REFLEXÃO SOBRE UMA PERDA SENTIDA

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Embora o escritor José Saramago sustentasse, com razão, que a morte é algo que faz parte do nosso cotidiano desde que chegamos ao mundo – há células que morrem e se regeneram, outras não, até que nosso ciclo por estas terras esteja encerrado – é difícil lidar com a perda. O próprio português dizia escrever para permanecer vivo por mais tempo, ir além da existência física pura e simples.

Toda essa introdução para falar de uma perda especialmente sentida. Testemunhar certas coisas, vê-las de perto, é muito diferente de ouvir falar. Especialmente quando a convivência em questão é de anos, e diz respeito a um piloto que conheci saindo do kart, e que felizmente teve a chance de mostrar o que sabia quando tudo parecia jogar contra. Já naquele tempo o telefone tocava e o que seria um simples contato se transformava em conversa longa, boa. Falava-se sobre os sonhos de um pai, as expectativas e a felicidade com as vitórias do filho, mas sobre bem mais que isso. O que podia ser publicado e o que não, para não atrapalhar negociações, atropelar acordos.

O mundo deu voltas, várias, mas as primeiras palavas eram sempre as mesmas: “Gini, é o Sérgio, pai do Rafa”. O mesmo que deu ao filho o primeiro kart, com 11 anos e fez com que o primogênito herdasse não apenas a paixão pela velocidade, mas vários outros valores que o fizeram brilhar. Nem todos sabem, mas o Rafa em questão – Rafa Matos – chegou aos EUA com US$ 100 no bolso (algo que virou quase lenda) e teve de sujar a mão de graxa em muitos karts até conseguir trilhar seu caminho. Para dar cada passo na ladeira rumo ao topo, precisava passar nos vários vestibulares que enfrentou: Barber Regional, Barber Dodge, Star Mazda, F-Atlantic e Indy Lights. Sempre contava com a dedicação, a paixão, o exemplo do pai que, nos primeiros anos, deixava o pensamento voar longe e imaginava o herdeiro alinhando nas 500 Milhas de Indianápolis.

Sonho que se transformou em realidade, e que foi testemunhado etapa a etapa por quem, depois de inúmeras viagens de ônibus e carro nos tempos do kart, teve o privilégio de ver o filho aclamado numa das principais categorias do planeta, em circuitos lendários.

Pena que o coração que bateu mais forte a cada momento especial, a cada largada ou bandeirada, resolveu aprontar das suas. Sérgio se foi sábado, em silêncio, e deixa saudade não apenas à família. Porque há pais e pais. Uns quase sufocam os filhos, impõem escolhas, acreditam estar certos sempre. Outros, como ele, querem apenas se mostrar presentes. Estão ali para o que der e vier, respeitando o caminho seguido pelos descendentes diretos, aconselhando, tirando dúvidas, sabendo ser coadjuvantes importantes. Houvesse mais sérgios e o automobilismo brasileiro não apenas teria ainda mais conquistas, como seria mais justo e mostraria que não é necessário nascer em berço de ouro para brilhar. Caro Rafa, força nessa hora tão difícil e não perca nunca a certeza. Onde ele estiver, vai continuar comemorando suas vitórias, sonhando com os próximos passos…

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