O Último Ritual encerra os trabalhos dos Warren no Cinema

Ao contrário do que muitos pensaram há uns anos, o terceiro Invocação do Mal (The Conjuring) não concluiu as aventuras da família Warren no Cinema. O quarto filme, O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites, 2025), chega essa semana aos cinemas prometendo, esse sim, levar a extrema unção à história de Ed e Lorraine. O problema, que já derruba as expectativas acerca do projeto, é o nome do diretor: Michael Chaves comandou o longa anterior, A Ordem do Demônio (The Devil Made Me Do It, 2021), bem inferior aos dois primeiros, além das bombas A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona, 2019) e A Freira 2 (The Nun 2, 2023).

Com esse currículo vergonhoso, Chaves dirige um roteiro escrito por um veterano dos dois longas anteriores (David Leslie Johnson-McGoldrick) e pelos responsáveis por A Freira 2 (Richard Naing e Ian Goldberg). Nada disso conta ponto a favor. O ponto positivo responde pela dupla Patrick Wilson e Vera Farmiga, novamente vivendo os protagonistas, sempre com seriedade e, quando possível, leveza. É pelos dois que a franquia continua atraindo público, e eles seguem ajudando famílias desconhecidas importunadas por forças demoníacas.

Dessa vez, no entanto, as coisas se tornam mais pessoais. Com uma nova atriz no papel (Mia Tomlinson, de O Reino Perdido dos Piratas), a filha Warren, Judy, começa a ter dificuldades em suprimir as habilidades que herdou da mãe. Vendo e sentindo a presença dos mortos, a jovem alterna momentos de felicidade ao lado do namorado, Tony (Ben Hardy, de Bohemian Rhapsody, 2018), e o pânico de ser perseguida por espíritos decrépitos com intenções maldosas. Tony chega na família com cautela, evitando perguntar, apesar de curioso, sobre as atividades dos futuros sogros.

Como nos filmes anteriores (e em todos os 007), a sessão começa com um caso separado e logo chega ao presente da história, 1986. A família vítima da vez é apresentada e, nesse ponto, o filme é bem sucedido. Se aprofundando nas famílias Warren e Smurl, Chaves se mostra competente ao desenvolver as relações entre eles e alterna passagens engraçadas e tenras, preparando o terreno para o esperado terror. Ele deveria ficar no drama.

E é aí que as coisas se perdem: como é frequentemente observado no gênero, é fácil derrapar na busca desmedida por sustos, com cenas inconsistentes, efeitos sonoros pavorosos e decisões burras. Para não dizer apelativas, como enfiar a boneca do demônio Annabelle no meio desse caldo. Há uma rápida referência a “o Homem Torto”, personagem lançado no segundo filme e estranhamente abandonado. Em uma casa onde moram oito pessoas, acontece muito de não ter ninguém em momentos-chave, e a luz falha quando necessário. Tudo muito propício para o roteiro, mas por outro lado enfraquecendo-o e afastando o público. E o final é longe de ser satisfatório. As coisas só pioram.

Não tão terrível quanto a renegada Chorona (que deixou de ser considerada parte do Universo Invocação do Mal) ou A Freira 2, esse Último Ritual acaba entrando no mesmo nível de mediocridade de A Ordem do Demônio. A franquia começou muito bem nas mãos de James Wan, que seguiu apenas como produtor (e uma participação especial insistente) e a entregou a alguém que não estava à altura da tarefa. Ou não acompanhou como deveria. Se continuasse com Wan à frente, seria uma série a se acompanhar indefinidamente. Se é para ser tocada por qualquer mercenário em busca de bilheteria, é melhor encerrar mesmo.

P.S.: Talvez inspirado pelos filmes de heróis, já que conta com a presença do produtor Peter Safran (da DC), o longa inexplicavelmente deixa uma informação para o final dos créditos. Nada que faça falta. Não espere um encontro dos Warren e John Constantine.

Chaves mais uma vez afunda um filme da franquia

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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