PRESO, SÓ SE FOR DIANTE DA TV…

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Aí vão as considerações do titular do blog sobre o GP do Brasil, em Interlagos, e o desfecho do Mundial de 2010. Para quem está chegando agora, trata-se do texto publicado na coluna escrita que mantenho no Correio Braziliense, aberto a críticas e ponderações…

Foi uma corrida só, mas poderia ser lida por diversos pontos de vista. Como o do alívio por não ver Felipe Massa deixar Interlagos algemado, rumo a uma delegacia, depois da ameaça de um promotor que mostrou total desconhecimento da matéria prima de seu trabalho (a Lei), invocando um artigo do Estatuto do Torcedor para rebater um eventual jogo de equipe sem se dar conta de que o Mundial de F-1 é uma competição com regulamento próprio, que prevalece sobre qualquer coisa que os causídicos de cada um dos 19 países visitados legislem a respeito. Além do mais, é de se questionar por onde andava tal profissional em 2007, quando Massa cometeu sim, o crime que tanto se temia agora – permitiu a aproximação e a ultrapassagem de Kimi Raikkonen, abrindo mão da segunda vitória em casa, para que o finlandês se sagrasse campeão. Infelizmente o fim de semana do brasileiro foi uma imagem perfeita de seu inferno astral, de onde ainda se espera que ele consiga sair em breve, ou seus dias não apenas na Ferrari, mas na categoria, estarão contados. E nem em sonho ele teve a chance de ajudar no que fosse Fernando Alonso.

Discursos absurdos à parte, Interlagos consagrou sim, um novo campeão, mantendo uma sequência iniciada no já distante 2005. É bem verdade que a coroa que ganhou dono em São Paulo é menos importante, secundária no imaginário do torcedor mas, sem pestanejar, a mais justa que poderia ser oferecida na temporada. Afinal, as 71 voltas sob o belo sol de São Paulo fizeram apenas confirmar o que é público e notório: a Red Bull conta com o melhor carro do ano com sobras. E desenterrou a caveira que existia na sede de Milton Keynes, que parecia fazer com que as máquinas ali produzidas – inicialmente a Stewart mas, principalmente a Jaguar, que teve como piloto um “certo” Mark Webber – estivessem fadadas ao limbo. Imagino a festa feita por um grupo talentoso que, no fim de 2004, se imaginava sem emprego com o anúncio da Ford de que a marca do felino (que hoje já mudou de mãos, inclusive), estava se afastando das pistas. Na ocasião, o anúncio de Dietrich Mateschitz fez com que muitos nao escondessem o choro de alegria. Saiu o jaguar, entrou o touro vermelho que, como o energético com seu nome promete, ganhou asas. E passa a segunda rasteira nas grandes montadoras, ao menos nas que insistem em ficar no circo. Ano passado foi a Brawn, que nasceu Honda. Desta vez foram os carros azuis de uma marca que não vende mais que… energia enlatada. E que deixaram Mercedes, Ferrari e Renault (esta um pouco menos, já que fornece os motores) comendo poeira.

E é bem verdade que o sucesso se deve muito ao dinheiro mas, principalmente, à criatividade e à eficiência. Só para dar uma ideia, o difusor “explodido” – o conceito em que a saída do escapamento é posicionada quase no assoalho do carro, fazendo com que o ar quente circule pelo difusor e aumente a pressão aerodinâmica, sem criar resistência, funciona como o planejado apenas quando se pisa, um pouco que seja, no acelerador. Isso obrigou Vettel e Webber a modificarem bastante o estilo de pilotagem, tendo que “telegrafar” (no jargão das pistas, manter o pedal da direita pressionado tanto quanto possível) o tempo todo. E reza a lenda dos boxes que mesmo a programação eletrônica dos motores foi modificada para criar um efeito semelhante e tornar o dispositivo perfeito. O que se vê ficou bastante claro em Interlagos: o alemão e o australiano não são, nem de longe, os mais rápidos nas retas. Mas têm uma máquina impecável nas curvas, onde podem andar bem mais forte. Nico Hulkenberg teve seus 15 minutos de fama ao dominar (de forma justa) o treino oficial, mas os 4.309m de São Paulo são implacáveis quando chamados a apontar quem tem o melhor equipamento. Chegou a ser irritante a calma de Vettel ao informar, pelo rádio, que seus pneus supermacios estavam em perfeito estado com 25 voltas, enquanto boa parte dos adversários já havia trocado os seus muito, mas muito antes.

Quanto à decisão do Mundial depois de mais um show das Red Bulls, somente depois da bandeirada em Abu Dhabi é que poderá se lamentar alguma decisão. Afinal, basta nova vitória de Vettel com Webber em segundo e Alonso em quinto, por exemplo, para termos um inédito empate triplo, o que exigiria cálculos e mais cálculos e o uso dos critérios de desempate para apontar o campeão. E pode ser que as McLaren acabem interferindo diretamente na balança, dependendo do desempenho de seus pilotos em Yas Marina. Com os olhos de hoje, não parece tão absurda a decisão da RBR de guardar apenas para um último caso eventuais ordens de equipe. O que é certo é que nem mesmo Alonso terá motivo para dormir um sono tranquilo até lá, pois tem a vantagem, mas não tem o melhor carro. E não basta ser terceiro conforme as posições de Vettel (perfeito no Brasil) e Webber. Tudo indica que será, como em 2008, de tirar o fôlego até a última curva – lembrança doída para nós, brasileiros. E que bom que não tem nenhum promotor para os lados do Oriente Médio ameaçando jogar areia do espetáculo…

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