O profeta Jenson Button (Coluna Sexta Marcha)

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Como a grita da imprensa italiana contra Felipe Massa depois do desempenho decepcionante no GP da Austrália (a equipe agora afirma que o chassi usado pelo brasileiro tinha um problema sério e será trocado, o que ajudaria a explicar a dificuldade) acabou tendo destaque, a publicação da versão impressa da coluna Sexta Marcha atrasou um dia. Tarda mas não falha…

    Interlagos, fim da tarde de 27 de novembro e, no clima de fim de feira que tomava o autódromo (e o circo da F-1, depois de uma longa temporada), um “certo” jornalista – antes que alguém pense errado, era este que vos escreve, está lá registrado no site da FIA – pergunta a Jenson Button, que havia definido o ano que chegava ao fim como bom, diante das circunstâncias, mas ao mesmo tempo ruim, por conta da dupla sentada a seu lado com touros vermelhos nos macacões. “Com uma pré-temporada decente, sem problemas, você acredita que é possível superar constantemente as Red Bulls e brigar pelo título?”.

    Só para refrescar a memória, a McLaren concebeu, em tempos de farra com os gases de escapamento, uma sistema que ganhou o apelido de octopus, ou polvo (nada mais adequado numa categoria que agora está repleta de ornitorrincos e comparações com animais). Seriam oito saídas de escape, uma por cilindro, mas os primeiros testes foram um fracasso e o time de Woking foi obrigado a correr em busca de uma solução convencional, enquanto os rivais, e especialmente os carros de Vettel e Webber, engoliam quilômetros nas pistas da Espanha. E, ainda assim, as Flechas de Prata foram as principais adversárias das criaturas de Adrian Newey.

    “Tenho certeza de que a diferença não é tão grande, tanto assim que nos aproximamos bastante ao longo do ano e conseguimos vencer GPs. Se pudermos desenvolver o carro sem sustos, temos tudo para começar o próximo campeonato em situação bem melhor. Nos 12 dias entre Jerez e Barcelona, raramente Button e Hamilton apareciam no topo da lista de tempos, mas davam toda a pinta de ter muita reserva na manga do paletó. Não por acaso o patrão Martin Whitmarsh fazia questão de destacar. “Nós e as Red Bulls não andamos em nenhum momento com pouco combustível, em condições de qualificação”. Podia ser apenas conversa de pré-temporada, quando tudo é possível e nada é certeza. Aliás, até que os carros chegassem a Melbourne, prevalecia um mantra entoado com a mesma convicção ao longo de todo o paddock, do bicampeão Vettel ao faxineiro da Hispania (se é que a nanica tem dinheiro para tamanha extravagância). “Estamos confiantes e satisfeitos, mas só teremos uma ideia real de nossa condição uma vez na Austrália”.

    Pois eis que depois da longa espera, de muito se apostar, arriscar, tentar interpretar números ou buscar indícios, o cronômetro, implacável, trouxe as primeiras conclusões. E mostrou que Jenson Alexander Button, além de sensacional piloto, tem futuro como profeta. Ainda calou todos aqueles que viam, no MP4/27, “uma simples cópia do antecessor”, “uma máquina sem soluções inovadoras”, ou se perguntavam o motivo de o grupo comandado por Tim Goss seguir caminho oposto ao dos rivais, sem degrau no bico, não por questões estéticas. A maioria das cabeças (e computadores) pensantes da F-1 apostou em aumentar a área livre sob a dianteira dos carros para permitir um melhor escoamento do ar. A McLaren manteve o chassi mais baixo e deixou os adversários perplexos. Como as mudanças na saída dos escapamentos tiraram muita aderência da parte traseira, era nítida a instabilidade nas freadas e reacelerações, a briga para manter a casa em ordem, exceção feita aos carros de números 3 e 4, mais o primeiro do que o segundo.

    O que para alguns foi um cenário de sonho – e não dá para falar em fracasso de Newey e da Red Bull quando, depois de uma qualificação inesperadamente ruim, os dois carros terminam entre os quatro primeiros – para outros teve contornos de filme B de terror. Sim, a própria Ferrari tratou de baixar a bola e prever um começo complicado, mas é impressionante como Felipe Massa sofre sempre com os problemas muito mais do que Alonso. Se o casamento do paulista com Rafaela vai muito bem, obrigado, o relacionamento com os pneus continua problemático, sem perspectivas de solução. A ótima largada iludiu, mas as 52 voltas pelo Albert Park o trouxeram de volta à dura realidade. Mercedes e Lotus deram provas de que vão incomodar; a disputa no pelotão intermediário foi animada como se previa e a lambança de Pastor Maldonado, que numa só corrida podia ter somado o dobro dos pontos da Williams em todo 2011, ajudou a esconder o começo não tão bom de Bruno Senna. Por fim, aplausos para a Marussia, que não treinou, mas viu seus dois carros chegarem ao fim enquanto a Caterham abandonava e a Hispania nem isso. Melhor de tudo é que semana que vem já tem mais…

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