Que feio, Hamilton…

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Primeiro ponto: Lewis Hamilton é um senhor piloto, alguém que, ao longo da carreira, soube unir com competência talento e arrojo na medida certa, bem orientado por Ron Dennis; e não faz mal em se espelhar no exemplo de Ayrton Senna e de sua passagem vitoriosa pela McLaren.

Segundo ponto: como todo piloto de ponta que se preze, Lewis não é santo, e sabe usar bem as armas à disposição, tanto dentro quanto fora da pista. Jurou que não havia recebido orientação para deixar Jarno Trulli passar num período de safety car durante o GP da Austrália de 2009, para depois ser obrigado a se desmentir publicamente (o italiano, então na Toyota, chegou a ser punido pelo que não fez). E o que dizer então de 2007, quando comprou a briga doméstica com Fernando Alonso a ponto de convencer o espanhol a romper o contrato e fazer as malas rumo à Renault?

Isso posto, o inglês superou, de longe, as raias da normalidade com a mania de perseguição e boicote. Agora chega a dizer que, se não fosse negro (ou afro-descendente, como preferirem os políticamente corretos), nada disto ocorreria. Não sei se é consequência do sentimento de impotência diante de uma Red Bull imbatível, sensação tardia de que está perdendo o duelo interno com Jenson Button ou alguma fraqueza psicológica antes escondida. Nem era preciso estar em Mônaco para ver que ele passou direto pela chicane em sua única tentativa de volta rápida no Q3. Se foi por ter encontrado a Ferrari de Massa mais lenta ou não, não vem ao caso. Que tivesse entrado na pista com os demais, para não ter de acelerar no fio da navalha.

E querer ser inocentado das lambanças que fez? Michael Schumacher deu uma aula de como ultrapassar na Loews, a curva mais lenta do calendário. Tentar tudo bem, mas recolher o carro ao ver o do rival na trajetória também faz parte do negócio. E não é desculpa de perdedor a de Massa. Do jeito que o carro foi abalroado e perdeu pedaços, estava mesmo instável quando entrou no túnel. Depois ainda teve o toque criminoso no inocente Pastor Maldonado, muito próximo de um resultado excepcional. Também não é necessário ser gênio para entender que a trajetória ideal é a pela esquerda e que, na direita, além da zebra, passa quem está saindo dos boxes ou perdeu o ponto de freada. Querer ter razão ali era o cúmulo. E ele ainda vem chamar os rivais de ridículos e a situação de uma grande brincadeira.

Hamilton está começando a perder boa parte da aura e do carisma que o tornavam diferenciado. Vai passar a fazer parte do time sempre tratado com ressalvas – Alonso e Schumacher são os melhores exemplos, aquela turma do “são pilotos excepcionais, mas não têm a menor ética, adoram dar uma de Dick Vigarista”. Depois do toque entre o inglês e o espanhol na Malásia, o ainda piloto Emmanuele Pirro, que atuou como comissário da FIA na prova, escreveu artigo de duas páginas na italiana Autosprint, justificando a punição aplicada aos dois e lembrou que não dá para ficar raciocinando com jeitinho, que existe um regulamento que deve ser aplicado. Se atrapalhou e pôs a segurança do rival em risco ou não, não interessa, é preciso mostrar que mudar mais de uma vez a trajetória na defesa de posição é infração. Cortar chicane é infração. E chorar assim é feio, especialmente quando tem um adversário que, faça chuva ou sol, segue distribuindo sorrisos (e acumulando vitórias) a bordo de sua “Kinky Kylie”…

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