O irresponsável jornalismo do “segundo o jornal”

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EFE
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A globalização faz com que as informações sejam difundidas muito mais facilmente. Assim como rumores e boatos que não são – nem de longe – informações. Longe de mim querer ser analista da imprensa. Não tenho vocação, capacidade ou vontade disso, mas chama a atenção como ficou fácil passar um boato adiante, se esquivando das consequências.

O padrão normalmente é igual: um jornal publica uma informação bombástica, sem fontes, sem muitos detalhes (e que normalmente é rapidamente esquecida por ele próprio). Mundo afora outros meios de comunicação repercutem a notícia, sem se importar de apurar se faz sentido ou não. No fim das contas um mero rumor toma proporções gigantes.

Foi assim quando um pequeno jornal colombiano “las2orillas” publicou um boato que Batistuta já mal podia caminhar, por conta de dores nos joelhos. Falavam que ele pensava em amputar as pernas, por conta das dores. Precisou que o ex-jogador viesse a público dizer que estava bem.

Diariamente boatos parecidos se espalham. Barcelona quer Pogba, Dybala, Stones, Coutinho, Marquinhos, a nova joia asiática, a nova joia africana e a nova joia da Groenlândia. A capa de jornal de um dia é subitamente esquecida na edição seguinte porque já há um novo especulado.

E sistematicamente outros meios reproduzem as informações, sem medo de errar, pois se defende com “segundo o Jornal X”. Usar como desculpa que a fonte é um outro meio jornalístico não diminui a culpa de quem publica uma reportagem mal apurada. Jornalismo deve informar e não traduzir notícias.

A última bomba é que o Real Madrid poderia tirar Neymar do Barcelona. Pode acontecer (no futebol, sempre tudo pode acontecer), embora as informações que eu tenha conseguido é de que isso é impossível. Mas imaginemos o quadro: Neymar tem ainda dois anos e meio de contrato com o Barcelona. Sua multa rescisória é de 190 milhões de euros. O jornal catalão Sport publica hoje que o clube da capital poderia pagar ainda 30 milhões de euros de luvas para o jogador, além de 35 milhões de euros por temporada em um contrato de cinco anos.

Ou seja, a operação total seria de 220 milhões de euros – mais do que o dobro da contratação mais cara da história, a de Gareth Bale que custou 99 milhões -. Na última semana a Deloitte divulgou a receita do Real Madrid na última temporada: 576 milhões de euros. Assim, Neymar equivaleria a 36% de todo o faturamento do Real Madrid em um ano. Difícil imaginar que algum clube invista mais do que um terço do dinheiro que ganha em apenas um jogador, não?

Além disso, 35 milhões de euros por temporada é o dobro do que ganha Cristiano Ronaldo. O português, jogador com o maior salário do futebol mundial, leva 17 milhões por temporada. Com 35 milhões, hoje, é possível pagar o salário de Ronaldo e de Messi, mas o Real Madrid ofereceria isso apenas a Neymar… pouco provável, não?

Os valores são astronômicos. Superam em duas vezes o jogador mais caro (para tirá-lo do Barcelona) e o salário mais alto do mundo. Ainda assim há quem veja que não há nenhum problema em divulgar esse suposto interesse do Real Madrid, sem precisar checar as informações ou as cifras.

É no mínimo irresponsabilidade e, no máximo, uma forma fácil de atrair cliques. Que ninguém me leia, mas eu não embarco.

2 comentários para “O irresponsável jornalismo do “segundo o jornal”

  1. Leio desde o início da temporada 14/15 esse blog, quando ainda era dzai. Normalmente você publica algo de semana em semana, mas eu continuo entrando todos os dias, porque gosto de ler seus textos. Nunca vi ninguém comentar aqui, mas queria deixar essa mensagem, como o leitor assíduo que eu sou do blog tiki taka.
    Bom trabalho Marcelo

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