Cinema transcendental leva Kardec às telas

por Sônia Seabra & Marcelo Seabra

Dando continuidade aos longas de teor espírita, o chamado cinema transcendental, já pode ser conferido nas telas O Filme dos Espíritos (2011). Uma realização da Mundo Maior Filmes, produtora ligada ao Centro Espírita Nosso Lar e às Casas André Luiz, a obra chegou a 144 salas no Brasil. O número é quase um terço das salas que exibiram Chico Xavier (2010), o que já indica tratar-se de um filme voltado a um segmento mais específico do público.

Com roteiro inspirado pelo Livro dos Espíritos, obra fundamental para a doutrina espírita, O Filme dos Espíritos acaba se aproximando de um romance espírita. Quem está acostumado com este tipo de leitura vai logo se interessar pela história de Bruno (Reinaldo Rodrigues), um professor de psicologia que fica viúvo cedo. Ao ser despedido, Bruno chega ao fundo do poço e o suicídio passa a ser uma possibilidade mais forte. O contato que passa a ter com o Livro dos Espíritos e com adeptos da doutrina faz com ele tenha um ponto de vista novo, como normalmente acontece nesses romances.

Os vários personagens apresentados, entre flashbacks e cenas no presente, vivem diversas subtramas que nem sempre se justificam, mas geralmente trazem novos elementos ao centro do filme, mostrando que o passado pode trazer muitas respostas. Se a vida após a morte existe, as almas que estão do outro lado podem ter influência sobre os vivos. Além de trazer várias destas ideias, presentes no livro, o longa chega a mostrar frases curtas extraídas diretamente das páginas, reforçando sua ligação com o livro inspirador.

Depois de viver o médium Chico Xavier duas vezes, devido à semelhança física entre eles, o grande ator Nelson Xavier parece realmente ter sido tocado, e volta ao gênero. Bem diferente de Chico, ele vive um professor de Bruno que tinha muito apreço por seu aluno e o ajuda no momento difícil. Ana Rosa, que vive a esposa de Xavier, é o outro destaque do elenco. E Rodrigues também merece elogios, já que concentra em si o peso da trama e se sai bem até nas cenas mais cansativas, em que está alcoolizado.

O Livro dos Espíritos foi publicado em 18 de abril de 1857 e difundido pela Europa durante o século XIX. Allan Kardec, pseudônimo do educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, estudou fenômenos de origem mediúnica e reuniu todas as suas observações e conclusões em quatro livros, compondo a obra que seria a base de toda uma doutrina religiosa. Proibidos em vários países, os livros acabaram se popularizando no Brasil à época da Segunda Guerra Mundial.

Algumas críticas disponíveis na internet já trataram de desancar O Filme dos Espíritos, tachando-o de confuso e mal editado. E os problemas existem, sim, como efeitos sonoros fora de propósito, a trilha sonora dramática e exagerada e alguns personagens mal desenvolvidos. Mas, além de belas paisagens, o filme traz o que mais importa a seu público-alvo: uma mensagem de esperança, de redenção.

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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