Quem machuca a pele por querer?

Esta semana atendi um caso de Skin Picking ou Transtorno de Escoriaçao (TE), uma doença psiquiátrica cuja característica primordial é escoriar (machucar) a própria pele, de forma repetida e consciente, produzindo lesões importantes e, às vezes, irreversíveis. 

Marina (nome fictício) veio até mim para tratar de sua ansiedade e, ao longo da consulta, comentou que desde a adolescência “cutuca” sua pele e que tem vergonha de expor suas pernas (não usa saia, short e roupas de banho) já que tem cicatrizes provocadas pelas repetidas escoriações. Isso também gera insegurança em seus relacionamentos íntimos, provocando evitação e baixa autoestima por não conseguir controlar seu impulso.

“Machucar a minha pele passou a ser um vício, semelhante a alguém que tem dependência à drogas ou álcool. Sempre que me sinto ansiosa, tensa ou até mesmo entediada tenho vontade de arrancar as cascas dos machucados em minha perna”, diz ela.

O caso de Marina é típico dos quadros de TE,  que é um transtorno psiquiátrico classificado no DSM-5 (manual de diagnóstico americano) como uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo. Cerca de 1,4% da população apresenta esse tipo de problema, sendo mais comum nas mulheres e começando na adolescência.

O aparecimento da acne, muitas vezes, inicia o hábito de cutucar o espremer as espinhas, mesmo que piore o quadro estético. Existem muitos casos que iniciam-se após picadas de insetos ou outras feridas, embora também possa acontecer em uma pele sem lesões.  

O problema é que, com a continuidade do comportamento lesivo, a pele do local fica constantemente ferida, o que faz a pessoa cutucar novamente e aí cria-se um ciclo muito difícil de ser interrompido. Com anos ou décadas de escoriação, as cicatrizes aparecem (misturadas com as lesões ativas) e traz sensação de vergonha e impotência para o portador do transtorno.

Na maioria das vezes, devidos as consequências estéticas do TE, a pessoa procura a ajuda de um dermatologista. É óbvio que tratar a pele, já cronicamente lesionada, é muito importante mas faz-se necessário controlar o comportamento patológico. O psiquiatra é o médico indicado para conduzir o diagnóstico e tratamento apropriados, devolvendo a esperança no controle do transtorno e consequente qualidade de vida. 

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