Repescagem 2025: Jay Kelly

Jay Kelly, disponível na Netflix, é um filme que se coloca num lugar delicado entre a comédia e o drama, com uma reflexão sobre a vida sob os holofotes. George Clooney (de Tudo Pelo Poder, 2011) interpreta Jay, uma estrela de cinema madura que, em uma viagem pela Europa com sua equipe e, em especial, com seu empresário, Ron, começa a confrontar não só o incerto futuro de sua carreira, mas também as dificuldades nas relações pessoais com quem é mais próximo. Parece tão familiar quanto previsível principalmente para quem já viu obras do diretor Noah Baumbach (de História de Um Casamento, 2019), que passam por territórios parecidos.

A escolha de Clooney para o papel título é bastante acertada. Ele carrega no olhar e em sua presença em cena uma espécie de cansaço existencial que casa com a proposta do filme: um homem famoso e bem-sucedido que parece pouco certo de quem ele é fora daquela persona pública. Essa tensão implícita entre a imagem e o sujeito real é o que sustenta grande parte da narrativa, e Clooney a explora com gestos comedidos, que evitam o melodrama.

O roteiro, coassinado por Baumbach e Emily Mortimer (a Candy do filme), se apoia em diálogos que muitas vezes atingem um ritmo ágil e espirituoso, e revelam camadas de relacionamento e frustrações de forma mais eficiente do que os momentos silenciosos. Há um prazer claro em ouvir personagens articularem suas inseguranças e contradições, e é nesse terreno verbal que Jay Kelly encontra seus melhores instantes.

No entanto, essa fluência nos diálogos não impede que a trama siga caminhos familiares demais. A progressão da crise pessoal de Jay, as tentativas de reconciliação com familiares distantes e o percurso quase ritualístico pela Europa acabam por dar ao filme um contorno previsível: sabe-se cedo demais onde cada arco irá desembocar, ainda que o como seja interessante de acompanhar.

A valorização do papel do empresário vivido por Adam Sandler (de Jóias Brutas, 2019) é uma das escolhas mais sensíveis do filme. Ron não é apenas o suporte prático de Jay, ele representa uma espécie de espelho moral e emocional, alguém que é leal e acredita em Kelly, fazendo o lado bom dele aparecer, e não apenas o ego. A interação entre os dois acrescenta uma textura humana que, em muitos momentos, enriquece o que poderia ser apenas mais um estudo de vaidade hollywoodiana.

Embora simpático, Jay Kelly é um filme mediano, que trabalha temas relevantes, como identidade, legado, arrependimento, sem nunca ultrapassar a fronteira do familiar. É um filme cativante, a que se assiste com interesse, mas cuja previsibilidade narrativa e hesitação em aprofundar de forma mais ousada suas propostas deixam a sensação de oportunidade apenas parcialmente aproveitada.

Clooney empresta seu carisma ao personagem título

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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