De Niro ainda guarda grandeza

por Marcelo Seabra

É muito gratificante ver que Robert De Niro ainda tem, lá dentro, aquele talento todo que nos acostumamos a ver. Nos últimos anos, com várias bobagens no currículo (como Poder Paranormal, 2012), muitos devem ter desistido de acompanhar o ator, se prendendo apenas a seus trabalhos mais antigos. Em A Família Flynn (Being Flynn, 2012) ele defende com paixão seu personagem, para a alegria do espectador, e é acompanhado por um colega de mesmo nível, Paul Dano, do recente e igualmente bom Ruby Sparks (2012). Julianne Moore (de Amor a Toda Prova, 2011), com menos tempo em cena, completa a complicada família do título, que está disponível nas locadoras.

Nick Flynn (Dano) tem seus vinte e muitos anos, pretende ser escritor, mas segue pegando as oportunidades que aparecem. Na verdade, essa vontade de ganhar a vida com literatura é influência do pai, Jonathan (De Niro), que nunca foi presente e sempre se disse, por cartas, um escritor de mão cheia. Na verdade, Jon é um ninguém que, após cumprir pena, nunca se acertou em um emprego por se achar demais para qualquer coisa, e não parou em um lugar. Em sua cabeça, ele é um enorme talento que logo será descoberto, mesmo que os anos avancem e nada aconteça. “Tudo que escrevo é uma obra prima”, ele diz.

Depois de jogar o astro na fogueira em Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família (Little Fockers, 2010), o diretor Paul Weitz compensa De Niro com um papel interessante, dramático e denso. Com American Pie (1999) como estreia, ninguém esperaria algo muito profundo de Weitz, mas o cineasta e roteirista se alterna entre projetos interessantes (como Um Grande Garoto, 2002) e bobagens dispensáveis. O livro de memórias do próprio Nick Flynn, Another Bullshit Night in Suck City, serviu como base para o roteiro, e dessa vez Paul não contou com a colaboração do irmão, Chris.

Como um dos trabalhos de Jon é dirigir um táxi, é inevitável associá-lo a Travis Bickle, de Taxi Driver (1976), também interpretado por De Niro. Talvez, seja uma versão menos desajustada e com delírios de grandeza, e podemos imaginar o que teria sido de Travis ao envelhecer. Dano também tem uma grande oportunidade de mostrar seu talento. Nick tem sua vida bagunçada pela repentina aparição do pai e a proximidade traz conflitos que podem derrubá-lo. Aparecendo nos flashbacks, Julianne Moore vive a sofrida mãe de Nick, uma mulher trabalhadora que desistiu de esperar pelo marido e foi à luta para criar o filho. Completando o elenco, merece destaque Olivia Thirlby (a Juíza Cassandra de Dredd, 2012), como a (quase) namorada de Nick, e Wes Studi (o Sagat de Street Fighter, 1994, lembra?), que vive o encarregado pelo abrigo para moradores de rua.

“Não importa o quanto você é bom, ninguém pode matar uma pessoa com palavras”, diz Jon Flynn. Um filme tampouco tem esse poder. Mas A Família Flynn pode levar a boas reflexões sobre envelhecimento, paternidade e a velha questão a respeito do nosso lugar no mundo. Pode parecer muita coisa para uma produção hollywoodiana de 100 minutos, mas é por aí. De brinde, ainda temos uma boa trilha sonora de Badly Drawn Boy.

“Are you talking to me?”

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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