Prime Video joga a culpa nas mulheres

Em 2015, a escritora Andrea Mara foi buscar o filho pequeno, que havia ido brincar com um amiguinho da escola, e se deparou com uma casa vazia. A cabeça começou a imaginar vários cenários, todos desesperadores, mas o engano foi logo esclarecido: a família havia se mudado, as crianças estavam sãs e salvas em outro endereço. Isso foi o suficiente para Mara imaginar toda uma trama e lançar o livro All Her Fault, agora adaptado para uma série premiada do streaming Peacock.

“E se…?” é uma ótima forma de exercitar a imaginação e criar uma obra de suspense. Marissa Irvine é mulher ocupada que se divide entre cuidar das finanças de clientes poderosos e de seu filho. O marido, Peter, parece achar que só ele tem obrigações no trabalho, e deixa todo o resto com a esposa. Num desses dias corridos, o pequeno Milo vai direto da escola para a casa de um coleguinha para brincar. A mãe, ao buscá-lo, se depara com uma senhora que não conhece nenhum dos envolvidos. Está formado o ponto de partida do livro e da série, cujos oito episódios estão disponíveis no Prime Video.

Premiada com o Critics Choice Awards pelo papel, Sarah Snook (acima, com Dakota Fanning) encabeça o elenco da atração. Bastante premiada pelo sucesso Succession, Snook vive Marissa, que se vê em um pesadelo que assombra mães e pais: o desaparecimento do filho. Jake Lacy, muito lembrado por The Office, fez um papel parecido em The White Lotus: um marido mimado, que quer o universo girando em torno do umbigo dele. Além de deixar todas as responsabilidades relacionadas ao filho e à casa nas costas da esposa, ele ainda se acha na posição de cobrá-la e criticá-la.

Em entrevistas de divulgação, a escritora enfatiza as relações entre as mulheres da história, reforçando que ela própria tem muito apoio de sua rede. O que mais chama a atenção, no entanto, é o papel dos homens da trama: todos são figuras críveis, bons amigos para outros homens, mas verdadeiros canalhas nos relacionamentos amorosos. O título, que pode ser traduzido como A Culpa É Toda Dela, é muito feliz no uso do pronome possessivo: “dela” indica que a culpa é sempre de uma mulher. Essa culpada pode variar, ou serem todas, mas a culpa nunca é de um homem. Simplesmente porque eles não se responsabilizam.

Os episódios de All Her Fault são bem pensados para prender o espectador, que provavelmente vai passar a noite acordado, emendando um no outro. O volume de segredos que vão sendo revelados é algo assustador, e tudo parte de uma situação bem corriqueira, bem real. Mães e, principalmente, pais podem ficar bem preocupados com suas atuações no dia a dia dos filhos, prestando um pouco mais de atenção. As mães, como mostrado, ficam sobrecarregadas e com uma eterna sensação de culpa, atribuída por elas mesmas ou pelos próximos. E os pais, alienados, receberão a conta em algum momento. Começando por serem comparados com os pais da série, inúteis.

Sophia Lillis tem um papel importante para a trama

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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