SENNA

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A danada da fratura na perna direita resolveu chegar dois dias antes da estreia nacional do documentário Senna, e só agora, com algum esforço, foi possível acompanhar o trabalho do britânico Asif Kapadia. Impossível separar o jornalista que acompanha o mundo da F-1 de maneira intensa (felizmente várias vezes de perto) do garoto que, naquele 1º de maio de 1994, perdeu a hora e ligou a TV apenas a tempo de ver a Williams de nº2 se desintegrar na curva Tamburello, num GP de San Marino que parecia não ter como ficar ainda mais trágico, depois do voo impressionante de Rubens Barrichello e da morte de Roland Ratzenberger.

O que eu posso dizer, acima de tudo, especialmente para quem não viu, é: vá ao cinema, e mergulhe num relato pungente. Entre quem viveu a fase de ouro do tricampeão, é difícil ficar indiferente ao fenômeno, ao que ele representou primeiro como dono de um talento único; em seguida como sinônimo de um Brasil que tinha do que se orgulhar num momento em que todos os principais indicadores despencavam. Ainda que houvesse acaloradas discussões sobre quem era melhor – Senna ou Nelson Piquet – eu prefiro ficar com a emocionante disputa no GP da Hungria de 1986 que, aliás, não faz parte das quase duas horas de imagens do documentário.

Porque Senna é mais do que o retrato mais completo de uma personalidade única. Muitos momentos inéditos, outros de que sinceramente a grande parte das pessoas não se lembrava (eu incluso) e, acima de tudo, um recorte preciso de uma época de ouro do automobilismo. Não se trata pura e simplesmente de exaltar a figura do tricampeão, ou de criar a aura de herói – na maior parte do tempo os depoimentos nos ajudam a entender o contexto, a dar novas cores a episódios mais do que conhecidos, a tentar decifrar o que se passava na cabeça de alguém que, ao levar a McLaren 4/4 à pole do GP de Mônaco’1988, disse estar guiado por uma força maior e a pilotar como se estivesse em outra dimensão. Difícil discordar ao se deparar, na tela grande, com o que mostra a câmera instalada no carro naquela volta mágica.

Ayrton nunca foi perfeito, e o filme mostra isso. Ao ser derrotado pela Williams de Nigel Mansell, em 1992, criticou a liberdade dada pelo regulamento – o FW12C é talvez o mais perfeito carro da história, com a eficiência de uma suspensão ativa que se ajustava automaticamente a cada centímetro de asfalto. O próprio brasileiro, no entanto, queria pilotar para o time de Frank Williams no ano seguinte e contar com tal vantagem – Alain Prost não deixou. Quando finalmente conseguiu, no fatídico 1994, já não contava com toda a ajuda da eletrônica. Talvez por isso sentisse o carro tão instável.

Mas Senna é bem mais. É a chance de entender a rivalidade com o francês narigudo que, como qualquer grande campeão faria, procurou usar todas as armas que tinha à disposição. Também a possibilidade de ver um Ron Dennis descontraído, sorridente; relembrar os tempos de glória da Lotus, ou se impressionar com a mão de ferro do francês Jean-Marie Balestre à frente do esporte. O relato de um piloto que, embora competitivo de maneira até obsessiva, era capaz de parar o carro em plena Les Combes, em Spa, para amparar o francês Erik Comas acidentado. Que, se tivesse aceitado o conselho do amigo Sid Watkins, o médico que tentou desesperadamente socorrê-lo em Imola, estaria entre nós até hoje. Chega a provocar arrepios acompanhar cada momento daquele fim de semana fatídico, ver no rosto de alguém tão acostumado a desafiar limites a tensão que parecia antever o pior; entender que certos gestos estavam sendo praticados pela última vez. Sem entrar em polêmicas estéreis, Kapadia e sua obra dão fim a uma dúvida que pairava no ar há 16 anos: infelizmente não é pesadelo ou ficção, é verdade. Mas nem o muro foi capaz de dar fim à vida de um gênio. Para definir a obra em uma frase, ficou à altura do personagem…

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