“”Schieb ihn raus”” e a Stock, de novo…

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Não foi um fim de semana dos mais memoráveis nas pistas se considerarmos pegas e disputas por posições – o domingo entra para a história do automobilismo por causas bem menos interessantes. Começou com algo que eu nunca imaginei que ouviria, quanto menos de um dirigente tantas vezes elogiado e louvado aqui mesmo neste espaço como o Dr. Wolfgang Ullrich, principal autoridade da Audi Sport. Se você não soube da história, Timo Scheider, com uma RS 5 DTM, foi ultrapassado por Pascal Wehrlein e Robert Wickens na segunda corrida do fim de semana da etapa austríaca do DTM, em Spielberg, e,  na continuação, deixou que o companheiro da Mercedes tomasse também sua posição, diminuindo a diferença para o líder do campeonato Matthias Ekströem, que recebeu a bandeirada em primeiro.

Pois Doktor Ullrich nem sequer se deu ao trabalho de esconder e, pelo rádio, ordenou a plenos pulmões: “Schieb ihn raus”, o que, em bom e velho português, pode ser traduzido como “passe por cima deles”. O que Scheider, como soldado fiel, fez, também sem pestanejar. Um toquezinho no carro do canadense na freada da Curva 3 e lá estavam os dois carros estrelados na caixa de brita, como pinos de boliche derrubados.

Tenho certeza de que Ullrich, que comandou até agora brilhantemente o esquadrão da casa dos quatro anéis na endurance sabe que não se brinca com a segurança dos adversários – lembro-me uma vez quando Luiz Felipe Scolari foi flagrado pedindo a um jogador “dá nele, acerta ele”, e foi o suficiente para cair o mundo (olha que estávamos falando de futebol). Isso não se faz em nenhuma circunstância, e é apenas de se entender, mas não aprovar, quando um piloto se vê prejudicado por um concorrente e daí vem um natural desejo de vingança que, se posto em prática, deve ser exemplarmente punido.

E o pior de tudo é que estamos falando de um campeonato em que as três montadoras são parceiras e fazem de tudo para deixar as disputas restritas à pista. Não é um esquadrão camicaze da armada japonesa na II Guerra, em que morrer pela pátria se tornava gesto de heroismo e coragem. Estamos falando de esporte, e de um campeonato em que, nos últimos anos, se alguém teve motivos para reclamar, foi a Mercedes, não a Audi que, como a BMW, tem vencido e conquistado o suficiente para o departamento de marketing ficar tranquilo. Difícil agora olhar para Ullrich com o mesmo respeito e admiração – será que ele mandaria passar por cima de uma Porsche nas 24h de Le Mans (lembro que as duas marcas pertencem ao Grupo VW). Talvez seja hora de afastá-lo do posto e deixar a coordenação esportiva nas mãos de Dieter Gass, alemão que, entre outras coisas, foi engenheiro de Cristiano da Matta na Toyota (F-1). Muito feio, péssimo para a reputação da Audi e do campeonato.

Por aqui, inconcebível é o mínimo que se pode dizer de um fim de semana marcado por crianças atravessando a pista sob bandeira verde e por um acidente que poderia perfeitamente ter sido evitado. Como no polêmico caso de Cacá Bueno, faltaram bandeiras. Vi e revi os toques de Rafa Matos e Felipe Fraga no carro de Thiago Camilo e não encontro uma bandeira amarela sequer sinalizando um carro que se arrastava no ponto de maior velocidade do traçado de Curitiba. Por muito menos as corridas têm sido neutralizadas em outros certames, que se deixasse Camilo encostar onde conseguisse para, então, relargar com segurança, ou se congelasse o resultado da volta anterior. Mais uma vez o bom exemplo vem do Mundial de Endurance (WEC), em que o diretor oficial de prova, o português Eduardo Freitas, é quem dá as comunicações oficiais via rádio a todos os carros. E não é recomendação, é ordem, antes mesmo de qualquer bandeira tremulada. Escapou-se de uma tragédia por muito pouco, mas mesmo os danos materiais são pesados para os times. Se alguém ainda acha que corrida de automóvel é brincadeira, melhor mudar de opinião rápido, antes que se lamente novas tragédias evitáveis…

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