Um cara que merece todo o respeito…

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Para muita gente, ele ficará conhecido eternamente como a voz que ecoou nos ouvidos de Felipe Massa há exato um ano dizendo “Felipe, Fernando is much faster than you” (Felipe, Fernando está bem mais rápido do que você) o que, no jargão da F-1 atual, asséptica e medrosa, já que as equipes fazem de tudo, mas têm vergonha ou medo de admitir, era sim uma ordem para abrir caminho, que meses depois, na reta final do Mundial, acabaria se justificando, já que os pontos fizeram diferença e permitiram ao espanhol estender a batalha pelo campeonato até Abu Dhabi, e aí o desfecho é outra história.

Mas falo do inglês Rob Smedley, quase o alterego do brasileiro fora do cockpit, sua consciência, já que piloto e engenheiro têm uma cumplicidade sem par nas categorias de fórmula. No rali, em que há a presença de um navegador, a história é outra. Mas na F-1, é necessário ter muita confiança no trabalho que foi e está sendo feito para arriscar a vida dentro de uma margem menos perigosa e buscar o danado do último décimo de segundo. E se alguém hoje duvida da competência da parceria, vale lembrar que Massa realmente estourou na Ferrari em 2007, quando a equipe fez uma troca nos engenheiros e, no ano seguinte, não foi campeão do mundo por uma triste combinação que todos sabemos de cor.

Pois foi exatamente em meio à tensão por aquela batalha, pela rivalidade com Lewis Hamilton, em Interlagos, que tive a chance de conversar com o engenheiro que talvez vivesse seu fim de semana mais tenso. Olha que a ideia era fazer um paralelo com Phil Prew, à epoca responsável pelo carro do compatriota na McLaren, mas a abordagem e o tratamento foram tão arrogantes e desnecessariamente mal-educados que, por sorte, virou matéria de um personagem só.

Sim, porque a conversa com Rob não ficaria apenas nas questões técnicas, no estilo de seu piloto e na expectativa por algo que parecia tão distante àquela altura, mas ainda era possível. Havia algo mais, muito mais humano e delicado, uma história que eu não sabia como seria tratada pelo personagem. Coisa de um ano antes, Rob viu a esposa Lucy perder o primeiro filho (uma menina) do casal na mesa de parto, enforcado pelo cordão umbilical. Fato felizmente raro, mas infelizmente possível. E, desde então, o casal Smedley se engajou numa luta para melhor o atendimento pré-natal nos hospitais britânicos. E os pilotos e colegas passaram a colaborar doando capacetes, macacões, luvas, ou qualquer outro tipo de memorabilia que pudesse ser leiloado.

Cheio de medo, toquei no tema, e encontrei alguém que soube se tornar mais forte com a tragédia. De forma surpreendente, ele contou que gostaria que o atendimento às gestantes em seu país fosse cuidadoso e bem feito como no Brasil – e enumerou vários motivos para eu não duvidar da comparação. E o melhor estava reservado para o fim: algo que não foi contado aos quatro ventos, ou motivo de publicidade: os Smedley tinham acabado de ganhar o primeiro herdeiro na ocasião.

Volto no assunto por descobrir que o sopro de vida na família não deu fim à luta e ao engajamento para que milhares de outros casais tenham condições dignas. Smedley apadrinhou um evento de caridade, em 2 de setembro, em prol do Zoe’s Place Baby Hospices, em Londres, quando serão leiloados, entre outros, um macacão de Massa, um capacete de Giancarlo Fisichella e várias outras doações que ainda estão sendo recolhidas pelo circo. Pelo que vai meu respeito, meus votos de sucesso e a sensação boa de que, mesmo num mundo movido a dinheiro e rivalidade, uma das expressões máximas do capitalismo sobre rodas, a vida tem muita importância. E aproveito para deixar o e-mail de Lucy Smedley (lucyesmedley@talk21.com) caso alguém queira trocar ideias, se informar sobre as iniciativas, discutir problemas comuns. Por que pouco importa se é Inglaterra ou Brasil, se tem por trás o glamour da F-1 ou está na força de uma comunidade humilde. Exemplos como esse são globais, justos, válidos e dignos de todo o apoio…

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