta esconder a maturidade com maquiagem e cortes de cabelo, como qualquer mulher faz. A edição faz com que as épocas fluam, tornando invisíveis os saltos temporais.
Coltrane vive Mason Jr., um garoto que vive com a mãe e a irmã e enfrenta dramas cotidianos comuns. Seu pai aparece depois de algum tempo distante e passa a fazer parte da vida deles, pulando entre empregos, e a mãe luta para estudar e pagar as contas. E, assim, todos vão crescendo, e temos o foco no garoto, vivendo os desafios de amadurecer, se adaptando a novas casas, cidades e pessoas. Algumas passagens são bem sensíveis, muita gente deve se identificar, e outras ficam no banal. Não há uma trama a se desenvolver ou a se resolver, nenhum suspense ou tensão. Apenas a vida passando, e Linklater é inteligente ao explicar muita coisa visualmente, sem precisar criar falas que explicitem como determinado personagem mudou, ou para onde uma situação evoluiu. Não há o brilhantismo que já se espera de Linklater quanto à trilha sonora, que usa basicamente músicas do anos 2000, fora um ou outro clássico.
Para movimentar as coisas, o diretor e roteirista cria alguns conflitos, normalmente ligados à vida romântica da mãe. A vida do pai também consegue caminhar, como era de se esperar, e ambos os intérpretes são competentes. É interessante, ainda que um pouco cansativo em seus 165 minutos, acompanhar o introspectivo Mason, e Coltrane é carismático o suficiente para servir como elo entre todos que compõem o quadro. Fica a dúvida se uma maquiagem eficiente e atores diferentes não resolveriam o caso, ao invés de esperar tanto tempo para finalizar o longa, e se a atenção atraída por Boyhood não se deve somente à curiosidade deste artifício. Feito de uma forma convencional, ainda estaria na lista de melhores do ano de tanta gente?
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