Quando menos é mais (Coluna Sexta Marcha – Correio Braziliense)

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*** Segunda-feira depois de GP… Quem acompanha o blog com frequência já até decorou o resto do texto. Então, aí vai a íntegra da coluna Sexta Marcha publicada no Correio Braziliense de hoje, sobre a corrida maluca de Mônaco…

Quando menos é mais Você vem da região da Ligúria, na Itália, rumo a Nice, na França (o inverso também vale), com as montanhas à direita e o mar à esquerda. Não fosse pelas placas, e seria quase impossível imaginar que, na parte de baixo de uma colina, está um dos territórios mais charmosos e exclusivos do planeta. Como é difícil imaginar que, por aquelas ruas, é possível montar um circuito de corrida capaz de receber as máquinas e o circo. Se as imagens dos acidentes de Sérgio Pérez e Vitaly Petrov são impressionantes, basta voltar algumas décadas e prender a respiração. O trecho do porto não contava com qualquer proteção além dos pilares de concreto das calçadas.

Conta a história que, em 1966, o diretor John Frankenheimer perguntou, ao italiano Lorenzo Bandini, da Ferrari, durante as gravações do clássico Grand Prix, qual seria o melhor ponto para gravar uma cena espetacular de acidente. No ano seguinte, Bandini perderia a vida exatamente na chicane do porto que havia indicado ao cineasta.

Porque Mônaco é mais do que simplesmente andar de moto na banheira de casa, como uma vez disse Nelson Piquet, parte do time que não elege as ruas do principado entre seus traçados prediletos (e Felipe Massa também integra a turma). É acreditar que, a velocidades infinitamente superiores às do tráfego diário, é possível passar a centímetros do guard-rail. Uma dança de braços e pernas que resiste a todas as evoluções tecnológicas pelas quais a F-1 passou em suas mais de seis décadas. Os 3.348m são o mais curto circuito (perdão pela brincadeira) da temporada, as velocidades médias são as mais baixas, a margem de erro é a menor. Não há, nos pouco mais de 76 segundos de duração de uma volta, um ponto em que seja possível respirar, descansar. Uma pista que exige mão de obra, como deveriam ser todas as outras. E que raramente perdoa erros. Capaz de fazer Ayrton Senna passar do céu ao inferno no espaço de um dia. A volta fantástica que valeu a pole para o GP de 1988, brilhantemente registrada no documentário do inglês Asif Kapadia (quando o tricampeão disse ter sido movido por uma força superior, e fica difícil duvidar). No domingo, a liderança com vantagem de 40 segundos para Alain Prost se esvaiu em um acidente bobo, na entrada do túnel.

Faltavam 10 voltas para o fim da edição deste ano e a perspectiva de uma disputa entre três pilotos fantásticos (Sebastian Vettel, Fernando Alonso e Jenson Button) pela vitória me fazia pensar em abrir a coluna falando de uma corrida clássica, daquelas para ser lembrada por todo o sempre. Imagine só, as demonstrações de arrojo já haviam sido muitas, do começo ao fim do pelotão, e os três viviam situações distintas quanto aos pneus. Mas (e o problema é quando a conjunção adversativa dá as caras), a bandeira vermelha zerou tudo. E transformou as seis passagens finais na procissão a que normalmente se associa os GPs na terra dos príncipes e princesas.

Não que Vettel não tenha merecido, muito pelo contrário. Aliás, numa fase tão positiva, só faltava incluir no currículo uma vitória no Principado, para definitivamente fazer parte dos grandes, ele que abriu a lista com a Toro Rosso em Monza, ainda em 2008. Fossem as corridas sempre assim e quase daria para ignorar que a briga pelos títulos de pilotos e construtores está mais do que encaminhada.

Especialmente porque quem poderia se opor ao piloto de Heppenheim vive um momento de fio desencapado. Uma coisa é ter Senna como ídolo ou espelho, a outra é se considerar reencarnação do brasileiro. Lewis Hamilton conseguiu, em 78 voltas, estragar boa parte da reputação construída tão rápido. Por que diabos ele teria passado a ser o alvo da fúria dos comissários, vítima de complô ou boicote? Pilotando desta forma? Tentando achar espaço na marra? Engraçado é que ele conseguiu receber a bandeirada, enquanto Massa e Pastor Maldonado ficaram pelo caminho. E tem coragem de dizer que é brincadeira, e que brasileiro e venezuelano são “ridículos”? Mais um que se acha intocável e quer tapete vermelho estendido… Durma-se com um barulho desses…

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