Patrões e empregados se unem para barrar o Plano Diretor do Kalil

Por José Aparedido Ribeiro

Empregados e empregadores da indústria, comércio, construção civil e prestadores de serviços se reúnem na manhã desta terça feira (14) na sede da Fiemg – Federação da Indústria de MG, para tentar barrar o Plano Diretor de BH que está na iminência de ser votado em segundo turno no próximo mês de junho. Para as 30 entidades que compõem o movimento “Mais Imposto Não”, o Plano pode levar a economia de BH ao colapso. O PL 1749/2015 cria barreiras para a verticalização da cidade, e é fruto da IV Conferencia de Política Urbana, evento que o setor produtivo não participou por entender que houve manipulação na sua realização.

O arquiteto Luiz Gazzi do escritório de Arquitetura Oscar Ferreira, garante que o Plano tráz muito mais prejuízos para a cidade do que benefícios: “A espinha dorsal do Plano Diretor está quebrada, nada é aproveitável se for mantido o confisco do coeficiente atual que pode chegar a 2,7 vezes o valor do terreno para verticalizações”. De acordo com o arquiteto, a venda de coeficiente partindo de um, não viabiliza as obras e vai parar a construção civil. “Com essa medida a Prefeitura age no sentido oposto ao que deveria para aquecer o mercado e aumentar a arrecadação”. Luiz disse que o caminho correto é manter o coeficiente atual e permitir a venda de outorga onerosa. Fica claro que a questão central é o confisco de coeficiente e não apenas a outorga. O setor produtivo concorda em comprar coeficiente da Prefeitura, desde que o coeficiente permaneça o mesmo da lei atual.

O motorista do aplicativo UBER, Márcio da Silva Lacerda está preocupado com a interpretação que os vereadores estão fazendo do Plano: “Sou capaz de apostar que 90% dos vereadores não entenderam o propósito do Plano Diretor, e estão votando graças às ameaças do Prefeito Alexandre Kalil”. O motorista perdeu o emprego na construção civil em 2014 e não conseguiu mais se recolocar, ele é engenheiro civil formado há 28 anos. Para Lacerda o Plano coloca Belo Horizonte na mesma rota de cidades engessadas e pobres. “Nossa cidade está decadente, e não precisa ser especialista para afirmar isso, basta olhar atentamente: “O Centro da cidade é a prova de que BH perdeu o trem da história”, conclui o engenheiro que ganha a vida como motorista de aplicativos.

Marcos Valério de Oliveira era mestre de obra e perdeu o emprego há seis anos. Atualmente busca sobrevivência no comércio informal no centro da capital, virou camelô para sustentar a família: “Tenho um irmão deficiente, e não tive alternativas, aproveitei as brechas da lei para explorar uma barraca de assessórios de celular na Rua Carijós”. O desempregado da construção civil não entende bem do assunto, mas afirma que milhares de colegas perderam o emprego em virtude da estagnação no setor: “Nenhum setor gera tanto emprego quanto a construção civil”, afirma o mestre de obras que virou camelô e aproveita-se da licença do irmão.

Thiago Jardim é arquiteto e economista, trabalha como pesquisador do IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas. O especialista garante que o Plano vai afetar negativamente a economia da cidade: “A base do Plano é contraditória. As principais metrópoles mundiais caminham no sentido oposto à proposta da PBH. A dispersão da economia em mais de um centro, gera demandas de mobilidade e necessidade de altos investimentos em infraestrutura, e sem isso a produtividade cai, gerando prejuízos para a economia”. Jardim afirma que a prefeitura está dando um tiro no próprio pé. Ele acredita que nem a regra de transição que flexibiliza aprovações de projetos por três anos, será suficiente para alavancar a construção civil. “Vejo com muita preocupação o fato dos vereadores estarem votando não por convicção, mas por pressão do prefeito e da secretária de regulação urbana”, alerta o arquiteto. 

Maria do Rosário Caldas mora no Aglomerado da Serra e acredita que o Plano será importante, pois garante uma casa para ela no futuro. Foi o que ela ouviu dizer quando esteve na Câmara Municipal, convidada por um ativista muito conhecido dos movimentos populares, o Frei Gilvander, que atendeu o chamado do vereador Pedro Patrus (PT): “Com o dinheiro que a Prefeitura vai arrecadar com a venda dessa tal de outorga vamos ganhar casa”. Ela  espera que a tal casa prometida pelo Frei e pelo vereador do Partido dos Trabalhares seja no mesmo local onde ela nasceu, e não em alguma cidade da Região Metropolitana; “Eu nasci, criei meus filhos e vivo aqui até hoje, há 38 anos”, conclui a moradora do maior aglomerado de favelas de BH.

Os debates serão no auditório Albano Franco na sede da Fiemg, a partir das 8h30, com entrada liberada para empresários e trabalhadores. A direção do Movimento “Mais Imposto Não” espera presença de pelo menos 10 vereadores e dois pré-candidatos à Prefeitura de BH, o vereador Mateus Simão (Novo), e João Vítor Xavier, deputado estadual do (Cidadania). São necessários 28 votos para aprovação do Plano Diretor, mas o prefeito Alexandre Kalil não tem garantido os 28 vereadores. Para Ricardo Catão, vice-presidente do Sinduscon – Sindicato da Indústria da Construção Civil, a briga não está perdida: “Estamos preocupados com o futuro da cidade, com os empregos e esperamos que os vereadores tenham sensibilidade, compreendam que a aprovação deste Plano nos moldes que ele se apresenta será uma tragédia”, alerta o engenheiro que também atua como pequeno construtor.

 

6 comentários em “Patrões e empregados se unem para barrar o Plano Diretor do Kalil

  1. “A união faz a força”, acredito e espero que assim seja, sobretudo nesta questão em que a intenção é positiva, de extrema importância para o destino da nossa cidade.
    É desesperador pensar no prejuízo de ter aprovado um plano diretor absurdo como este, que só poderá ser alterado daqui a oito anos, e que parece ter sido planejado com o único intuito de trazer prejuízo à Belo Horizonte.
    Muita boa sorte e um muito obrigada para os cidadãos que amanhã estarão lutando em defesa da nossa BH.
    E à você José Aparecido, parabéns e gratidão por não desistir, e inteirar a população sobre o que de relevante acontece em nossa cidade.

  2. Chega a ser deprimente ler sobre esse plano diretor. Alguém dizer a outra pessoa que ela vai ganhar casa com a “tal outorga onerosa” é de uma desonestidade moral absurda. Na verdade quem vai ganhar é o sr. prefeito…que tem inúmeros terrenos em regiões periféricas da cidade. Eu como proprietário de terreno no bairro São Pedro, vou perder 70% do valor do imóvel, herança de família, para o benefício de poucos. Que o prefeito e vereadores, assumam o ônus político, caso este plano passe. Vão ter muitos inimigos , formadores de opinião, pela frente.

  3. Importante esclarecer à Da Maria do Rosário e a outros que escutam a versão da Prefeitura que, o mercado não consegue pagar a conta, não conseguirá comprar outorga. Quem hoje pode pagar 30% a mais em um imóvel? Eh esta a conta inicial… Portanto, a Prefeitura não terá dinheiro para investir. O desemprego aumentará muito; o comércio continuará fechando as portas e a construção civil não reagirá.

    • Cíntia, a construção civil não vai morrer por causa disso. Ela somente procurará outro lugar para investir. Outros bairros, outras regiões.

      • Evaldo, a construção civil vai procurar outras regiões sim, mas não em BH e sim nas cidades da região mertopolitana, como Nova Lima, Sabará (entorno dos bairro Boa Vista e Santa Inês), Lagoa Santa e outras. Ao invés de trazer recursos para BH, o plano diretor vai tirar recursos de BH. Caso ele seja aprovado, depois de alguns anos isto ficará claro, pois nos primeiros anos de vigência do novo plano direitor os edifícios ainda em construção em BH atenderão à parte da demanda por imóveis na cidade.

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