Depp volta ao universo de Hunter Thompson

por Marcelo Seabra

É fato sabido que Johnny Depp era amigo do jornalista e escritor Hunter S. Thompson. Ele inclusive protagonizou a adaptação de Medo e Delírio (de 1998), vivendo um dos vários alter-egos que Thompson criou. Na animação Rango (2011), o camaleão dublado por Depp era claramente inspirado em Thompson. Agora, o ator resolveu trabalhar no primeiro livro que o amigo escreveu, que supostamente estava escondido em algum lugar da casa onde ele morava e onde acabou tirando sua própria vida, em 2005.

O livro só foi publicado com o apoio de Depp, que não perdeu tempo e pegou para si o papel principal. Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary, 2011) começa com a chegada de Paul Kemp a Porto Rico. Desiludido com o mercado de trabalho nos Estados Unidos (ou com o filme muito queimado, não se sabe), Kemp decide se candidatar a uma vaga no maior jornal de San Juan –  o que não significa muita coisa. Após uma rápida entrevista com o editor (Richard Jenkins, de Amizade Colorida, 2011), tudo está acertado e Kemp tem como missão começar pela coluna de horóscopo. A situação do jornal é tão precária que logo ele recebe outras tarefas.

Nesse meio tempo, Kemp é convocado por um investidor americano que vive numa belíssima casa à beira da praia (o Duas Caras Aaron Eckhart – ao lado) para ajudar em um empreendimento imobiliário em uma ilha paradisíaca da região. E o tal sujeito tem uma namorada linda (Amber Heard, de Aterrorizada, 2011) que milagrosamente se encanta com Kemp, demonstrando estar cansada do figurão (ou seriam segundas intenções?). Assim, nosso protagonista segue seus dias entre o trabalho oficial, o bico sigiloso, o belo interesse amoroso e muito rum, bebida muito popular em Porto Rico.

Como se trata de um texto antigo de Thompson, o máximo que os personagens usam para se intoxicar é a bebida alcoólica, o que já fica claro no título (em ambos). As drogas de Medo e Delírio, que trouxeram notoriedade ao escritor, devem ter sido descobertas por ele depois. E, como parece desde o início, é realmente uma história com traços autobiográficos, apesar de várias liberdades serem tomadas. O que vemos no filme é uma versão atenuada, mais otimista, do que ele realmente viveu, e Depp se beneficia da proximidade entre eles, chega até a imitar o jeito de falar de Thompson. O ator parece levar o trabalho muito a sério, com muito respeito pelo falecido. Talvez, esse seja até um defeito do longa, Depp não se permite ir muito longe para se manter fiel ao Kemp literário.

A ideia de um diário é bem apropriada a Diário de um Jornalista Bêbado. Não temos propriamente um roteiro bem definido. O diretor e roteirista Bruce Robinson (que escreveu Os Gritos do Silêncio, de 1984) se limita a seguir a visão de Thompson, que narra o dia a dia naquela cidade pelo ponto de vista constantemente enebriado de seu herói. Alguns fatos não ficam muito claros e Kemp parece não se importar. Ele e os colegas Sala e Moberg (Michael Rispoli e Giovanni Ribisi) saem de uma enrascada e entram em outra, gerando momentos divertidos. E o filme se resume a isso: situações interessantes e boas interpretações. Nada brilhante, mas vale a conferida.

Depp, Rispoli, Ribisi e a moto envenenada

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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