SEM O KERS É COVARDIA (Coluna Sexta Marcha – Correio Braziliense)

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*** Como na temporada passada, o blog terá uma versão impressa a cada segunda-feira depois dos GPs da Fórmula 1, no caderno Superesportes do Correio Braziliense. Que você, caro leitor que, por acaso não tenha acesso ao CB, poderá ler aqui. Aí vai a primeira…

    E pensar que, há não muito tempo, ele cogitava trocar os carros da Fórmula 1 pelos veleiros que disputam a America’s Cup e a regata de volta ao mundo, por considerar que, neles, poderia usar toda a sua criatividade sem esbarrar em regras rígidas. Felizmente Adrian Newey mudou de ideia e conseguiu, em meio a todo esforço dos homens da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para limitar a fantasia dos projetistas, espaço para fazer a diferença. Lógico que ainda é muito cedo para afirmar, que foi apenas a primeira de 19 etapas e que os 5.303m das ruas do Albert Park foram feitos sob medida para os carros da Red Bull – que conseguem ser infinitamente superiores aos rivais nas curvas e brilham justamente quando há longas sequências sem freadas fortes. Mas não deixa de ser irônico que Sebastian Vettel não tenha precisado das duas grandes novidades da temporada, imaginadas justamente para aumentar o espetáculo.

    Que não teve sequer a chance de usar o Downforce Reduction System (DRS, o nome pomposo da asa traseira móvel), ficou mais do que claro. Largou na frente, terminou na frente, e em nenhum momento durante as 58 voltas teve um adversário na alça de mira. Mas o mais impressionante estava guardado para o fim da corrida, quando a equipe inglesa confirmou que os carros do campeão mundial e de Mark Webber não contavam com o Kers. Segundo ele, não por certeza de que o sistema seria desnecessário ou confiança de que a corrida se transformaria em passeio (ao menos para o alemão) mas, por culpa de Newey.

    Conhecendo a forma de trabalhar deste inglês de 58 anos, nascido na mesma Stratford-upon Avon de William Shakespeare, que se graduou em engenharia aeronáutica, fica fácil entender por que. Newey é obcecado com a eficiência aerodinâmica de seus projetos. Quem lembra das Leyton House do fim da década de 1980, o primeiro carro com a marca registrada do nosso personagem, pode ter uma ideia do que isso significa. Em certas pistas, mesmo com o limitado motor Judd, eram fantásticas, a ponto de brigar pela vitória contra os carros com motores turbo. Em outras, um verdadeiro desastre, além de quebrarem com frequência. O preço a pagar por uma mecânica “empacotada” num desenho radical.

    Os homens da Renault hoje (depois de muito trabalho) se divertem ao falar sobre as exigências de um projetista que nada tem de estrela, e transformou-se num dos últimos exemplares de uma raça em vias de extinção – Rory Byrne se aposentou, Ross Brawn já não emprega seu talento no desenho dos carros; John Barnard, Gordon Murray e Steve Nichols estão há muito afastados do circo. “O habitual é que o carro seja projetado em torno dos componentes mecânicos, do conjunto motor/câmbio/radiadores. Com Adrian é o contrário. Nós é que tivemos que nos adaptar ao que ele havia determinado. E não é fácil, mas o resultado vale a pena”, dizem os franceses. Com o Kers não foi diferente. Newey optou por uma solução ousada, que ainda não é confiável o suficiente, para alojar baterias, motor/gerador e sistema de refrigeração. Por sorte (na verdade competência), o RB7 é tão eficiente em todos os aspectos que os cavalos extras do sistema nem foram necessários.

    Mas é lógico que um carro, por melhor que seja, não faz o trabalho sozinho. E dá gosto ver a pilotagem de Vettel, segura, perfeita, flertando com o limite sem superá-lo em nenhum momento. Consequência do título, da força mental que ele proporcionou? Sim e não. Foi o mesmo Vettel que correu com a corda no pescoço em Abu Dhabi, sob toda a pressão do mundo, e fez sua parte para garantir o nº 1. E que, em meio à festa por mais uma vitória, já falava para a equipe: “vamos seguir trabalhando, estamos no caminho certo”. Como parece estar também a McLaren, apesar de não contar com o revolucionário sistema de escapamento. Na Ferrari, a tradicional reunião das segundas-feiras promete ser tensa. Ao contrário do esperado, o carro é confiável, mas não rápido o suficiente, e a hora é de correr para os reparos. E, no mais, como o GP da Austrália sempre reserva algo surpreendente (e desta vez foi pouco), impressionante a maturidade de Vitaly Petrov. Nem mesmo o mais otimista empregado da Lotus Renault apostaria num pódio sem contar com Robert Kubica. E enquanto Nick Heidfeld se perdeu na responsabilidade de substituir o polonês, o russo correu sem pressão, como se continuasse o espetáculo de Yas Marina, quando resistiu aos incessantes ataques de Fernando Alonso e ajudou o espanhol a dar adeus ao título. Show, por enquanto, só do touro vermelho…

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