Free Guy coloca Ryan Reynolds em videogame

O amor, quando chega, tira a pessoa do marasmo, da zona de conforto. É exatamente o que acontece com Guy, um caixa de banco que tem como grande momento de seu dia beber um café gostoso e quente pra danar. Ao se apaixonar, ele segue o alvo de sua paixão e acaba descobrindo algo sobre si mesmo: ele não passa de um personagem de um jogo de videogame. E o pior: nem é dos “jogáveis”.

Um NPC é um coadjuvante em um jogo, uma figura que está ali só para cumprir tabela. Como um bancário que apenas ocupa um lugar e se joga no chão em caso de assalto. Esse é Guy, o protagonista de Free Guy – Assumindo o Controle (2021), um sujeito que não só parece estar no piloto automático, ele está. Enquanto isso, outros personagens de seu universo cumprem missões complicadas e vivem uma vida de heróis. Esses são controlados por jogadores, pessoas que compraram o jogo Free City e ajudaram a enriquecer o babaca responsável, Antwan (Taika Waititi, de Jojo Rabbit, 2019).

Quando se apaixona, Guy cria coragem para reagir a um assalto e retirar do assaltante os óculos escuros que parecem conceder poderes especiais ao portador. Só assim conseguiria ir atrás de sua musa. Mas ele descobre que a realidade em que vive não é bem uma realidade. É quando ele começa a entender melhor o que está acontecendo. E Molotov Girl (Jodie Comer, de Killing Eve), a eleita, pretende provar que Antwan roubou o jogo que ela e o amigo Keys (Joe Keery, de Stranger Things) criaram.

Free Guy cria um universo com regras próprias que funcionam bem e são mantidas. Mas os programadores, do lado de cá, podem mudar a seu gosto, de qualquer forma que traga mais dinheiro pro caixa da empresa. Ou que ajude a manter a integridade do jogo. Vale inserir novos códigos, personagens ou cenários. Ou destruir tudo.

No meio de tudo isso está Ryan Reynolds, nosso eterno Deadpool, que não quer ser lembrado como Lanterna Verde e que consegue se passar por panaca como poucos. Guy acorda todos os dias para a mesma realidade, e Reynolds faz sempre uma cara de quem está descobrindo o mundo. E responde à altura quando é hora de Guy abrir os olhos, assimilando as rápidas mudanças em sua realidade. Jodie Comer, Joe Keery e Taika Waititi são ótimos em seus papéis, mas Free Guy existe por causa de Ryan Reynolds.

Shawn Levy, um dos produtores de Stranger Things, dirige Free Guy como uma aventura genérica, que conta mais com o carisma de seus atores e personagens do que com uma marca de um autor. Os roteiristas, Zak Penn (de Jogador No 1, 2018, e diversos filmes de heróis) e Matt Lieberman (das animações A Família Adams, 2019, e Scooby!, 2020), fazem a parte deles desenvolvendo o conceito e amarrando possíveis pontas soltas. O resultado é divertido, um passatempo criativo que não deve durar na memória. Mas não se surpreenda se vier uma sequência por aí.

Reynolds, o diretor e o elenco de Free Guy

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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