PARA NÃO ESQUECER NUNCA, PARTE II

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Manual do carro de corrida (na verdade os de pista): você sempre vai deixar o motor morrer quando pensar em soltar o pé da embreagem pela primeira vez. Felizmente ocorre nas melhores famílias, e o passageiro ocasional na maluquice, o engenheiro Carlos Henrique Ferreira, da Fiat, esclarece que é normal, já que há um sistema de bloqueio mecânico. É apertar o botão de partida e… se entender com o câmbio sequencial. Assim que a chave geral é ligada, o painel digital logo à sua frente ganha vida. E haja números, informações, detalhes para prestar atenção. O conselho soa como um mantra: “tem que dar um tranco na alavanca do câmbio, mas um só por vez, ou os giros do motor vão lá no alto”.

Ok, mensagem entendida, percorremos os primeiros metros, com muito cuidado, já que o circuito do Mega Space não tem áreas de escape e eu não quero mudar em nada o aspecto racing do Linea 1.4 T-Jet, nem dar trabalho ao lanterneiro. Nem dá para acelerar tanto, com certeza muita gente seria mais rápida que eu mas bastam uma ou duas voltas para me sentir em casa, sem a estranheza de andar lá embaixo, bastante recuado e sem ver as zebras direito.

Antes de sentar no carro, tive a precaução de perguntar ao colega Emílio Camanzi (que entende do riscado, já disputou Mil Milhas e tudo e acelerou muito carro bom por aí) a marcha usada para fazer a primeira curva. “Comecei fazendo de terceira, mas senti o carro mais no chão em quarta”. Será? Não é que é verdade? Freio um pouco (muito, vai…) antes do que poderia, os discões Brembo param tudo em poucos metros, e não é que a trajetória vem natural e o Linea segue seu rumo? Me encrenquei um pouquinho no cotovelo que antecede a reta dos boxes, mas as ondulações são impressionantes e a trajetória não é evidente…

Mas… e sempre tem um mas, o tal do câmbio sequencial embolou minha cabeça. Entrada da reta oposta, dois empurrões na alavanca e o motor grita desesperadamente. Os gestos do Caíque não dão lugar a dúvida: fiz bobagem. Pensei em engatar terceira e quarta, e espetei uma segunda, do nada. Nalgum lugar do meu cérebro a impressão era de que reduziria se puxasse o comando, não o contrário. O painel dedura: o valente turbo foi a 7.700rpms, quando o limite ideal é 5.500. Erro assimilado, espaço para mais algumas voltas e a sensação deliciosa de piloto por um dia, brincando de acertar as trajetórias, tentar frear mais perto da curva, e imaginando que eu ficaria (relativamente, claro…) craque se tivesse mais umas 30, 40, 50 voltas. Devolvi o Linea e o Caíque inteiros, o que já foi um bom sinal. O comentário “da próxima vez você vai ver como pode andar mais forte” me deixou animado. Acima de tudo, me deu ainda mais respeito e admiração por esses caras malucos que conseguem andar a 240km/h prestando atenção nas informações do painel, defendendo a posição dos adversários e concentrados em fazer a trajetória perfeita. Não é nada fácil. Mas é uma delícia…

Com o câmbio sequencial em primeiro plano, a “cabine de comando” do Linea (Luciano Figueroa/Studio Cerri/divulgação)

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