A Qualquer Custo é faroeste moderno nos cinemas

por Marcelo Seabra

Destinado a chegar no mercado nacional de forma discreta, talvez no Netflix, A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016) chamou tanta atenção em festivais e premiações que acabou ganhando sua merecida estreia nos cinemas. O faroeste moderno causou sensação pela direção madura, roteiro bem amarrado e ótimas atuações e não a toa levou um bocado de prêmios e outro tanto de indicações, como as quatro ao Oscar, incluindo melhor filme. Por isso, o longa deve ganhar bastante espaço nas salas de exibição.

Responsável pelo roteiro de Sicario (2015) e da continuação, Soldado (2017), Taylor Sheridan é mais lembrado como ator, como nas séries Sons of Anarchy e Veronica Mars. Depois de rodar pela lista negra de roteiros desde 2012, quando foi o destaque da temporada, ele finalmente viu seu texto ser comprado e começar a ganhar vida – e ainda foi indicado a uma penca de prêmios, como Oscar, Globo de Ouro e BAFTA. O diretor escolhido, David Mackenzie, tem alguns trabalhos curiosos, como Encarcerado (Starred Up, 2013) e Sentidos do Amor (Perfect Sense, 2011). Por ser escocês, poderia ser uma opção inusitada para comandar um filme bem característico do sul norte-americano, mas cumpriu sua tarefa de forma exemplar. Objetivo e elegante, ele costurou bem os talentos envolvidos, como uma ótima fotografia e uma montagem ágil – de Giles Nuttgens e Jake Roberts, respectivamente, ambos também de Sentidos. Roberts também foi lembrado pela Academia.

Chris Pine (o Capitão Kirk de Star Trek) e Ben Foster (de Inferno, 2016) vivem irmãos que decidem assaltar bancos para conseguirem pagar a hipoteca do rancho onde cresceram. Enquanto o mais novo, Toby, vê aquilo como a última saída, o mais velho, Tanner, parece ter gosto por violência. Não é coincidência que ele tenha saído há pouco da cadeia por outros crimes. Algumas informações são lançadas discretamente nos diálogos bem polidos para que conheçamos um pouco mais dos dois. Como nem tudo são flores, eles têm federais no encalço, dupla liderada pelo bem humorado racista Marcus Hamilton – outro grande papel na invejável carreira de Jeff Bridges (Oscar por Coração Louco, 2009, e indicado como coadjuvante por este).

Em entrevista à revista Rolling Stone, Sheridan conta que a ideia para o roteiro surgiu juntando duas percepções que teve: quando visitou suas raízes no interior e viu várias casas vazias, e após conversar com o tio, um delegado federal forçado a se aposentar mesmo ainda tendo o que oferecer. Dessa revelação, podemos perceber que o longa tem sua parcela de crítica social, mostrando o que os bancos fazem com os pequenos fazendeiros, que dependem de empréstimos para salvar suas terras e, por isso mesmo, as perdem. Para os bancos, com capital suficiente para explorar riquezas naturais, esses terrenos são muito mais valiosos. Em momento algum, o roteiro glamouriza a vida dos criminosos, nem toma partido. Os dois lados da lei são mostrados de forma imparcial, como se até o diretor estivesse acompanhando o desenrolar para ver no que ia dar.

Evocando propositalmente vários clássicos do Cinema americano, Mackenzie homenageia seus filmes favoritos enquanto prova a teoria de que os tempos estão mudando. Esse é um dos temas tratados em A Qualquer Custo, que parece ser apenas mais um faroeste despretensioso, mas, a exemplo de “colegas” como Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2007) e The Rover – A Caçada (2014), acaba indo mais longe do que parece inicialmente. E a família é um valor apontado: aconteça o que acontecer, os irmãos seguem juntos.

Bridges se diverte com ótimos diálogos

Marcelo Seabra

Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é mestre em Design na UEMG com uma pesquisa sobre a criação de Gotham City nos filmes do Batman. Criador e editor de O Pipoqueiro, site com críticas e informações sobre cinema e séries, também tem matérias publicadas esporadicamente em outros sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro, no Rock Master e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena.

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