Chuva de terça feira (28/01) longe de ter sido uma tragédia, virou oportunismo político

Foto: Praça Marília de Dirceu – Amalou

Está completando hoje oito dias da fatídica noite em que BH recebeu um dos maiores temporais de sua história, terça feira (28/1). As imagens veiculadas em tempo real nas redes sociais chocaram e revelaram erros antigos na ocupação do solo da capital, construída de forma desordenada por décadas. Uma cidade com 122 anos que foi impermeabilizada e teve seus rios cobertos por avenidas, obrigando a natureza esconder-se debaixo do asfalto.

Para ocasião que foram feitas, as obras de cobertura dos rios estavam corretas e representavam modernidade. Infelizmente muito pouco ou quase nada pode ser feito hoje para reverter este cenário e BH estará sempre sujeita a inundações quando os níveis de chuva aumentar.

O que aconteceu na terça feira na zona sul foi uma tragédia ou apenas um susto sem vítimas?

Foto: Tragédia provocada por terremoto no México em setembro de 2017

No inconsciente coletivo o que aconteceu nas últimas semanas foi uma tragédia que BH jamais esquecerá. Na agenda do prefeito, uma oportunidade de fazer política eleitoral antecipada e posar como salvador da pátria além de conseguir recursos federais que serão usados em obras às vésperas da campanha à reeleição.

Mas será que de fato foi uma tragédia como pareceu? Um olhar atento nos locais onde a água desceu em volume maior do que o normal os prejuízos maiores foram os causados à propriedade privada, casas, carros e comércios lindeiros aos cursos de corregos. Guardadas as devidas proporções, subtraindo desta análise os deslizamentos e soterramentos que mataram mais de 40 pessoas, (onde elas não deveriam morar) os prejuízos ao equipamento urbano não foi tão significativo quanto parece, especialmente aqueles causados pela chuva de terça feira (28/01) e  que está longe de ter sido uma tragédia nos moldes daquelas registradas na região serrana do Rio em 2012 e que custou a vida de mais de mil pessoas, ou as provocadas por terremotos, furacões e outros eventos naturais.

Foto: Chuva de terça feira Av. Prudente de Morais

A chuva de terça feira (28/1) virou noticia e assuntou pelas imagens registradas primeiro na Av. Consul Cadar, bairro São Bento, em seguida na Av. Prudente de Morais e finalmente na Praça Marília de Dirceu, em Lourdes. O Córrego do Leitão transbordou e levou com ele parte do asfalto, tampas de ferro e meios-fios. Na Praça Marília de Dirceu, o cenário de destruição aparente, com carros de pernas para o ar, causou pânico. Contudo, passado o susto e retiradas às placas de asfalto que despregaram do solo, poucos trechos foram afetados.

Mais importante do que pareceu, foi o que revelou e que é indicio de erros graves na aplicação do asfalto de avenidas da capital. Ocorreu também na Av. Teresa Cristina no domingo (19/01). Erro similar pode ser visto na Av. Carlos Goulart, na esquina com a Av. Professor Mário Werneck no bairro Buritis. Se ao invés de camadas finas de asfalto o serviço tivesse sido feito dentro das normas corretas, os danos seriam muito menores e a sensação de estrago imperceptível.

O que manda o manual da boa engenharia em relação a aplicação de asfalto?

 https://s2.glbimg.com/msxcOkaDt8a0ZzsKOTsOPQFo3kk=/620x402/s2.glbimg.com/6yn2l2dap9GxEI3oVFfx-sjLE6A=/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2016/06/20/info-asfalto-01_UJMgDVT.pngEstrutura de Pavimento – Inforgráfico: G1

Manda o manual da boa engenharia que se o solo for resistente, adicionam-se entre 5 e 10 centímetros de terra semelhante à original para reforçar. Se ele for instável, como o de um brejo, a camada pode ir de 60 centímetros a 3 metros de espessura. A sub-base, ou base granular, é um estrato de cerca de 15 centímetros, geralmente composto de pedras de 7 a 10 centímetros de diâmetro. Os espaços vazios são preenchidos com pó de pedra e compactados com rolo compressor.

Em lugares pouco movimentados essa camada pode ser feita de saibro (uma mistura de areia, argila e cerâmica), ou rochas pequenas. Com 7,5 centímetros de altura em média, a base é feita de pedras de 2 a 5 centímetros, cujos formatos se encaixam após a compactação. Os espaços são preenchidos com asfalto diluído, que impermeabiliza e dá liga.

Na superfície é aplicada uma película de um tipo de asfalto chamado emulsão asfáltica, que gruda a base ao revestimento que virá por cima. O pavimento é revestido com cerca de 5 centímetros de concreto asfáltico. O asfalto é um material negro derivado de petróleo que começa a amolecer e a ficar grudento a partir de 50 ºC. Quando esfria, endurece e fica bem preso à base. Os asfaltos modernos, que precisam aguentar muita carga, têm aditivos químicos e restos de pneus para durar até 30 anos. Todos os locais afetados são de grande movimentação de veículos e não estavam preparados para a força das águas em pavimento de péssima qualidade. Serviço mal feito que custou caro aos cofres públicos e foi por água abaixo.

Recuperação dos estragos da chuva acontece a passos lentos, propositadamente.

Foto: Limpeza da Av. Prudente de Morais – Site PBH – Obras de recuperação paralisadas

Outro detalhe que chama atenção é o fato de que passados oito dias da chuva, exceto a Praça Marília de Dirceu, a prefeitura não providenciou o recapeamento de nenhum dos pontos afetados. O cruzamento de Av. Prudente de Morais e Rua Guacui, bairro Luxemburgo recebeu apenas as tampas de ferro que descolaram, mas o asfalto continua danificado. Av. Carlos Goular, Av. Consul Cadar e a Praça Marilia de Dirceu poderiam estar recuperadas em menos de dois dias, pois trata-se de serviço corriqueiro que não requer grandes esforços.

Prefeito aproveita-se do clima de terror para fazer política e garantir a reeleição.

Foto: Prefeito Alexandre Kalil

O que parece é que o prefeito quer aproveitar o clima de terror que se instalou para tirar dividendos políticos, e amealhar recursos que servirão para uma maquiagem na cidade às vésperas das eleições. Para a sorte dele e azar dos munícipes que enxergam além das aparências, parte da imprensa e da opinião pública é conivente e também está ganhando com a farsa montada depois dos temporais. Se a cidade tivesse uma Câmara Municipal autônoma e atenta, todo este circo já teria sido denunciado e os estragos corrigidos.

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5 comentários em “Chuva de terça feira (28/01) longe de ter sido uma tragédia, virou oportunismo político

  1. Como foi dito no texto, são 120 anos de história e decisões, que outrora fora sinais de modernidade, que resultou no que hoje colhemos.
    A pressão da ocupação dos espaços urbanos, a baixa permeabilidade, a falta de dispositivos de armazenamento da água das chuvas nas edificações, falta de pavimento permeável, assim como os passeio.

    Todo curso d’água têm suas áreas de inundação, isto é um fenômeno natural.

    É um tema que deve ser debatido por pessoas que podem, efetivamente, contribuir para criamos um plano de intervenções que possam mitigar os efeitos de anos de equívocos.

  2. Está reclamando da demora? Isso porque é na zona sul, né! Vai ver como é na periferia. Quer um exemplo? Dá uma volta no entorno do viaduto João Samaha e do caído Batalha dos Guararapes! A região espera desde 2014 a conclusão das obras! Compare os projetos e veja a diferença entre o planejado e o executado no local.

    Desde 2014! Já teve uma copa do mundo depois disso e nada! E os reclamões da zona sul se queixam de alguns dias!

  3. Tecnicamente não sei fazer comentários sobre o asfalto mas debaixo de minha ignorância reza a lenda que os mesmo buracos reaparecem ao menor sinal de chuva. Sempre achei que estás camadas finas de asfalto que deixam buracos à vista nos mesmos lugares e todos os anos são vítimas de uma falta de fiscalização e um contrato punitivo de qualidade e tempo. Não é possível gastar todos os anos com os mesmos tapas buracos. Que os provisórios venham se tornarem definitivos. Outro comentário como cidadã acho que uma pessoa que ocupa um cargo público falar para o Brasil inteiro ouvir que a Prefeitura tem gente “foda” é de uma deselegância e muita falta de postura. A palavra poderia ter sido substituída por competentes.

    • Foda nem é mais palavrão! E eufemismos atenuam o que não deveria ser atenuado! Combina apenas com o politicamente correto, que por sua vez já encheu o saco de todo mundo!

  4. O problema é que a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil não é colocada em prática com planos federais, estaduais e municipais prevendo metas para intervenções de curto, médio e longo prazo.
    Um exemplo: A água de desce da Lagoa da Pampulha e passa na região do aeroporto, inundando a Av Cristiano Machado, o final da Av Sebastião de Brito, as Ruas Gilson Bretas e dos Trabalhadores é resultado do serviço feito quando foi inaugurada a Linha Verde (trecho nos bairros Suzana, Vila 1º de Maior e Estação São Gabriel).
    É repetição do que aconteceu em 2009, 2010 e 2011 e, naquela ocasião, os “especialistas” alegaram que dependia de um “estudo hidrológico da bacia do Onça”. Incrível: O “estudo” nunca apareceu.
    Todos sabem do problema: PBH, CMBH e COMDEC BH, Governo de MG, CEDEC MG e ALMG, além da Secretaria Nacional de Defesa Civil (SEDEC), MPMG, e toda a mídia. Fizeram um péssimo trabalho no trecho canalizado e as águas não são comportadas, sendo inevitável o transbordamento.
    Mais de 10 anos se passaram sem que fosse providenciada e noticiada conclusão dos estudos e iniciada intervenção estrutural para resolver o problema; espalharam placas falando em risco de inundação e tornaram isso definitivo.
    A despeito do que se faz no socorro e assistência há grave falha e desperdício com reconstrução após os eventos; sem as intervenções estruturais preventivas a repetição parece inevitável (inundação, desalojamento de pessoas, resgates dramáticos, perdas materiais e humanas, distribuição de cestas-colchões-cobertores, sobrevoos de autoridades, protestos e confrontos com a polícia, campanhas de arrecadação de donativos, reportagens emocionantes sobre solidariedade).

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