Saúde mental: o que o coronavírus fez com o ENEM?

Por Érica Brito – O tema da redação do ENEM 2020 (realizado em 17/01/2021) “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, demonstrou o impacto do coronavírus sobre a sociedade em diversos âmbitos. Em tempos de pandemia pelo coronavírus, a escolha do tema da redação corroborou com as evidências de que, em 2020, dentre os principais assuntos de busca pelo Google, a grande parte dos mesmos tinham relação com os termos “coronavírus”, “saúde mental” e “segurança”. Mas, de fato, qual é a correlação que se pode fazer entre a pandemia do coronavírus, saúde mental e o tema da redação do ENEM?

Estudante de máscara em sala de aula
Foto: Pixbay – Estudante de máscara

Pra início de conversa

Talvez algumas outras perguntas possam auxiliar à reflexão sobre este questionamento anterior:

  • Se não fosse a pandemia pelo coronavírus as preocupações estariam tão voltadas para a saúde mental?
  • Se não fossem os acontecimentos do ano de 2020, haveria indicadores de busca no Google tão voltados para segurança?
  • Será que as pessoas estariam tão preocupadas em não terem suas mentes adoecidas se não fosse o coronavírus?

Nem sempre a saúde mental foi tema colocado em discussão. Da mesma forma que houve direcionamento do foco para consequências à sociedade, o coronavírus também alcançou um espaço importante do saber e do pensar. Levou estudantes brasileiros, em sua maioria jovens de até 20 anos de idade, a dissertarem sobre saúde mental e a estigmatização, na redação do ENEM.

Quebra de paradigma

A proposta de redação do ENEM 2020 (em 17/01/2021) veio demonstrar, certamente, que o coranavírus também quebrou paradigmas em relação à saúde mental. Historicamente, este era um tema negado pela sociedade e pelo poder público.

Para tal, basta tomar como base o documentário “Holocausto Brasileiro” com a demonstração de grave violação dos Direitos Humanos. Infelizmente, a situação de nulidade e descaso com portadores de acometimentos mentais ainda permanece presente. Entretanto, o que se apresenta no documentário não chega a ser entendido por todos no âmbito dos processos de adoecimento mental do dia-a-dia, se é que se pode dizer desta forma.

O que vem antes do adoecimento mental

Pensar em doença mental significa encarar que nunca houve índices tão assustadores de pessoas demasiadamente ansiosas, a ponto de causar prejuízos em atividades diárias.

Vivemos num momento em que mais de 300 milhões de pessoas têm diagnóstico de algum Transtorno Depressivo. Com a pandemia pelo coronavírus, os índices de ansiedade e depressão aumentaram espantosamente, conforme dados da Organização Mundial da Saúde.

E um período de vivência de medos e receios, geradores de processos mentais alterados. Afinal, o próprio índice de abstenção ao ENEM (51,5%), o maior da história, já demonstra aspectos de fragilização da saúde emocional e desejo de segurança por parte dos jovens e de suas famílias.

Me incluo nesta

Abro um parênteses para me colocar em primeira pessoa, como exemplo, e me incluir ao grande grupo das famílias receosas em terem seus filhos sob o risco de contaminação. Em meu caso, são dois dos meus três filhos que iriam encarar uma sala por cerca de 6 horas; passariam pelo risco de uma “possível-provável-inevitável” aglomeração, sob a pena de contraírem o “danado” do coronavírus ou se tornarem potenciais transmissores. Assim mesmo, arriscamos, reequilibramos nossa saúde mental e optamos pela oportunidade da realização neste sistema nacional de avaliação.

Saúde Mental como pauta obrigatória para o mundo

Tem ficado marcado a necessidade do dimensionamento correto do lugar de importância da saúde mental nas vidas dos seres humanos. Já estava mais do que na hora de se entender que saúde mental precisa ser tema a entrar com tudo em toda e qualquer pauta. Promover um espaço de reflexão sobre saúde mental, em meio à infindável pandemia pelo coronavírus, para diversos alunos que participaram do ENEM, significou dar luz a um tema pra lá de importante.

A saúde mental precisa ser discutida, aprendida e implicada em aspectos de natureza ética, inerente ao ser humano. A saber, referem-se a esta afirmação: compaixão, empatia, respeito, dignidade, amorosidade, valorização e o reconhecimento das vulnerabilidades de todo ser humano.

Ainda neste sentido, é necessário buscar assegurar condições de saúde e prevenção de adoecimento mental, dispor de tratamentos e práticas. Entretanto, não se pode esquecer que a responsabilização deve incidir, principalmente, em âmbito social, institucional e governamental.

Ao menos pra isto o coranavírus serviu

É triste pensar que os olhares, para um maior cuidado com a saúde mental, se voltaram para a saúde mental, apenas a partir da pandemia do coronavírus. Segundo a OMS, até 15 de janeiro de 2021, ocorreram cerca de 91.816.091 casos de coronavírus e 1.986.871 mortes 2021.

Um mundo fragilizado emocionalmente

Em todo o globo terrestre, ao longo dos últimos meses, estão espalhadas pessoas que se sentiram fragilizadas emocionalmente, em algum momento. Há uma crise deflagrada na Saúde Mental. Pessoas ainda estão vivenciando algum tipo de adoecimento mental, que podem variar desde níveis maiores de ansiedade, chegando até a graves Transtornos Depressivos.

São bilhões de pessoas que passaram a se sentir, de alguma forma, inseguras. Tiveram seus nichos privados e sociais abalados, diante de tudo que se deu e ainda continua ocorrendo em 2021. O adoecimento físico veio por um vírus que se adaptou ao ser humano. Já o adoecimento mental, que já estava em suas vias de fato, se instalou de vez.

Neste ano de medo, insegurança, afastamento do convívio social, fica evidente que o ser humano, ao mesmo tempo que é o “dono do mundo”, também está em corda bamba, se equilibrando em busca das resoluções das situações calamitosas, dos obstáculos diários. Vive a eminência do que está por vir.

Vulnerabilidade e saúde mental

Esta vulnerabilidade, anteriormente negada pela maioria das pessoas, na maior parte do tempo de suas vidas, foi escancarada em 2020. Uma realidade falsamente virtualizada, viralizada e individualizada, como resultado das concepções de alegria a todo custo, ideal de perfeição, busca utópica de felicidade, vinha sendo como uma corrente marítima que segue um fluxo contínuo. Houve um acidente que interrompeu drasticamente estes falsos ideais. Pausa para rever formas de viver, fazer escolhas mais adequadas à vida no planeta e reaver aspectos perdidos. Portanto, fica a possibilidade de resgates do que é o cerne da vivência humana no cuidar de si, do outro e do mundo.

Nunca foi tão urgente e importante quanto agora

Portanto, é por isto que precisamos falar sobre saúde mental. Este é o momento em que mais se evidenciou a necessidade de ter uma mente sã como pré-requisito para se conquistar um corpo são em uma sociedade sã, em busca de harmonia e equilíbrio, em todos aspectos da vida. Contudo, friso, neste sentido, saúde individual, familiar, comunitária, social e, por que não dizer, saúde mental, com a palavra em grifo, também na política. Mas, atenção, isto tudo é apenas um início de tudo, um processo de busca a ser instalado, efetivamente, daqui para frente.

Fica a dica! Cuide-se! Você merece!

Se quiser saber mais sobre saúde mental

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QUEM SOU EU

  • Sou Psicóloga Clínica, atendo de maneira virtual e presencial. Agendamentos pelas redes sociais ou e-mail ericabritopsi@gmail.com
  • Tenho experiência em trabalho voluntário em grupos de casais e mulheres
  • Sou colunista do Portal Uai
  • Tive experiência docente em cursos de graduação e pós-graduação
  • Tive, como formações anteriores, mestrado em Microbiologia e graduação em Farmácia com Habilitação em Análises Clínica.
Érica Brito, do Território Singular
Fotos realizadas na Casa Cordis da Érica Brito para o blog Território Singular. Fotos Samuel Gê – 99627-4060

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